O corpo assunto, O espírito encarnado:  Primícias da Ressurreição: na Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria.

O corpo assunto, O espírito encarnado: 

Primícias da Ressurreição:

na Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria.

      1. Dogma solenemente definido por Pio XII em 1.11.1950, segundo o qual Nossa Senhora, no termo da sua vida mortal, foi elevada ao céu em corpo e alma. A Assunção da SS. Virgem é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos (Cat. 966). Não se trata pois, de uma dispensa da morte natural, algo de que nem o seu Filho escapou, mas antes de uma participação já plenamente vivida dos benefícios da ressurreição de Jesus. Dizemos “assunta” em corpo e alma” (o dogma afirma a incorruptibilidade corpórea de Maria): quer dizer, como criatura Maria abre-nos a estrada do caminho para o Céu, antecipando o destino reservado a cada crente. Como Senhora Nossa, continua a interceder pelos filhos e nos ampara na nossa frágil condição terrena, com a maternal proteção. Os Orientais celebram este mistério desde o séc. V com o nome de “Dormição de Maria”. No calendário da Igreja latina celebra-se, com a categoria de solenidade, a 15 de Agosto.

      1. Com as devidas semelhanças e diferenças, da visita de Maria a sua prima Isabel – sem notícias inesperadas, eis a diferença fundamental, na normalidade do que devemos e somos aos outros – visitamos, outra vez, o Pe Manuel Arlindo da Rocha Valente (residente em Vila Nova de Monsarros) que foi ordenado sacerdote no dia 14 Agosto de 1966, por D. Manuel Almeida Trindade, quase a completar os 80 anos de vida, celebra 53 anos de sacerdócio. Rezamos agradecendo a Deus o seu ministério. Recordamos durante a arte da conversa os companheiros “ainda vivos…”: Pe. Abraão da Costa Lopes (ord. 14-08-1966, na Casa Sacerdotal de Braga); Pe. José Arnaldo Simões (ord. 18-12-1966, recentemente dispensado do serviço de Pároco, na Paróquia de Calvão, a 28-07-2019). Na condição frágil do corpo ainda não “assunto”, com meia fatia de bolo, e meio cálice generosamente erguido do melhor Vinho do Porto: um brinde ao ministério celebrado, na escatologia presente – sem o incómodo visceral da foto?! – com a maior solenidade! Uma hora cumprida e vivificada pelo Espírito Cordial!

      1. Rezo Te Deum (…ainda incompleto no tempo e modo…), Pai Nosso (…contexto dolorido e futuro…), e Ave Maria (em graça reforçada…) pelas Obras na Igreja Matriz de Oliveira do Bairro. “As Obras” acontecimento de evangelização/catequese; património/arte; profissionalismo/competência; voluntariado/doação em tempo e bens, Etc. Qual a minha eficiência e fecundidade? Dias ricos indizíveis na Memória, no Afeto, no Dever de, e no Suor. A dormição é escatológica, só poderá ser. A minha/nossa resposta está na Fidelidade de/a todos! “Mais” dois funerais/exéquias na programação, de hoje, – a consulta onde estarei ausente – dia em que celebramos Maria “assunta” (outro funeral já marcado para amanhã). Nestes dias “Santos e Solenes” como todo o Luto, singular, das Famílias e dos Amigos: estamos diante da Dor na separação pela Morte. Carregamos o peso da Vida, nesta incerteza da Morte, com Maria queremos vencer este medo e rezar: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte”. Amem.

Pe. Pedro José, pároco de Mamarrosa e de Bustos, vigário paroquial de Palhaça e Oliveira do Bairro, 14-08-2019, 3078

 

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Recordar todos, tudo e sempre em Missão

Recordar todos, tudo e sempre em Missão

 

O texto que se quer um testemunho de Fé: é difícil de escrever. Recusei de vários modos. Como estamos todos a tentar viver melhor este ano no Compromisso Missionário. Fica o pequeno contributo. Os meus passos movem-se nesse período de tempo (fins de 2001 até fins de 2010) pelas terras do Maranhão, concretamente, as paróquias de Chapadinha e de Mata Roma, na Diocese do Brejo. Esse acordo missionário sem sucessor, mas com sucessão: perdura em mim (até escrevi um livro, “É mesmo uma Boa Nova”, 319 páginas, ousadia!) no que sou e faço, sem distinção. Vai-se apagando lentamente e depois renasce das cinzas vivamente.

