Poema “Prece Espiritual” por António de Cértima (1894 – 1983)

Prece Espiritual

 

Ardendo em dôr, em ambição constante,

Em vivo em ânsias…febre de incerteza…

Toca-me a fronte um êxtase olorante.

Que me espiritualiza em Sonho e Reza.

 

Minh’alma é uma chama deslumbrante,

– Chama ideal continuamente acesa.

E volando-se inquieta e crepitante

Da brasa da Emoção e da Beleza!

 

– Ó divino poder, luz de criar!

– Ó vida luminosa a desvairar

No seio desta carne que me arrasa!

 

– Domina em mim o imaterial harpejo

Da minha eterna sede de Desejo

– Prisão de grito e luz, cárcere de Asa!

 

Aveiro 1920

 

 

 

FONTE: ANTÓNIO DE CÉRTIMA, In “Gente Nova” de 24-I-1920, citado por SIMÕES CAPÃO, António Tavares, Roteiro Cultural e Religioso do Concelho de Oliveira do Bairro, Edição da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, 1998, p.83.

 

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Nos Atalhos da Misericórdia: o mistério e o dom, reunidos no serviço.

Nos Atalhos da Misericórdia: o mistério e o dom, reunidos no serviço.

Ao exemplar padre no tratamento médico; e para quem se sente/é destratado. A MÍNIMA PASTORAL da (A)GONIA: “Para todos os vivos há uma coisa certa: mais vale um cão vivo que um leão morto” (Eclesiastes, 9.4).

Ao terminar o dia/noite na (a)normalidade habitual, «hoje», por conselhos sábios, a segunda caminhada consecutiva, «hoje» apenas 40m, ontem 1h30m…(uma “distensão” só se cura com moderação: pároco da aldeia a caminhar na cidade!?); e amanhã, bem cedo em dia de sábado, quem saberá os “Passadiços do Paiva” (a 3ª vez em grupo…); outro padre a ajudar na missa mais cedo; no domingo à tarde, novamente outra caminhada: mais uma Procissão: não faltam oportunidades!!! Para caminhar. Não há soluções, há caminhos. Ao físico que comunga da proximidade pastoral, sempre em ritmo de programação/avaliação; e o pensar, que é rezar e o rezar, para mim, sinal significante do pensar sentido e com o Sentido. Fazer e desfazer 21 anos de sacerdócio: “Mistério e Dom”. Duas palavras densas e suficientes. Procura pensar e rezar os “padres que não são notícia, para contrapor às notícias dos padres que o são, pelas piores razões, nas manchetes dos jornais, nos noticiários das rádios e das televisões”.

Foi-me oferecido o livro… mais um bom livro. Publicado pela Aletheia que decidiu “confessar” onze presbíteros portugueses, reunindo os seus testemunhos num livro agora editado. Quando entrei a última vez na FNAC, lia quase de transversal, das onze narrativas, a confissão do padre que foi “meu condiscípulo”, no curso de Teologia, no Seminário Maior de Coimbra / I.S.E.T.; e vi e reli, os outros nomes e disse para comigo: “– Pode ser que alguém ofereça…”. Não comprei por questão de austeridade orçamental. “Os ‘confessados’ não só são de várias idades, entre os 28 e os 76 anos, como também de diversas proveniências sociais e eclesiais: predominam, como é lógico, os padres diocesanos, nomeadamente do patriarcado de Lisboa e das dioceses do Algarve, Coimbra e Lamego, em representação do sul, centro e norte do país, respectivamente. Também constam os testemunhos de outros sacerdotes seculares, como um presbítero do Caminho Neocatecumenal e um padre da prelatura do Opus Dei. Os restantes, são religiosos: dois jesuítas, um frade dominicano e um missionário claretiano”. Qualquer padre de qualquer ordem religiosa, condição carismática e exercício pastoral, poderia fazer parte do livro. “Por opção da editora, em vez de uma entrevista personalizada a cada um destes presbíteros, todos responderam, com total liberdade, ao mesmo questionário que, diga-se de passagem, não só aborda temas institucionais, como também questões do foro pessoal. Com efeito, para além de uma breve descrição do seu percurso vocacional, foi-lhes pedido que confessassem as suas crises de identidade, as suas alegrias e tristezas, as suas zangas e frustrações, os seus hobbys e amores …” O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada (que venho a citar nas aspas anteriores: ver “https://observador.pt/opiniao/quando-os-padres-se-confessam/”, acesso, 13-07-2018) Regista no livro: “um insidioso pedido – “comente: ‘o traje não faz o monge’” – os onze, de uma forma ou outra, apontam a necessidade de um testemunho externo da condição sacerdotal. São os mais novos que são mais explícitos na afirmação dessa conveniência, que a geração anterior não levava tão a peito. De facto, enquanto o clero diocesano de mais idade geralmente traja à civil, os padres novos, nomeadamente no patriarcado de Lisboa, preza mais o hábito eclesiástico, que veste sem medo, nem vã ostentação”. O Prognóstico só no Fim do Jogo!? Também estou em Jogo?! Faço o trabalho de casa, mas ainda não treino o suficiente para os prolongamentos…

