“David Lodge: humor e lucidez de um escritor católico” (Tradução: SNPC).

David Lodge: humor e lucidez de um escritor católico

David Lodge (Londres, 1935), que recentemente lançou o seu primeiro livro de memórias, “Um ano quase bom para nascer, 1935-1975”, não publicado em Portugal, faz parte da grande tradição de romancistas católicos ingleses que marcou o século XX. Lodge, que ensinou ao longo de décadas nas universidades inglesas e norte-americanas literatura inglesa, não só estudou os escritores católicos que o antecederam, sobre os quais redigiu ensaios iluminadores, mas foi também capaz, com lúcido humor, de narrar a vida quotidiana dos católicos ingleses, uma minoria em muitos aspetos à margem da vida académica e social.

Os católicos ingleses eram de facto, na maior parte, pertencentes aos mais baixos níveis sociais, a partir do momento que o grupo se constituiu sobretudo de irlandeses emigrados para Londres à procura de trabalho.

O autor não é exceção, mas precisamente por ter nascido num momento histórico particularmente favorável, ou seja, antes da II Guerra Mundial, pôde usufruir plenamente das facilidades que os governos trabalhistas do pós-guerra executaram para abrir as portas das universidades aos estudantes mais meritórios, ainda que pobres. Assim, apesar de partir da frequência de colégios católicos de nível médio-baixo, conseguir tornar-se professor universitário.

Na autobiografia conta, com um olhar ao mesmo tempo crítico e afetuoso, o seu percurso educativo nas escolas católicas, onde é tocado sobretudo pelas carências no ensinamento da religião cristã. Até da parte dos professores de religião. De facto, ele é educado num clima religioso predominantemente devocional, no qual um sistema normativo de comportamento é substituído pela riqueza da fé e das suas fontes de revelação, que diz respeito sobretudo à esfera sexual.

Lodge, também neste aspeto, confessa-se obediente às normas católicas, tanto que, no longo noivado que precede o casamento com a bela mulher Mary, católica de origens irlandesas, nunca cede à tentação das relações pré-matrimoniais. Um casal modelo, portanto, por razões que serão discutidas apenas em contacto com os católicos americanos, como explica claramente no livro:

«É difícil a quem não recebeu o género de educação católica ministrada a Mary e a mim, compreender de que modo a fé instilada abrangia e controlava cada coisa. A situação era mais sentida no norte da Europa, onde o catolicismo absorveu alguma coisa da espiritualidade escrupulosa dos protestantes, e menos nos países latinos meridionais, onde os leigos tinham uma atitude verdadeiramente descontraída quanto às contradições entre princípios e comportamentos.

Para nós a Igreja era como um clube: tinha um livro de regras que cobria todas as possíveis contingências da existência, e se as respeitávamos ou se se recebia a absolvição depois de as ter infringido, estava assegurada a vida eterna e a ajuda de Deus nas provações difíceis desta vida. Parecia óbvio que não se podiam ignorar as regras tidas como incómodas sem perder a inscrição no clube, e por este motivo muitos católicos tinham “abandonado” a fé por causa do problema do controlo dos nascimentos».

A rede de amigos em que se move permanece muito tempo marcada pela identidade católica, inclusive quando passa longos períodos como professor convidado em universidades dos EUA, assim como muitos dos seus romances mais conseguidos têm no centro da trama a relação entre a religião católica e o mundo contemporâneo. Entre outros pode citar-se “O Museu Britânico ainda vem abaixo”, cujo protagonista, alter ego transparente de Lodge, já pai de três filhos e ainda privado de um trabalho seguro, vive obcecado pela possibilidade de falha do método natural de controlo dos nascimentos utilizado, em conformidade com a “Humane vitae”. A ironia, unida a uma fiel adesão ao credo católico típica de quem pertence a uma minoria não socialmente valorizada, permitem-lhe fazer compreender muitas coisas em torno da crise da família e do afastamento de muitos fiéis da Igreja na segunda metade do século XX. Nas suas recentes narrativas, o ser católico nunca é uma adesão abstrata, mas um modo de viver quotidiano, que se experimenta concretamente nas dificuldades de cada dia.

Uma vez mais, de um catolicismo marginal mas vivo como o inglês, chegam inspirações críticas unidas ao convite a uma adesão mais consciente e sentida ao nosso credo.