Não são os passos sozinhos, não somos só nós. Um «EU» alargado por muitos rostos e histórias de Vida. Um Nome, uma Missão (quase Absoluta), uma Amizade (incontida): Pe. Manuel Neves! É uma acção conjunta. Muito menos o movimento em si. Pergunto-me hoje perdido e encontrado na ação pastoral? Qual a direcção a tomar? Não há problemas, há caminhos. Como é que os céus, que se movem de oriente para ocidente (ou vice versa) andam e desaparecem? Caminhar revela o começo de Tudo. Nesses anos fiz caminho em conjunto. Caminho em comunidade. É sempre o maior e mais exigente desafio/vocação.

Qual a razão das nossas fadigas se caminhar redobra o nosso cansaço? Um cansaço que dá Sentido ao desencanto possível do existir. A nossa árdua peregrinação do Espírito é movida e coroada pelo desgaste do/no Corpo. Engana-se quem foge, repudia ou exorciza. Peregrinar é purificar. – Quem está limpo que atire a primeira pedra? Todos são importantes. Sempre a resistência. Sempre a insistência. No fundo sempre a existência dos pequenos, frágeis: aprendi verdadeiramente a rezar o Terço nas inúmeras «Novenas», nas comunidades do interior rural e nos bairros da cidade. Se o caminhar está associado à evolução cerebral o mais ainda há que dizer e aprofundar nos caminhos do nosso viver. Qual garimpo. Seria habilitação moderna para caminharmos o menos possível uma involução? Certamente. Resultado: crescemos em incompetência espiritual, quando contraditoriamente, somos demovidos pela competência tecnológica.

Caminhar é consolidação espiritual. Lançar sobre o problema só uma luz oblíqua não é problema. É disposição para iniciar(-se). Na missão tudo, todos e sempre é: Espaço, Tempo e Modo. Mas uma só é a Realidade do Peregrinar: sair-de-si-para-andar-à-procura-do-Outro: ex-peri-mentar(-se). “Eis que chego logo” (Ap 22, 7.12). O ser de Deus é saída-de-si, vinda, Pro-cessio, Amor. Deus é Êxodo, pro-odos, êx-tase, Aquele-que-vem, Primeiro (Último, e primeiro novamente). Estamos a Caminho. Sou apenas uma disposição. Mas peregrinar exige também interposição. A distância pode ser considerável. Falta-nos, porventura, o Tempo necessário. Sobra-nos a Vontade. O ar está abafado. Nas carteiras não há dinheiro. Vale a hospitalidade sagrada. Urgem lugares à sombra repousante. Sossego agora não. Onde está o sinal da tua luta pacífica? Rezar e olhar. O teu caminho com propriedade. «O Dia ainda não nasceu e/ou saída para a Noite». Consciência obsolescente, e muitas vezes «tecnófoba». Consciência que se quer sempre Lúcida. Caminhos divergentes e convergentes, são os que fazemos nossos. Em Lucas (10,1-12) não precisamos de carregar alforges, hoje, diríamos mochilas, nem roupas, nem sandálias (na “minha” missão levei cartão bancário (!); dois pares de óculos (miopia espiritual ?!); e muitos “livros…”, etc.). Será que devemos andar “nus e descalços”? Não. Dispensar os telemóveis/celulares, os computadores…etc. Tudo está em função de quê?