Padre para os cristãos e padre com os cristãos. Os que tem pastor, os que não têm e não o querem. «Sem impor nada e com propostas para tudo»: este é o paradoxo do Senhor da Messe. Padre sempre como cristão no primeiro e do último lugar. Estou e vou continuar aprender a ser “padre-pároco” até conseguir manter a Lucidez, o Serviço e a Fé encarnada, na Cruz/Páscoa. Por esta ordem direta e nos atalhos de misericórdia. Sobre a Cruz, de cada dia e noite, alguns pensam “na cruz com 18 toneladas, 7,5 metros de altura e 4,25 metros de envergadura (para concluir a Basílica da Sagrada Família, que foi projetada por Antoni Gaudí)“. Não é a Verdade Radical. Contudo, quem salva uma alma, salva também o mundo e a sua história: que adiante ao ser humano perder-se a Si Próprio. Isto é uma confissão que é profissão de fé. A preferência é para a “Quinta Oração Eucarística”, em qualquer versão, ou então, diariamente (com pressa ou sem ela) a “Número Três”. Que o Espírito Santo tome conta de mim, quando não dou conta dos casos. Fui consagrado na “gravidez” na duração do terço a Nossa Senhora de Fátima. Não é psicanalise é pastoral biográfica. Rezo por todos(as) os que me ajudam a ser padre e pelos que não contribuem tanto assim. Confessei-me de modo heterodoxo no fim dos Exercícios Espirituais e só resultará quando fizer o mês inteiro, talvez, na Vida Eterna! O dia 13 de Julho de 1997 está a ainda a começar outra vez, em Deus pelos Irmãos crentes e descrentes, tal como o ser padre “Eu-TU”; para deixar de ser padre “Eu-Isso”. Ámen/Aleluia, sem cantar que desafino baixo.

pedro josé, Bustos / Mamarrosa / Oliveira do Bairro / Palhaça, 13-07-2018. 5051

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A vida oculta através da encarnação: o mistério da proximidade (Mc 6,1-6 – XIV TC Ano B).

A vida oculta através da encarnação:

o mistério da proximidade

(Mc 6,1-6 – XIV TC Ano B).

Sempre que Deus utiliza a fraqueza, a debilidade, a fragilidade, a simplicidade, isto é, se dá a conhecer e amar no Mistério da Encarnação, os nossos caminhos ficam diferentes dos seus caminhos. Nós, homens e mulheres do séc. XXI, deixamo-nos, «perplexos» – diante dos Profetas como Ezequiel (“podem escutar-te ou não… casa de rebeldes”; na cidade do Porto, o ex-presidente dos EUA, Obama, e a escuta/ruído gerado à sua volta…); da fraqueza de S. Paulo (…“o espinho na Carne” diante do drama dos 12 adolescentes e um adulto presos na caverna da Tailândia: o resgate, ainda está em curso, faltam quatro adolescentes e o treinador…); e sobretudo, de Jesus Cristo, na aceitação da pequenez da Aldeia de Nazaré e na Proximidade máxima da vida de um carpinteiro, filho de Maria, o Deus connosco no dia-a-dia da História.