 

FONTE: Lucetta Scaraffia In L’Osservatore Romano, Trad.: SNPC, Imagem: D.R., Publicado em 11.01.2018 (VER: http://www.snpcultura.org/david_lodge_humor_e_lucidez_de_um_escritor_catolico.html , acesso:15-01-2017). Outro artigo: David Lodge: pensamentos secretos entre duas culturas, DESIDÉRIO MURCHO (20, Julho,2002) in: https://www.publico.pt/2002/07/20/jornal/david-lodge-pensamentos-secretos-entre-duas-culturas-172923, acesso: 15-01-2017.

 

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«QUATRO» notícias locais… “o Local é também Global”

«QUATRO» notícias locais… (o nosso “local” é – também – “global”) que não abrem o “Telejornal” e seu “Rolo Compressor”, MAS, parafraseando,

PAOLOASOLAN, “(…) viveremos intensamente esperando este tempo: que é sementeira e não de recolha”. Professando a Esperança Caminhamos Juntos.

PRIMEIRA: Apresentação do novo livro do P.e Georgino Rocha, “Rostos de Misericórdia, estilos de vida a irradiar”, com a intervenção do professor Carlos Borrego e do Bispo de Aveiro, dia 17 de janeiro. A sessão acontece no CUFC (Centro Universitário Fé e Cultura), pelas 21h15, aberta a todos.

SEGUNDA: Da programação do Instituto de Educação e Cidadania (IEC), com sede na Mamarrosa, em Oliveira do Bairro, consideramos importante divulgar a realização da conferência “Ciência e Religião: Encontros face ao mistério”, pelo professor João Paiva, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, dia 18, quinta-feira, às 18H00, nas instalações IEC

TERCEIRA: As III Jornadas Diocesanas da Infância Missionária e das Famílias Missionárias, Organizadas pelo Secretariado Diocesano, decorrem no Largo da Igreja de Nossa de Senhora de Fátima, no dia 21 de janeiro, entre as 10H00 e as 17H00. A iniciativa é aberta a todas as crianças e a todas as famílias, onde encontrarão diversos espaços que sensibilizam para a temática missionária, teremos a participação do Grupo Paroquial de Mamarrosa.

QUARTA: Vai decorrer a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos”, de 18 a 25 de janeiro, sobre o tema bíblico “A tua direita, Senhor, resplandeceu de poder” (Ex. 15,1-21). Na nossa oração pessoal e comunitária devemos rezar e testemunhar por esta causa do espirito ecuménico das Igrejas Cristãs.

Um Ano de 2018 Pleno de Dons e Tarefas fecundos(as)… ppedro josé

 

 

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“As paróquias têm novas potencialidades” – Entrevista do P.e Francisco Melo, sobre o livro “A paróquia tem futuro?”, in Correio do Vouga (10-01-18).

“As paróquias têm novas potencialidades”

A paróquia é um dos melhores meios para a Igreja realizar a sua missão na vida dos homens. No entanto, num contexto de mudanças sociais, a sua validade e utilidade são questionadas. Entrevista o P.e Francisco Melo, que acabou de publicar o livro “A paróquia tem futuro?”, in Correio do Vouga, pp.2-3, 10-01-2018.

NOTA BIOGRÁFICA PASTORAL (RESUMIDA), NOS 25 ANOS de PADRE: O P.e Francisco Melo foi ordenado no dia 10 de janeiro de 1993, por D. António Marcelino, na Sé de Aveiro. Comemora hoje as bodas de prata sacerdotais. Ao longo dos 25 anos de padre, com passagens e colaborações em Timor Leste e São Tomé e Príncipe, foi vigário paroquial de São Salvador de Ílhavo (1993), pároco de Vale Maior e da Ribeira de Fráguas (1995-2008), diretor-coordenador do Secretariado Diocesano da Educação Cristã e do Departamento Diocesano da Educação Cristã dos Adultos (início em 1999), pároco da Gafanha da Nazaré (2008-2014), da Gafanha da Encarnação (2009-2014) e da Gafanha do Carmo (2013-2014), vigário episcopal para a Pastoral Geral (2009-2014). Coordenou em 2012-2013 a “Missão Jubilar”, que comemorou o 75.º aniversário da restauração da Diocese de Aveiro. De 2014 a 2017 estudou Pastoral na Universidade Lateranense de Roma. Desde setembro de 2017 é pároco de Oliveira do Bairro e Palhaça e vigário paroquial de Bustos e Mamarrosa.