“Fazer crescer os outros à sua volta. Não fazer e não ser “sombra” para ninguém”. Desapego radical do Poder. Podemos até, inadvertidamente, nos consolarmos ao dizer: «Deus nunca nos deixará desprovidos», mas isto pode ser um falso consolo, porque muitos paroquianos (cristãos de toda a tipologia: praticantes, adormecidos, ocasionais, anuais, festivos…) poderiam/deveriam ser confrontados com uma experiência prolongada de Missão, aqui e agora? De Jesus Cristo a proximidade diante das Pessoas, totalmente, desarmados, indefesos: colocar-me ao nível da Dignidade. Levar uma única coisa: a si mesmo. Repito o título: “Recordar todos, tudo e sempre em Missão”. Dou Graças pelos dons nos Irmãos, na Fé e na Esperança. Tudo isto aprendi a distinguir, decidindo a viver ou não (infelizmente) na Caridade.

Pe. Pedro José, pároco de Mamarrosa e de Bustos, vigário paroquial de Palhaça e Oliveira do Bairro, 04-07-2019.

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“Seguimos Tua Luz em busca do Espírito”: breve testemunho.

“Seguimos Tua Luz em busca do Espírito”: breve testemunho.

 

  1. Por motivos pessoais e pastorais “consegui” – organizar a minha agenda permanentemente desorganizada -, depois de participar na bem orientada Procissão e Missa de Santa Joana Princesa, nossa Padroeira, na cidade de Aveiro; seguindo a viagem bipartida, para estar presente, com os meus Pais e Irmã, no sangue e na fé, na tarde/noite de vigília de oração, e na Missa e Procissão de Velas (oceano luminoso), do dia 12 de Maio aniversariando; e no Terço e Missa, ao ar livre, no Sol que queimava…; do dia 13 de maio em Fátima. Estamos todos a ser testemunhas do pós-centenário de 1917. Aí rezei e ergui a Vela da Luz; recebi grátis uma cadeira para me sentar… no Chão do Desconforto; andei perdido à procura do carro próprio; ouvi um “Pentecostes” no terço e mesa da Palavra eucarística, unindo no Latim Sacro, tal qual, o esperanto duma Babel (in)cumprida. Foi o excesso, foi o sacrífico, foi a reparação: adoração-oração-testemunho, foi a aprendizagem genuína, foi a obra-de-misericórdia, foi a migalha e a semente de um Mundo Novo! Foi e é «aqui e agora», para mim e para ti que lês! Breve testemunho de qualquer peregrino (in)comum: eu-tu-nós.
  2. Foi-me lido por terceira pessoa, por estar surpreso, quero partilhar, com a “perturbação” mariana – pois a Profecia de/em Fátima continua – o número 675 do “Catecismo da Igreja Católica”: “A última prova da Igreja – “Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes. A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A suprema impostura religiosa é a do Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado” (cfr. http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2cap2_422-682_po.html, 24,5,2019). “A vida também se lê”: lemos pouco; lemos mal; temos de ler mais e melhor; ler dentro, sem medo; não dar alojamento ao vírus da “iliteracia espiritual”. O que lemos nos fará leitores(as) e Ouvintes da Palavra (Dabar-Logos-Verbo), na rede social que é de Jesus Cristo: “o” “link” para servir o Irmão: que-não-sabe-ler; não-quer-ler; sabendo-ler-se-dispensade-ler a sua/nossa Vida em Comum.

2.1. Na procurar de realizar uma “solução aparente dos problemas”?! Teremos dose (in)suficiente de realismo, sem Medo, a prática e a teoria, em/por/com Jesus que é «Caminho, Verdade e Vida», – os nossos pontos concretos de esforço – , Maria a Senhora do Rosário de Fátima, Senhora de Luz, nos conduza ao “Jesus Escondido” de Francisco, de Jacinta e, também, de Lúcia, sabemos que ela não é a Meta; ela é Mãe: Mãe da Igreja e Nossa, que nos guia nesta peregrinação (encontro-conhecimento–adoração/vivência) para Jesus Cristo, e Sua Igreja, sempre em reforma, não a qualquer modo e preço, rumo ao Espírito do Amor ao Pai.