Que perplexidade: como desfazer preconceitos, como aceitar a pequenez, e também qual o Dom e Tarefa da Proximidade de Jesus Cristo: onde há falta de fé? Onde há fé verdadeira? A mobilização no “Projeto dá Mais Tempo à Vida”, no concelho de Oliveira do Bairro, é um exemplo notável. Jesus Cristo veio ao nosso encontro assumindo a fraqueza, a simplicidade, a debilidade, a pobreza, nas situações mais simples e banais, nas pessoas mais humildes e despretensiosas… É preciso que interiorizemos essa “lógica de Deus”, para que não perder a oportunidade de O encontrar: perceber os seus desafios, acolher a proposta de vida que Ele nos faz.

Esperava-se um Deus forte e majestoso, que se havia de impor de forma estrondosa, e assombrar os inimigos com a sua força; o Jesus de Nazaré não encaixava nesse perfil. Os preconceitos fecharam os esquemas mentais, já previamente arrumados. É necessário purificar o coração e a mente. Apesar da incompreensão Jesus continuou, em absoluta fidelidade. O nosso testemunho atravessa as incompreensões e oposições… no desanimo e na frustração. Pedir a Graça da Coragem, da Serenidade e dos Pequenos Passos. Saber gerir bem as situações na falta de acolhimento, de compreensão e mesmo sem aceitação. Sobretudo, pedir o discernimento para saber a diferença entre o que queremos fazer pelos outros e o que os outros precisam que façamos por eles. Verdadeiro Homem, verdadeiro Deus, essa tensão ainda não está assumida. É esse Jesus Cristo, habitante de Nazaré, que tal como nós, humano, na marca divina eliminou a distância para Deus e entre nós.

pedro josé, Bustos / Mamarrosa / Oliveira do Bairro / Palhaça, 09-07-2018. 2389

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Os Presentes Grátis: desembrulha e conhecerás a compra/oferta?! (cfr. Lucas 1,57-66.80)

Os Presentes Grátis: desembrulha e conhecerás a compra/oferta?!

Numa sociedade espectáculo (a que preço!): «o maior entre os filhos de mulher»: Um Presente Grátis, cujo real significado ainda está a ser avaliado hoje (cfr. Lucas 1,57-66.80).

ANÚNCIO – Conforme o anjo tinha anunciado a Zacarias, Isabel deu à luz um filho. Também os festejos da nossa vida têm sido anunciados: «onde…como… quando… por quem…». A expressão de Isaías desde o «ventre materno»; «seio materno»… Contar a história com a voz de mãe e a voz de pai (quem assume essa missão… é urgente). Temos silêncios mudos e traumáticos: aprender a escutar, tão importante, como falar (e contar a história: narrar…). Não temos tempo de ouvir/escutar, não conseguimos contar. GESTO e NOME – Para o povo judeu a circuncisão feita no oitavo dia do nascimento era um sinal da aliança concluída entre Yahweh e a nação. O cumprimento deste rito não era reservado aos sacerdotes pois até as mulheres, pelo menos numa época tardia (cfr. 2Macabeus cap.6)[1], podiam circuncidar, mas o costume devia ser o de mandar vir o encarregado local. “Ao tempo de Jesus só no momento da circuncisão o menino recebia o nome. Pode ligar-se este uso ao facto de Deus ter mudado o nome de Abraão e de Sara com a declaração sobre a lei da circuncisão (Gn 17,5.15). Não era hábito dar ao filho o nome do pai, dado que os povos daquela zona, como muitos outros povos, diferenciavam as pessoas dum certo clã acrescentando o nome do pai (como Simão filho de Jonas; Mt 16,17). No caso de João, talvez a avançada idade do pai sugerisse um procedimento diferente. Dar o nome à criança poderia caber tanto ao pai como à mãe. O Antigo Testamento está repleto de exemplos que atestam este costume. O facto de Isabel indicar «João» como nome da criança provocou certa objecção, talvez por ser hábito nessa altura escolher um nome que já existisse na família, o que não seria o caso de «João»”.