CORREIO DO VOUGA – Acaba de publicar o livro “A Paróquia tem futuro? Para uma paróquia geradora de quotidiano cristão em Aveiro – Do II Sínodo Diocesano aos nossos dias”. Pressupõe que há ameaças sobre a paróquia. Quais são?

FRANCISCO MELO – Antes de mais, importa afirmar que a paróquia não é um fim em si mesma, antes ela é localização da Igreja e uma das formas e meios para a Igreja realizar a sua missão na vida dos homens. A paróquia não é absoluta em si mesma e não é sequer de instituição divina. Mas ela existe e é omnipresente no contexto eclesial que nos é dado viver. É neste sentido que poderemos afirmar que a paróquia, enquanto localização e realização da missão da Igreja, sofre um tempo de crise na medida em que é questionada a sua validade e utilidade para o hoje da missão da Igreja.

O que faz questionar a validade e utilidade da paróquia?

O capítulo II do livro apresenta uma breve história desta instituição e aborda as questões que têm afetado a paróquia, sobretudo nos últimos cem anos, depois um tempo de grande vigor no pós-Concílio de Trento. Na paróquia influi o novo contexto sociocultural caraterizado pela complexidade, pela desconfiança diante das verdades absolutas, pelo subjetivismo e individualismo, pela modificação da relação do tempo/espaço com o homem e as sociedades por ele constituídas, pelo utilitarismo individual em que o económico se sobrepõe à pessoa, pela nova relação do indivíduo com a autoridade, pela globalização e pelo pluralismo cultural e religioso. A estabilidade deixou de estar presente e de ser fator organizador dos agregados humanos, uma vez que vivemos uma mobilidade intensa e diversificada, uma nova relação com a territorialidade, um novo sentido de pertença e uma nova forma de relação entre o indivíduo e a instituição. Em conclusão, parece-me mais apropriado falar de um novo contexto onde a paróquia se situa. Um contexto portador de novas dificuldades e de potencialidades, mais que de ameaças.

Logo no início do livro, pergunta “Será a paróquia uma instituição válida para o ser Igreja hoje em Aveiro?”. O livro, resultando seu doutoramento, é uma resposta positiva a esta questão. No seu entender, que caraterísticas deve ter uma paróquia para que seja a Igreja “acessível a todos”?

Antes de mais quero dizer que não fiz o doutoramento, mas o segundo grau da licenciatura canónica em Teologia Pastoral. Respondendo diretamente à questão, uma paróquia, como também a Igreja no seu todo, precisa antes de mais de realizar um verdadeiro discernimento pastoral. O Papa Francisco na Evangelii Gaudium, no n.º 20, afirma que cada cristão e cada comunidade hão de discernir qual é o caminho que lhe pede o Senhor. Um discernimento que tem por base o princípio da Encarnação, que nos leva a ter em conta princípios que nos vêm da Revelação e do Magistério da Igreja, mas que nos leva ao mesmo tempo a ter em conta a realidade concreta do homem como lugar não só a evangelizar, mas como lugar através do qual Deus nos manifesta a Sua vontade. Também um discernimento que tem na comunidade cristã o seu sujeito, porque o discernimento pastoral não é privilégio de alguns. Para que assim seja, é precisa um correta compreensão e assimilação da eclesiologia de comunhão e que se traduz num estilo de governo sinodal. É deste modo que a paróquia será acessível a todos, se bem que esta acessibilidade faz parte da paróquia em si mesma, que pela sua delimitação, territorial ou outra, contém em si esta capacidade.

Conhecendo a realidade aveirense e tendo estudado em Roma, com certeza abordou o que poderá ser uma paróquia modelo. Como é, de facto, a paróquia modelo? Existe em algum lugar? Há bons exemplos de paróquias?

Em primeiro lugar, é preciso referir que na Teologia Pastoral, o modelo não é um ideal absoluto. Se assim fosse, não teria relação com a realidade sócio-histórica. É antes uma figura heurística do concreto, do contexto da vida do homem e da localização da Igreja. Os modelos servem somente para individuar se uma forma concreta responde às exigências do realizar da comunidade cristã em concretas coordenadas históricas. Tendo tudo isto por base, no capítulo IV do livro propõe-se que a comunidade cristã paroquial seja uma viva comunhão, que tem a sua fonte na vida trinitária expressando-se numa ligação umbilical à Igreja particular e universal e se expande nos homens, cultura e sociedade, na qual é constituída e como tal, capaz de gerar espaços de fraternidade e significação. Uma comunidade em constante envio missionário no aqui da sua história e que se configura como servidora das bem-aventuranças. Mas, é preciso realçar que este modelo, aqui referido sumariamente, mais não é do que uma possível referência para o discernimento pastoral que cada Igreja particular e cada comunidade local precisa de fazer para responder ao hoje da vontade de Deus no lugar em que se constitui. Pelo que acaba de se dizer, percebe-se que a identificação de um modelo que se adapte a uma realidade paroquial concreta é algo não consentido na Teologia Pastoral. Tal seria negar o valor da realidade humana e histórica concretas nas quais Deus manifesta continuamente a Sua vontade salvífica.