  1. “Meus” (que naturalmente na Graça sou apenas canal e instrumento frágil, cada vez mais, não são os “meus”…) «Serviços Mínimos de Qualidade Pastoral», estão em causa incausada, suspensos e mergulhados na condição espacial da Cruz e temporal do Anúncio: “o” Amen e “o” Aleluia, sem “o” Tempo, mas com “a” Eternidade: Fonte de Luz versus Abismo de Sombra: Sem Ocaso! Numa frase não-temática: “Seguimos Tua Luz em busca do Espírito”!

 

pedro josé, pároco de Bustos e Mamarrosa; vigário paroquial de Oliveira do Bairro e Palhaça; assistente da equipa Av. 34, 24-05-2019. 3421

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“O SENTIDO CRISTÃO DO SOFRIMENTO HUMANO” – D. António Moiteiro, Carta Pastoral (Quaresma 2019)

O SENTIDO CRISTÃO DO SOFRIMENTO HUMANO – D. António Moiteiro

«Não te deixes vencer pelo mal (sofrimento),
mas vence o mal com o bem (Jesus ressuscitado)» (Rm 12, 21)

Dedico esta meditação pessoal
à memória do meu pai e a todos os que sofrem.

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ÍNDICE

O SENTIDO CRISTÃO DO SOFRIMENTO HUMANO
O mistério do sofrimento
O sofrimento tem muitos rostos

I. O SOFRIMENTO NA SAGRADA ESCRITURA

II. A NOVIDADE DE JESUS NO CONTEXTO DA DOR E SOFRIMENTO
O mistério do sofrimento em Cristo
Jesus ensina a amar a cruz
Jesus, plenitude da compaixão

III. OS CRISTÃOS PERANTE O SOFRIMENTO
Como respondem os cristãos ao sofrimento
O sofrimento, um desafio à comunhão e à solidariedade

IV. A IGREJA RESPONDE AO SOFRIMENTO COM A ALEGRIA DO EVANGELHO

Oração

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O SENTIDO CRISTÃO DO SOFRIMENTO HUMANO

               

O mistério do sofrimento

Na condição de criatura, que traz em si algo do Criador, o homem busca ser feliz; mas a felicidade, por vezes, escapa-lhe. Esta contradição de ser criado para a felicidade, por um lado, e condenado ao sofrimento, por outro, suscita questões e respostas inquietantes, que merecem uma reflexão.

Somos confrontados, continuamente, com questões que nos atingem em todas as dimensões da vida humana, e a dor e o sofrimento são uma delas. Porquê o sofrimento? Que sentido têm o sofrimento e a dor que acompanham a vida do ser humano? Qual a posição de Deus face ao sofrimento humano? São questões com que frequentemente nos confrontamos. E, quando não se consegue ver sentido para o sofrimento, questiona-se Deus, e muitas vezes desanima-se e abandona-se a fé.

O que é, afinal, o sofrimento? A questão mais difícil de compreender é certamente a causa do sofrimento humano que, em certos casos, é levado e vivido ao extremo e, em outros, tido como injusto ou incompreensível. É difícil compreender a doença incurável, a incapacitação física, uma pessoa com alzheimer ou parkinson, a perda de um ente querido, as catástrofes, as esperanças frustradas, a solidão… Apesar da aversão que todos lhe têm, o sofrimento faz parte da condição humana, sujeita à dor e à morte; faz parte do mistério do homem. O homem no seu sofrimento permanece um mistério intangível; somos mistério até para nós mesmos. E carregamos a solução de muitos dos problemas e nem sempre temos consciência disso. No fundo de cada sofrimento experimentado, aparece inevitavelmente a pergunta: porquê? E, humanamente, agudiza-se ainda mais, se não encontra uma resposta satisfatória. Com efeito, o homem não coloca as suas questões ao mundo, ainda que muitas vezes o sofrimento provenha do mundo, mas põe-nas a Deus, como Criador e Senhor do mundo. Se Deus fosse compreendido como um justiceiro maléfico que castiga as suas criaturas, seria mais fácil entender o sofrimento. Seria consequência do castigo e da ira de Deus. Não pode, efetivamente, ser um castigo de Deus, porque Deus é amor.