Nós «ouvintes da Palavra», agarrados pelo visual, saturados de ruídos – Tal como os momentos incompreensíveis que os vizinhos viveram. Aquela criança era diferente das outras: Que virá a ser aquele menino? O que é que Deus quer dela? Como vivemos as surpresas que a vida nos traz? E com quem as partilhamos? O texto termina laconicamente, não respondendo… e apontando para a sua manifestação a «Israel»[2]. João cresce fisicamente e amadurece longe da vida dos homens, mas próximo de Deus, no deserto. Onde o cheiro e anúncio, como «Precursor»[3], a Vida/Testemunho de Jesus Cristo: somos da família de Jesus, ou aqueles primos, em terceiro ou quarto graus… que sempre incomodam?! Anúncios. Gestos. Nomes. Pedidos concedidos, negados por uns, esquecidos cinicamente por outros… que desperdício. “O menino e a água do banho…tudo perdido”… o NOME faz Luz… João, que significa «Yahweh concede graça» (Yo-hanan). Que quer dizer o teu nome (a tua história, na voz de terceiros…) e que missão encerra para ti e para nós?

FONTES: P. Franclim Pacheco in http://www.diocese-aveiro.pt/v2/?p=16688, e P. Georgino Rocha, in http://www.diocese-aveiro.pt/v2/?p=16708, acessos, 23-06-2018. Apontamentos de Homilia (s): 24 Junho/2018: Nascimento de S. João Baptista – (12º Dom.TC – ANO B) – Resumiu e transcreveu: pedro josé, Bustos / Mamarrosa / Oliveira do Bairro / Palhaça, 23-06-2018. 3720.

 [1] 2 Macabeus, 6, 10: “Duas mulheres foram acusadas de circuncidarem os filhos e, com eles pen­durados aos peitos, foram arras­ta­das publicamente pela cidade e precipitadas do alto das muralhas”. [2] …tempo para ler «Jerusalém – A biografia», Simon Sebag Montefiore, in Expresso, 7 Volumes, acabados de publicar para as massas que não sabem ler (?) ou não querem ler (?). [3] Notas (para)litúrgicas: (i) Tem como solenidade o dia do nascimento e não o martírio; (ii) Ordenações proféticas na diocese de Coimbra: “Pela imposição das mãos do Sr. D. Virgílio Antunes, Bispo de Coimbra, serão ordenados presbíteros os Diáconos Daniel Mendes, Francisco Claro e Jorge Carvalho. Será ainda ordenado diácono o Seminarista João Castelhano”, https://www.diocesedecoimbra.pt/agenda_evento.php?id=1164 , acesso, 23-6-18; (iii) FALECIMENTO: “António Mário Costa – Professor, Organista, Maestro, Membro da Comissão Diocesana da Cultura”, POR Domingos Peixoto, in http://diocese-aveiro.pt/cultura/in-memoriam-professor-e-maestro-antonio-mario/ , acesso, 23-6-18.

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Horas Intermediárias_SIM Jesus é diante de TI!

Horas Intermediárias_SIM Jesus é diante de TI!

SIM Senhor Jesus, é diante de Ti: Só que estou só…

SIM Jesus, do nosso congresso eucarístico, feito das pressas habituais, fragilidades ricas e milagres tão incontornáveis quanto impagáveis…

SIM Jesus, dos Pastorinhos em Fátima… Dessa TRINDADE eucarística: creio-adoro-espero-amo…

SIM Jesus, do Silêncio e da Missa: …cães, pérolas, intenções sempre bem-intencionadas, etc…

SIM Jesus, da Caridade (não cumprida ainda que desejada: talvez sim e não), a mesma que supera a Justiça, incluindo-a…

SIM Jesus, do Sacrário (link perfeito e preferido dos Ouvintes da Palavra) tatuado na pela da sensibilidade pós-moderna: não líquida ou sólida, mas puro oxigénio…

SIM Jesus, sou eu nos últimos bancos, qual publicano mal-amanhado e resiliente à Graça, meio esperto e esguio de (in)certezas racionais…

SIM Jesus, da visita, ontem-hoje-amanhã, ao teu Convento de Jesus, nas terras de Aveiro, onde a tua Santa Joana, a Princesa do Desprendimento, sempre disponível na concessão do dom da Luz Interior…

SIM Jesus, a Eucaristia é Sinal maior da Tua Igreja (matriz), mesmo no desacerto dos Sinos (também os que não acreditam, pedem o toque dos teus sinos na Morte: somos-seres-para-a-vida-eterna: é um direito/dever a/de quem?)…