As paróquias, pelo menos no nosso contexto, implicam um padre como pastor, líder e gestor. Poderá haver paróquias lideradas por leigos, na sua ótica? Como vê o papel dos leigos?

A Bíblia ensina-nos que é Jahvé o único pastor de Israel. Contudo, apesar de Jahvé ser o único pastor do Seu povo, isto não impede que Deus escolha representantes para colocar à frente do Seu povo, tendo como missão a guia e condução do Povo: é o caso de Aarão, Josué, David… O Messias vem apresentado como o novo David que será um autêntico Pastor. Jesus nunca se apresenta a si mesmo como um sacerdote, mas como Pastor. Por isso, Jesus comove-se, tem compaixão da multidão, porque são como ovelhas sem pastor: uma compaixão visceral que inquieta quem a experimenta. Em Mateus 9,35 – 10,4, percebemos a compaixão pelas multidões e a eleição dos doze, os quais torna participantes da sua missão. Por esta razão transmite com autoridade o seu poder libertador e sanante. Através dos doze, a missão de pastor é assim confiada aos Bispos e aos Presbíteros a eles unidos. A guia e condução das comunidades cristãs deve ser desenvolvidas por eles. Nesta missão são chamados a ser sobretudo líderes, isto é, capazes de se relacionar com a mudança, embora também sejam chamados a ser de algum modo gestores, ou seja, capazes de relacionar com a complexidade e de promoverem uma organização capaz de responder à mudança e complexidade. A função de guia e de condução está reservada ao pastor (Bispo e/ou Presbítero), que o devem ser em estilo sinodal.

Os leigos não podem ser párocos, mas podem colaborar…

Todos os membros da comunidade cristã estão chamados à corresponsabilidade, cuja raiz e fonte está no batismo e que não é antes de tudo uma ajuda aos pastores, mas uma expressão da vida cristã, que encontra lugar e forma principalmente não na cooperação nas tarefas pastorais intra-eclesiais, mas na vida concreta do território, das pessoas, nos lugares de trabalho. Tal facto não impede que alguns sejam chamados à colaboração, que leva ao exercício de serviços e ministérios e à cooperação que implica o exercício de tarefas próprias do ministério ordenado. É neste enquadramento que se pode entender o papel dos fiéis leigos.

O seu estudo foca-se no período que vai do II Sínodo Diocesano (1990-1995) até aos nossos dias. É sabido que o P.e Francisco foi coordenador da Pastoral Diocesana de 2008 a 2014, com particular relevância na Missão Jubilar (2012-2013). Após estes dois anos de estudos em Roma, como olha para o período em que coordenou a pastoral diocesana?

O tempo em que fui chamado a coordenar a pastoral diocesana configurou-se num plano pastoral quinquenal e que teve como ponto de convergência a missão jubilar. Esta, penso eu,

poderá ser motivo de estudo, quando tal se julgar oportuno. Mas ao olhar para esses anos, não posso deixar de concluir que não houve tempo para fazer a passagem para uma etapa seguinte que permitisse fazer frutificar o empenho colocado na implementação de tal projeto pastoral e em especial da missão jubilar. Mas o tempo e a história irão, se tal for oportuno, permitir uma avaliação mais global e consequente.

O P.e Francisco começou, com padre, na cidade de Ílhavo, passou para paróquias mais interiores de Albergaria-a-Velha (Vale Maior e Ribeira de Fráguas), trabalhou a seguir em três paróquias do litoral (Gafanhas da Nazaré, da Encarnação e do Carmo) e está agora na região da Bairrada, mais concretamente em Oliveira do Bairro e Palhaça, como pároco, e Bustos e Mamarrosa, como vigário paroquial. É diferente ser pároco nestas três regiões diferentes, ainda que sempre dentro da Diocese de Aveiro? As comunidades humanas são diferentes de uma região para outra?