Prevalece a impressão de que não estamos devidamente preparados para o encontro vital com o sofrimento. O sofrimento humaniza-se no seio da vida de cada um de nós. Deus é ainda o sempre estranho a este mundo que dizemos humano. Num mundo que não consegue ver no sofrimento senão um mal e um absurdo sem qualquer integração na vida, este não é a palavra definitiva, mas uma via que se abre para que Deus aja em nós e no mundo por meio da dor e sofrimento. Muitas pessoas se questionam acerca do sentido da sua vida e certamente não encontram sentido para o sofrimento porque também ainda não encontraram uma resposta convincente à pergunta: como viver? E talvez não encontrem resposta porque, em vez de se deixarem transformar, se conformam com este mundo. É na vivência da autenticidade do que somos que resplandece a autenticidade de Deus com toda a sua magnificência. Estará Deus assim tão longe de nós?!

O sofrimento tem muitos rostos

A dor física custa a suportar, mas não menos atroz é o sofrimento espiritual. Quantas pessoas sofrem sem terem dor física: pais que perdem um filho, pessoas surpreendidas por uma doença incurável, idosos deixados na solidão, jovens que não conseguem emprego, famílias que foram obrigadas a deixar as sua casas, pessoas que sobrevivem apenas com o salário mínimo… E há lamentações que ninguém ouve. É o silêncio da dor, o mesmo silêncio que rasgou o véu do Templo, quando da cruz se ouviu: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). São João Paulo II na sua carta apostólica sobre o Sentido Cristão do Sofrimento sublinha que o “sofrimento é algo mais amplo e mais complexo do que a doença”. Lembra que a ciência e as suas terapias não conseguem compreender e tratar todas as dores, que formam uma dimensão “enraizada na própria humanidade”. Alerta que a dor espiritual acompanha sempre os problemas físicos e morais: “A amplidão do sofrimento moral e a multiplicidade das suas formas não são menores do que as do sofrimento físico; mas, ao mesmo tempo, o primeiro apresenta-se como algo mais difícil de identificar e de ser atingido pela terapia”(SD 5).

No fundo de cada experiência de sofrimento surge a pergunta: porquê eu? Será que Deus escuta as minhas orações? As palavras de Cristo «Pai, se é possível afasta de mim este cálice!» atestam a verdade humana deste sofrimento. Sofrer é inerente à condição terrena do homem, mas é importante compreender que o projeto de Deus para o homem não é um projeto de morte, mas um projeto de vida verdadeira, de felicidade sem fim. É no sofrimento que o homem toma conhecimento do que Deus é e do que ele próprio é chamado a ser.

Se o sofrimento para uns provoca abandono da fé, pela dor incompreensível causada pela sensação de abandono e desespero, também há sinais evidentes de que persistem nos corações humanos anseios pela comunhão com o mistério divino. Muitas vezes, Jesus entra na vida das pessoas pela porta da fragilidade e da sensibilidade. Jesus ao receber a notícia de que o seu amigo Lázaro estava doente, respondeu com serenidade «Esta doença não é de morte» (Jo 11,4). E Lázaro morreu. Isto significa que os sofrimentos que nos atingem a nós ou aos que amamos não são doenças mortais, mas para que se manifeste a glória de Deus. Jesus deixa morrer o seu amigo para poder trazê-lo à vida. «Os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória que há de revelar-se em nós» (Rm 8,18). Se sofrermos com Ele, também com Ele seremos glorificados.

Todo o sofrimento nos interpela. Que resposta lhe damos? Por vezes, a reação espontânea é a revolta, a angústia, a tristeza e o desânimo. Há corações que ficam perdidos diante dos sofrimentos, quando Deus lhos envia como asas para voar. Mais do que um problema, os sofrimentos são sobretudo uma oportunidade, para se ter confiança filial em Deus, que é amor.