SIM Jesus, a Eucaristia no Mundo, na Tua Cruz/Páscoa, rediviva e vivificada no Espírito Santo…

Dá-me do Teu SIM, a criatividade fiel (e o contrário mais raramente); dá-me o Tempo eucarístico bem usado, mesmo fora de horas para comer e dar Sentido à Fome; dá-me, sobretudo, a Coragem do Viver cada vez mais com cada vez menos: dá-me, apenas, a santidade diária (sustento e remédio) da Tua Primeira e Última Ceia, junto dos teus Amigos, não servos, bem perto do Céu (como no código. “NON EST HIC ALIVD NISI DOMUS DEI ET PORTA CAELI”: anedota do sacristão sagaz que pergunta, e o pároco ignorante que responde: talvez seja Jacob a continuar seu delírio: lermos GN 28,17: “Esta não é outra senão a Casa de Deus este é o portão/porta do Céu”… AQUI e AGORA…Não há bilhete de Entrada é Grátis!?

SIM Jesus, estas são as minhas Horas Extraordinárias… Ajuda à Igreja que Sofre: Diante de TI!

pedro josé, Bustos / Mamarrosa / Oliveira do Bairro / Palhaça, 21-06-2018. Caracteres (incl. espaços): 2084
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“Silêncio e presença” – texto José Augusto Mourão

“Silêncio e presença” – texto José Augusto Mourão

“O silêncio é uma estratégia de comunicação, um fazer, como se verá adiante no relato da mulher que se ajoelha aos pés de Jesus e lhe unge os pés, e que lemos como uma parábola no decurso de um discurso. O corpo fala, o silêncio é um gesto significante, afectivo. Há silêncios prenhes: Jonas, no ventre da baleia, é o símbolo de Cristo silencioso no seio da mãe e, ao mesmo tempo, a figura reduzida ao silêncio e que depois renasce, falando. Thomas Merton falava de vida religiosa como vida silenciosa. O que a vida religiosa exige é que se deixe instalar o silêncio para que Deus fale, que se entre no silêncio de si para aí ouvir a Palavra. Quando amamos alguém, procuramos a sua presença: basta então que aquele que procuramos esteja lá, mesmo que nenhuma palavra se troque: essa é a verdade do silêncio interior. Nesse silêncio escuta-se o que vive em nós, a palavra. O silêncio da presença faz apelo a um presente radicalmente outro. S. Agostinho coloca a questão de fundo: lembramo-nos do passado, antecipamos o futuro, mas o presente? E contudo, não podemos definir o passado e o futuro senão relativamente ao presente. O silêncio faz parte da observância regular recolhida da tradição por S. Domingos. Entre os elementos da vida regular e que constituem a vida dominicana, por exemplo, destaca-se o silêncio. No nº 46 do Livro das Constituições e Ordenações lê-se: “Os irmãos devem diligentemente guardar o silêncio, sobretudo nos lugares e tempos destinados à oração e ao estudo; é, com efeito a defesa de toda a observância e contribui sobremaneira para a vida religiosa interior, para a paz, para a oração, para o estudo da verdade e para a sinceridade da pregação”. Mas logo o número seguinte diz. “O silêncio deve ser regulado com tal espírito de caridade que não impeça as comunicações frutuosas”. Daqui se depreende que, em termos de semiótica narrativa, o silêncio ocupa a função de coadjuvante relativamente a objectos-valor que são a oração e o estudo. Como um rumor longínquo, ou um gemido na noite escura, a oração parece-se com “o gemido da pomba” (Rm 8). Para Francisco de Sales “l’amour parle par les yeux, les soupirs, les contenances. Même le silence et la taciturnité lui tiennent lieu de parole” (Monique Brulin, “L’oralité liturgique comme question de théologie fondamentale” in LMD 226, 2001, p. 25). Na corrente quietista o silêncio não era ausência total de fala ou de ruído, mas um lugar onde se fala e se é escutado. O silêncio seria uma saturação da palavra, uma testemunha das manifestações figurativas do corpo. Nem a ciência da fábula, discurso instituído “en lieu de l’autre”, “desígnio de escrever a voz”, como dizia Certeau, e que visava reduzir o outro ao mesmo, não esgota a palavra selvagem que ouve e de que fica sempre um resto”.