Estou nestas Paróquias de Oliveira do Bairro desde o dia 24 de setembro de 2017. Tão pouco

tempo ainda não me permite responder a esta questão. Qualquer resposta minha seria pura precipitação. Falta-me fazer o discernimento pastoral para o qual o passar do tempo é muito

importante.

Para terminar, três perguntas de resposta rápida. Primeira: Gostou de viver em Roma?

Aceitei ir para Roma por obediência ao Bispo da Diocese e por isso vivi Roma como lugar onde tinha que completar uma missão de estudos. E foi o que fiz nos dois anos que me foram dados e por isso vivi Roma como local de estudos numa fase da vida em que me aproximava dos cinquenta anos de idade, com tudo o que isso implica…

Quantas vezes viu o Papa Francisco?

Vi o Papa várias vezes nas celebrações onde participei, mas tive o privilégio de o poder cumprimentar pessoalmente três vezes.

O P.e Francisco – muitos já lhe fizeram esta observação – regressou claramente mais magro. Não queremos entrar em aspetos privados, mas… a comida italiana não era boa?

A comida italiana é muito boa, mas Roma levou-me a andar muito a pé, sobretudo no caminho de ida e de vinda da universidade.

 

FONTE: Correio do Vouga, pp.2-3, 10-01-2018.

 

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é quase natal: quase meditações no fio da navalha

é quase natal: quase meditações no fio da navalha

 

«O Natal é a expressão da caridade. (…) Celebrar hoje o Natal, num espírito de testemunho cristão, exige muito mais do que a simples preparação exterior; remete-nos para o compromisso de cuidarmos dos mais pequeninos, dos mais indefesos e vulneráveis da sociedade.». – D. António Moiteiro

 

Eucaristia a correr… é quase natal – «Tenho» – logo, logo, erro teológico – sempre a correr, eu sinto e também sinto que a Assembleia, constituída em sacramento, também sente o meu sentir. Que imagem nós damos de celebrante a presidir à Comunhão/Missão? Celebro para 4 pessoas e só duas comungam; mas uma das restantes é assídua Leitora, com “L” em grande, graças à Sua Fé, humilde e fiel. Os últimos serão os primeiros da fila. Celebro para 5 pessoas e quatro pessoas comungam. Todas mais santas, em santidade ativa, do que eu presidente… é a Assim a Divina Misericórdia. Recordo e não cito as missas rezadas por Pe. Arrupe, S.J., na excelente biografia que li.

 

Agenda sempre rascunhada a lápis… é quase natal – Sempre a refazer a agenda paroquial e agenda pessoal. É um caos harmonioso? Será o meu tempo espartilhado e agora na realidade: Bustos/Mamarrosa/Oliveira do Bairro/Palhaça, em diferentes papeis e funções. O espartilhar do Espaço que agrava exponencialmente o espartilhar do Tempo. Como resistir? Uso GPS. Invento fora de horas. Peço desculpa de não conseguir memorizar nada. Volto a pedir desculpa… e jogo-me para a frente. A pastoral está no cordão da roupa a secar no sol de inverno. Ironia pessoal.

Escrever as leituras que não fiz… é quase natal – Escrever é uma forma de rezar. Rezar é uma forma de escrever do avesso. Livros que leio e retenho o sumo da história da “Mamarrosa Milenar” (Armor Pires Mota); da “Paróquia Tem Futuro?” (Pe. Francisco Melo) vou lendo no manuscrito académico e agora na edição Tempo Novo.“In Manus Tuas“ (D. António Francisco); “Ética do Quotidiano” (J.B. Libânio). Os livros que não li por inteiro porque tarda a conversão da inteligência e do rezar. Fica suspenso no viver: sim e não. Sou uma nota de roda pé pastoral. Ficam as gratificações de “Pé de Altar”, sem lucro visível.

Agir na Caridade… é quase natal – As confissões que me fizeram um Silêncio Absoluto: “Senhor padre estou revoltado(a) com Deus!?” e têm razão e não a retiro. Retiro-me eu do meu pedestal. Não sou digno desatar os nós existenciais. Apelo e partilho a fraqueza de: “falhar cada vez melhor”. Falo das Confissões sacramentais e de todas as “Não Sacramentais”, que por caminhos tortos, Deus também as faz sacramentais. – Quero a Caridade do Euromilhões! Jogo para que a “Santa Casa” venha em meu auxílio. Joguei – sempre a aposta mínima – e saiu «agora» 4,70 euros e como era uma sociedade de dois (sem autorização explícita…): Investi novamente – ato contínuo –  em nova aposta de 2,50, logo fico com 2,20 a dividir pelo meu sócio de jogo. Uma fortuna de Amizade!? A honestidade é impressiva e evangélica (muito e pouco: pouco que é quase nada).