I. O SOFRIMENTO NA SAGRADA ESCRITURA

A Palavra de Deus faz-nos mergulhar no mistério de Deus, no mistério da vida, da história e de nós mesmos. A nossa finitude, as nossas limitações, os nossos medos e misérias não são a última palavra da nossa existência.

Na Sagrada Escritura encontramos um vasto elenco de situações dolorosas: o perigo de morte; a morte dos próprios filhos e especialmente a morte do filho primogénito e único; a falta de descendência; a saudade da pátria; a perseguição e a hostilidade do meio ambiente; o escárnio em relação a quem sofre; a solidão e o abandono; os remorsos de consciência; a dificuldade em compreender a razão por que os maus prosperam e os justos sofrem; a infidelidade e a ingratidão da parte dos amigos e vizinhos; as desventuras da própria nação…

O sofrimento não estava nos planos de Deus criador. No Antigo Testamento, o sofrimento é conotado com o mal; é visto como fruto do pecado e como castigo de Deus pelo bem não realizado. As consequências do pecado são devastadoras: inveja, sofrimento, dor, penas, tristeza, corrupção, cegueira, frialdade de coração…

No livro do Génesis, a narração da primeira queda indica os fatores constitutivos da culpabilidade originada pelo pecado. Acentua-se o surgir do mal no ser humano e o sofrimento como consequência do incumprimento da lei. Adão e Eva foram expulsos do paraíso por causa da sua desobediência à ordem divina (Gn 3,16-22); Caim foi amaldiçoado por ter assassinado o seu irmão Abel (Gn 4,11-15); Sodoma foi destruída por causa da sua iniquidade (Gn 18,22-25). O sofrimento é, pois, a indicação clara e explícita das opções erradas que se fazem e constitui uma ocasião para que se reconheça o mau proceder.

No Novo Testamento, o sofrimento não se identifica diretamente com o mal, mas aquele que o sente expressa o sofrimento. Diante da presença de um cego de nascença, os discípulos de Jesus perguntaram: «Senhor, quem pecou, ele ou os seus pais?» E Jesus respondeu: «Nem ele nem os seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que nele se manifestem as obras de Deus» (Jo 9,3).

São incontáveis as histórias de homens e de mulheres que, provados pelo sofrimento, adquiriram uma nova visão da vida e perceberam que o que vale a pena de verdade na vida é Deus, que nunca está alheio ao sofrimento, ainda que por vezes assim pareça; descobriram que em Deus se encontra o verdadeiro amor pelo qual todos ansiamos e que nada nem ninguém conseguem satisfazer; entenderam que o que importa são os tesouros no Céu, que nem a traça e a ferrugem corroem nem os ladrões arrombam nem furtam (cf. Mt 6,20); e perceberam que os outros também sofrem, e por isso decidiram esquecer-se de si mesmos e dedicar-se a aliviá-los e ajudá-los a bem sofrer. É no momento em que constata a sua finitude e a sua fragilidade que a pessoa se descobre claramente.