FONTE: MOURÃO, José Augusto, “Os rostos do silêncio (para uma semiótica do silêncio)” in Didaskalia XXXIX (2009)1. 113-125, cfr. https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/9863/1/V03901-113-125.pdf , acesso: 18-06-18.

 

 

 

 

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SOBRETUDO: acreditar na capacidade de Mudar e Crescer: Amadurecer! (XI Dom.TC – ANO B)

SOBRETUDO: acreditar na capacidade de Mudar e Crescer: Amadurecer!

APONTAMENTOS de Homilia (s): 17 Junho/2018 (11º Dom.TC – ANO B) – FONTE: http://www.dehonianos.org/portal/11o-domingo-do-tempo-comum-ano-b/, acesso, 15-06-2018

O profeta Ezequiel (cfr. Ez 17, 22-24) assegura ao Povo de Deus, exilado na Babilónia, que Deus não esqueceu a Aliança, nem as promessas que fez no passado. Deus que é fiel e que não desistirá. // O Evangelho apresenta o Reino de Deus: essa realidade nova que Jesus veio anunciar e propor. «Esse» projecto avaliado à luz da lógica humana, pode parecer condenado ao fracasso; mas ele encerra em si o dinamismo de Deus. Sem alarde, sem pressa, sem publicidade: a realidade «velha» que conhecemos vá, aos poucos, dando lugar ao «novo». // Paulo (cfr. 2 Cor 5, 6-10) recorda-nos que a vida nesta terra, marcada pela finitude e pela transitoriedade, deve ser vivida como uma peregrinação ao encontro de Deus, da vida definitiva.

LEITURA I – Ez 17, 22-24 – «Do cimo do cedro frondoso, dos seus ramos mais altos, Eu próprio arrancarei um ramo novo e vou plantá-lo num monte muito alto. Na excelsa montanha de Israel o plantarei e ele lançará ramos e dará frutos e tornar-se-á um cedro majestoso. Nele farão ninho todas as aves, toda a espécie de pássaros habitará à sombra dos seus ramos (…) Eu, o Senhor, digo e faço».

MENSAGEM – Este texto tem uma disposição/indicação sobre a forma de actuar de Deus, sobre a “estranha” lógica de Deus: Ele toma aquilo que é pequeno aos olhos dos homens (“um ramo novo” – Ez 17,22) e, através dele, vence o orgulho e a prepotência, confunde os poderosos e exalta os humildes. Deus prefere os pequenos, os débeis, os pobres. // Estes poucos versículos contêm uma DOSE, UM capital de esperança, que deve alimentar e animar a nossa, caminhada de Povo de Deus pela história.

LEITURA II –- 2 Cor 5, 6-10 – Irmãos: Nós estamos sempre cheios de confiança, sabendo que, enquanto habitarmos neste corpo, vivemos como exilados, longe do Senhor, pois caminhamos à luz da fé e não da visão clara. E com esta confiança, preferíamos exilar-nos do corpo, para irmos habitar junto do Senhor. Por isso nos empenhamos em ser-Lhe agradáveis, quer continuemos a habitar no corpo, quer tenhamos de sair dele. Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que receba cada qual o que tiver merecido, enquanto esteve no corpo, quer o bem, quer o mal.

MENSAGEM – Para Paulo, a perspectiva dessa outra vida nova, plena e eterna, não significa um alhear-se das responsabilidades que temos, como crentes, enquanto caminhamos neste mundo finito e transitório. Aos crentes compete, enquanto “habitam este corpo” mortal, viver de acordo com as exigências de Deus, assumir as suas responsabilidades COMO discípulos de Cristo e do seu Reino. A cultura actual é uma cultura do provisório, que dá prioridade ao que é efémero sobre os sinais de eternidade (o mais… definitivo… o mais duradouro). É ainda uma cultura do fácil, que ensina a evitar tudo o que exige esforço, sofrimento e luta: produz pessoas incapazes de lutar por objectivos exigentes e por realizar projectos que exijam a fidelidade, o compromisso, o sacrifício.

EVANGELHO – Marcos 4, 26-34 – Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita». Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer, e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.