Agir na Verdade…. é quase natal–  A sociedade líquida e a ausência de «Carácter» que é a essência de uma Ética Ecuménica e Católica: anti-transversal e simbólica. Não escrevo das Raríssimas (vomito na inteligência…) porque “isso” é a ponta do iceberg?! Falo da recusa da Autoridade: do Pai, da Mãe, do(a) Professor(a), do(a) Médico(a), do(a) Arquiteto(a), do(a) Varredor(a) da Rua, do Coveiro do Cemitério – só conheço homens; do(a) Sacristão(a) e também do Padre: ossos do ofício. Sou padre a quem recusam a Autoridade – não falo de autoritarismo clerical e laical – qual o pior – do uso do cabeção: tenho usado mas não abusado… Prefiro trazê-lo aberto para respirar melhor – CONTUDO, sem “a” Obediência: não adianta a teologia, o testemunho, a vida, o projecto, as orientações e normas, “o” Bem COMUM. Cada um faz o que quer e reclama de todos… eu incluído?! Sou um recomeço de alfa para ómega e vice-versa.

Pe. Pedro José, Bustos/Mamarrosa e Oliveira do Bairro/Palhaça, 23-12-2017, caracteres (incl. esp) 4013

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“Natal, expressão da caridade”: mensagem de D. António Moiteiro (2017)

Natal, expressão da caridade

O Natal não é um simples aniversário do nascimento de Jesus; é muito mais do que isso. É celebrar um mistério que marcou e continua a marcar a história da humanidade. Deus veio e vem ao nosso encontro.

Na plenitude dos tempos, Deus enviou-nos o seu Filho. Nasceu o “Deus connosco”, Aquele que mudaria o mundo com a sua mensagem de amor e, sobretudo, de salvação. O “Deus connosco” é também “irmão connosco”. Entrou na nossa história, partilhou o nosso caminho e com Ele aprendemos o verdadeiro sentido de sermos filhos.

O amor desceu à terra. A caridade chegara ao coração dos homens, vinda do coração de Deus, para fazer a sua morada definitiva entre nós. O Natal é a expressão da caridade. Jesus nasceu pobre entre os pobres; nasceu num estábulo de animais na periferia de Belém, porque Maria e José não conseguiram encontrar na cidade uma casa que os acolhesse; fecharam-lhes as portas. Deus não o poupou de nada: nem da pobreza, nem do frio, nem da indiferença. Só a partir da humildade, da pobreza interior, da simplicidade de coração, se poderá estar preparado para descobrir na humanidade a divindade de Deus, que quis enraizar-se na história dos homens. Esta humildade é inspiração para todos os fiéis.

No Natal, muitas e boas lembranças invadem a nossa a mente. Lembranças de momentos preciosos que desfrutamos ao lado das pessoas a quem tanto amamos; pessoas essas que fizeram ou fazem parte da nossa vida. Hoje, mais do que nunca, é necessário transmitir os valores cristãos às famílias. Multiplicam-se as festas, mas nelas tem faltado a essência: Jesus. Cabe-nos criar as condições humanas e as condições de coração para que Ele possa irromper e tornar-se presente na nossa vida e na vida de cada irmão.

Continuemos a contemplar o presépio. A força de Deus, que se manifesta na simplicidade e na fragilidade de uma criança, é a oportunidade de enaltecermos o nome de Jesus através da nossa adoração e testemunho. Todos nós precisamos do amor uns dos outros. Tomemos consciência de que os cristãos, a exemplo de Jesus, estão no mundo para o servir, humanizando-o e integrando-o no projeto salvífico de Deus.

Celebrar hoje o Natal, num espírito de testemunho cristão, exige muito mais do que a simples preparação exterior; remete-nos para o compromisso de cuidarmos dos mais pequeninos, dos mais indefesos e vulneráveis da sociedade. Nesta época, a fé, a esperança e a caridade ganham destaque entre as pessoas de boa vontade, mas a caridade não se pode limitar unicamente à ajuda material. “Não pensemos nos pobres apenas como destinatários de uma boa obra de voluntariado, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida” (Mensagem do Papa para o 1.º Dia Mundial dos Pobres 2017).

O Natal contém um apelo ao homem, para que abra o seu coração ao outro. Precisamos de ir ao encontro do pobre e fazer com que este consiga crescer na fé e na dignidade humana, para que, com a nossa presença e a nossa ação, os ajudemos a superar os problemas do dia-a-dia. Lembremos todos os que foram vítimas da devastação dos fogos que deflagraram nos meses de verão e as exigências que esta situação coloca à nossa vida cristã: “O amor cristão tem duas faces inseparáveis: faz brotar e crescer a comunhão fraterna entre os que acolheram a Palavra do Evangelho e leva ao serviço dos pobres, ao cuidado para com os sofredores, ao socorro, sem discriminação, de todos os que precisam. Se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-lo no rosto daqueles com quem Ele mesmo quis identificar-se: «Tive fome e destes-me de comer…» (Mt 25,35-46)” – (Carta Pastoral Dai-lhes vós mesmos de comer).

Jesus veio ensinar-nos a alargar os horizontes, a ver a vida com sentido de esperança. Haverá verdadeiro Natal, se houver mais compaixão, mais gratidão; se o outro for o centro das nossas atenções e serviços, vencendo o egoísmo, tal como Deus que fez de nós o seu centro, oferecendo-se a nós na pessoa do Jesus do Natal.

Perante uma cultura onde impera o medo, não temamos aproximar-vos de Jesus de Nazaré, porque Ele é Luz e sentido para a existência. Ele é o Caminho que nos convida a segui-Lo com confiança, coragem e esperança. Que este Natal se revele uma ocasião para ressoar a Boa Nova de Jesus no nosso tempo. Abramos o coração e recebamos com alegria o grande presente de Deus, fazendo d’Ele o verdadeiro motivo das festas de Natal.

Que o espírito de família e a proximidade que nos esforçamos por construir, sobretudo no tempo de Natal, não se dilua, mas nos acompanhe ao longo de todo o ano.

Alegrai-vos no Senhor!

A todos desejo um Santo Natal, cheio de paz e de alegria em Jesus Menino.

+ António Moiteiro, bispo de Aveiro

 

 

FONTE: http://www.diocese-aveiro.pt/v2/?p=15553, acesso, 20-12-2017.

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Comunicado Paroquial: 1 ºDia Mundial dos Pobres (19 Novembro 2017).

Comunicado Paroquial: 1 ºDia Mundial dos Pobres

(19 Novembro 2017).

 

Paróquia da Mamarrosa (S. Simão)

Paróquia de Bustos (S. Lourenço)

 – Informações Paroquiais –

 

Em ambas as Paróquias (Mamarrosa e Bustos) para além do que é próprio de cada comunidade.

Tivemos um Gesto: distribuir 1 exemplar por família da Carta PastoralDai-lhes vós mesmos de comer”, do nosso Bispo Manuel Moiteiro, que perante a pergunta “Onde está o teu irmão?” interpela: “Ninguém pode sentir-se demitido da preocupação pelos pobres e pela justiça social. Responsabilidade pessoal e respostas institucionais organizadas são duas exigências decorrentes da caridade que devem caminhar a par” (nº16, p.19) para nos ajudar a viver a Caridade pessoalmente e em Igreja.

Como a Iniciativa pedimos voluntários (3 a 5) para ajudar no estudo/criação do Grupo Caritas Paroquial, como objetivo deste ano pastoral. Na carta do nosso bispo, nos “Desafios Pastorais” lemos: “O II Sínodo Diocesano de Aveiro diz-nos que devemos dispensar o maior cuidado à pastoral da caridade em cada paróquia, e que se promova a formação de grupos ou equipas que concretizem esta ação eclesial da comunidade; que se fomente a partilha cristã de bens; e que a Igreja Diocesana se empenhe em estimular todos os membros do povo de Deus a assumir o compromisso social e a despertar para o voluntariado social (cf. II Sínodo Diocesano de Aveiro, pg. 106-107)” (nº22, p.26).

Os voluntários para este novo grupo devem falar com o Pároco, ou com o Diácono permanente ao serviço das paróquias.