As “parábolas”: São uma linguagem habitual na literatura dos povos do Médio Oriente: falam e ensinam através de imagens, de comparações, do discurso menos lógico, mais quente, mais emocional. // A parábola é em primeiro lugar, é uma excelente arma de controvérsia; um bom instrumento de diálogo, sobretudo, em contextos polémicos (o contexto em que Jesus pregava). Em segundo lugar, a imagem ou comparação que caracteriza a história/enredo/argumento é muito mais rica em força de comunicação e em poder de evocação, do que a simples exposição teórica. Por isso, “mexe” mais com os ouvintes. Em terceiro lugar, espicaça a curiosidade e incita à busca. Na sua simplicidade, torna-se um verdadeiro método pedagógico, que leva as pessoas a pensar por si, a medir os prós e os contras, a tirar conclusões, a interiorizar soluções e a integrá-las na própria vida. // É neste contexto que devemos entender as duas parábolas que o Evangelho deste domingo nos apresenta.

MENSAGEM – A primeira parábola (vers. 26-29) é a do grão que germina e cresce por si só. A parábola refere a intervenção do agricultor apenas no acto de semear e no acto de ceifar. Cala, de propósito, qualquer menção às demais acções do agricultor: arar a terra, regar a semente, tirar as ervas que a impedem de crescer… Ao narrador interessa apenas que, entre a sementeira e a colheita, a semente vá crescendo e amadurecendo, sem que o homem intervenha para impedir ou acelerar o processo. A questão essencial não é o que o agricultor faz, mas o dinamismo vital da semente. O resultado final não depende dos esforços e da habilidade do homem, mas sim do dinamismo da semente que foi lançada à terra. Não adianta forçar o tempo ou os resultados: é Deus que dirige a marcha da história. A parábola convida à serenidade e à confiança nesse Deus que não dorme nem se demite e que não deixará de realizar, a seu tempo e de acordo com a sua lógica, o seu plano para os homens e para o mundo. // A segunda parábola (vers. 30-32) é a do grão de mostarda. O narrador pretende, fundamentalmente, pôr em relevo o contraste entre a pequenez da semente (a semente da mostarda negra tem um diâmetro aproximado de 1,6 milímetros e era a semente mais pequena, no entendimento popular palestino; a tradição judaica celebrava com provérbios a sua pequenez) e a grandeza da árvore (nas margens do lago da Galileia alcançava uma altura de 2 a 4 metros). A comparação serve para dizer que a semente do Reino lançada pelo anúncio de Jesus pode parecer uma realidade pequena e insignificante, mas tem uma força irresistível, pois encerra em si o dinamismo de Deus. A parábola é um convite à esperança, à confiança e à paciência.

ACTUALIZAÇÃO – Num tempo histórico como o nosso, marcado por “sombras”, por crises e por graves inquietações, este é um dos testemunhos mais importantes que podemos, como crentes, oferecer aos nossos irmãos FERIDOS pelo desespero e pelo medo. // Os que, continuando a missão de Jesus, anunciam a Palavra (que lançam a semente) devem confiar na eficácia da Palavra anunciada, conformar-se com o tempo e o ritmo de Deus, confiar na acção de Deus e no seu dinamismo. Isso equivale a respeitar o crescimento de cada pessoa, o seu processo de maturação, a sua busca de caminhos de vida e de plenitude. Não nos compete exigir que os outros caminhem ao nosso ritmo, que pensem como nós, que passem pelas mesmas experiências e exigências que para nós são válidas. Há que respeitar a consciência e o ritmo de caminhada de cada homem ou mulher – como Deus sempre faz. // A referência à pequenez da semente (segunda parábola) convida-nos a rever os nossos critérios de actuação e a nossa forma de olhar. Por vezes, é naquilo que é pequeno, débil e aparentemente insignificante que Deus Se revela. Deus está nos pequenos, nos humildes, nos pobres, nos que renunciaram a esquemas de triunfalismo e de ostentação; e é deles que Deus Se serve para transformar o mundo. Atitudes de arrogância, de ambição desmedida, de poder a qualquer custo, não são sinais do Reino.

SOBRETUDO: acreditar na capacidade de Mudar e Crescer: Amadurecer!

«Vivemos no tempo da Paciência e da Mudança e não da colheita nem do pagamento».

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