Lembramos a importância de dois textos recentes que ajudam nesta reflexão para perceber a necessidade da pastoral da caridade/social de uma forma organizada e permanente:

“Estranha oferta do Papa: “Dia Mundial dos Pobres” por Pe. João Gonçalves

“Podemos encontrar excelente doutrinação e profundas interpelações na “Mensagem do Santo Padre Francisco para o I Dia Mundial dos Pobres”, que será, este ano, no próximo dia 19. É muito interessante que Francisco não dedica um Dia à Pobreza, mas aos POBRES, porque quer dizer-nos que o importante é a Pessoa carente, e não o conceito de Pobreza, que faz bom tema para discussões entre políticos e sociólogos… em areópagos, onde muitas vezes são confrontados conceitos, se procuram causas, se publicam altas conclusões, mas em que quase nunca há compromissos!

No termo do Jubileu da Misericórdia, o Papa quis “oferecer à Igreja o Dia Mundial os Pobres”! Diz oferta, porque quer ajudar as comunidades cristãs a serem sempre mais, e de modo mais claro, o “sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais carenciados”; a pôr-nos no caminho de maior evidência e transparência do amor preferencial pelos Pobres; eles “pertencem à Igreja por direito evangélico”, como solenemente proclamou o Beato Paulo VI.

Sem a preocupação de uma definição de Pobre ou de Pobreza – os “motores de busca” dão uma boa ajuda! – é preciso olhar à nossa volta, abrir bem os “olhos do coração”, e ver quem são os Pobres, quantos eles são, quais as necessidade primárias que não estão a ser respondidas capaz e dignamente; mobilizarmos pessoas, grupos, entidades públicas e privadas e, de mãos unidas e inteligências abertas, procurar, sem medos nem complexos, mas responsavelmente ir à profundidade das causas e, pondo o dedo na ferida, debelar as reais causas que empurram Pessoas para situações de pobreza, que nos incomodam e envergonham…

Nestes dias ouvimos dizer, em relação ao nosso País, de pessoa com responsabilidades públicas, que “o País está velho, está pobre, está só e está em muitas circunstâncias entregue a si próprio e abandonado”! Suponho que esta afirmação não terá sido pronunciada em contexto do Dia Mundial dos Pobres; mas faz pensar: quem são os responsáveis por tal situação? Como se mobiliza a Sociedade para encontrar soluções?

De certeza que o Cristão não se esconde atrás de razões cinzentas, mas vai à frente! E com a força e o mandato do Evangelho, não nega esforços, abre a inteligência, o coração e as mãos, e partilha teres e saberes, na luta verdadeira por não manter nem alimentar situações em espiral, que deixam tudo na mesma, e levam as Pessoas Pobres a um retorno de causas não suficientemente equacionadas, nem resolvidas.

E, para quem tiver dificuldade em ter à mão a Mensagem do Papa Francisco, transcrevo o que rezo com ele:”…Benditas as mãos que se abrem para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam esperança. Benditas as mãos que superam toda a barreira de cultura, religião e nacionalidade, derramando óleo de consolação nas chagas da humanidade. Benditas as mãos que se abrem sem pedir nada em troca, sem “se” nem “mas”, nem “talvez”: são mãos que fazem descer sobre os irmãos a bênção de Deus” (nº 5). Todos queremos ter mãos assim!”

FONTE: http://sites.ecclesia.pt/cv/estranha-oferta-do-papa-dia-mundial-dos-pobres/ , acesso, 20-11-2017.

“O princípio de um mundo melhor” – Por Pe. Filipe Martins, SJ, Publicado no Jornal “Expresso” (18/11/2017, p.34).

Paróquias de Bustos e Mamarrosa, 20 Novembro 2017.

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Oração a S. Simão, Padroeiro da Paróquia da Mamarrosa (28-29/10/2017).

 

Oração a S. Simão

Senhor Nosso Deus, /

Creio, Espero e Amo, /

Peço a protecção /

do Apóstolo São Simão, /

Nosso Padroeiro, /

Porque Vós, ó Deus, / nos revelastes todas coisas no Filho Jesus Cristo, /

Vós, que sois a eterna verdade e bondade /

no Espírito Santo, /

Fazei que haja menos erro e omissão /

no seguimento do Testemunho Apostólico, /

Nosso Batismo seja vivido na Igreja /

da Comunhão e Missão,

Que o Apóstolo São Simão nos ajude a viver a fidelidade do Batismo, /

Queremos que a Fé dos Apóstolos, /

servindo a todas as pessoas, /

seja a nossa determinação /

no viver e morrer,

Amém.

Padroeiro da Paróquia da Mamarrosa, 2017.

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