Num mundo que presta tão pouca atenção ao sofrimento, à dor, ao fracasso; que tem medo de pensar na morte; que se confronta com o sofrimento, com a doença, com a decadência física… as palavras de Job, homem justo e piedoso, que possuía muitos bens e uma família numerosa e, de repente, se viu privado de todos os seus bens, perdeu a família e foi atingido por uma doença grave, convidam-nos a enfrentar a realidade numa atitude de aceitação, e ao mesmo tempo numa atitude contemplativa. Os gritos de Job mostram que a justiça de Deus, às vezes, envereda por caminhos incompreensíveis. Com amargura e desilusão, lamenta a sua condição de sofredor e de Deus parecer ausente e indiferente face ao desespero em que vive, mas, apesar disso, é a Deus que se dirige, pois sabe que Deus é a sua única esperança e que fora dele não há possibilidade de salvação. «Não vive o homem sobre a terra como um soldado? Não são os seus dias como os de um mercenário? E o trabalhador que espera pelo seu salário, e couberam-me em sorte noites de amargura. Se me deito, digo: ‘Quando é que me levanto?’ Se me levanto: ‘Quando chegará a noite?’… Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear e desvanecem-se sem esperança. Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade» (Job 7, 1-7). As palavras de Job não são palavras de desespero, mas uma reflexão realista sobre o mistério da vida humana, uma reflexão cheia de esperança, porque feita à luz de Deus. Job percebeu o sentido e o valor do sofrimento e como Deus, mesmo em silêncio, se mantivera atento. No silêncio de Deus está a nossa oportunidade do encontro com Ele. Uma coisa é pensar nas realidades negativas da nossa existência contando apenas com as nossas forças, outra é encarar a vida também com as suas trevas, à luz do amor de Deus. Para Job o sofrimento tornou-se caminho de encontro profundo com Deus. Onde Deus é silêncio torna-se necessária a fé. São muitos os que apesar do sofrimento têm sempre um sorriso nos lábios, com palavras de alento para os outros: “Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora veem-te os meus próprios olhos” (Job 42, 5).

Na vida de São Paulo, as tribulações também eram muitas, mas nunca o abateram porque não as via como um obstáculo, mas como graças de Deus e garantia de fecundidade: «Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo» (2Cor 4,10). E ainda: «Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte» (2Cor 12,10). E até mesmo, com entusiasmo: «Gloriamo-nos também das tribulações, sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência a firmeza, e a firmeza a esperança. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,3-5). É a imagem perfeita do ser humano que se engrandece no sofrimento, que se deixa abençoar pela Cruz. São Paulo, escrevendo aos cristãos de Éfeso (Ef 1,17-23), quer que eles compreendam a esperança a que foram chamados. O fundamento está na poderosa força que Deus exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou acima de tudo, como cabeça de toda a Igreja que é o seu Corpo, a plenitude daquele que preenche tudo em todos.

O sofrimento não é um apêndice do Evangelho, mas página central, sempre aberta diante de nós. Há situações que não entendemos, mas sabemos, pela fé, que Deus é Pai, que Deus é amor (1Jo 4,8) e, portanto, como diz São Paulo, nós sabemos que Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Rm 8,28). O sofrimento e a dor… é preciso preveni-los, possível aceitá-los e sublime saber oferecê-los.

II. A NOVIDADE DE JESUS NO CONTEXTO DA DOR E SOFRIMENTO

O mistério do sofrimento em Cristo

Como olhar o sofrimento redentor de Jesus Cristo, levado ao extremo do escárnio e humilhação, perante o Pai, um Deus de amor?

A vida do homem atinge a sua plenitude por Cristo e em Cristo. Cristo introduz-nos no mistério e ajuda-nos a descobrir o ‘porquê’ do sofrimento, na medida em que nós formos capazes de compreender a sublimidade do amor divino. Deus, ao enviar o Seu Filho ao mundo para libertar o homem do mal, traz em Si a definitiva e absoluta perspetiva do sofrimento e do amor salvífico. «O sofrimento humano atingiu o seu vértice na paixão de Cristo; e, ao mesmo tempo, revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova: ele foi associado ao amor, àquele amor de que Cristo falava a Nicodemos, àquele amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal, tirando-o por meio do sofrimento, tal como o bem supremo da Redenção do mundo foi tirado da cruz de Cristo e nela encontra perenemente o seu princípio» (SD 18). Pela paixão de Cristo na cruz, o Salvador realizou a redenção da humanidade.

De Jesus recebemos extraordinárias lições de sofrimento. Também Ele experimentou o sofrimento da solidão, da perseguição, da crucifixão, o abandono dos discípulos e até o aparente abandono do Pai quando, citando um salmo, rezou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 21). Cristo vive profundamente a experiência do abandono… Dá um grito de abandono, mas não de desespero. Neste clamor de Jesus estavam condensados todos os sentimentos dos corações humanos, que experimentam o silêncio aparente de Deus… Diz-nos o Papa Francisco: “Sem cruz nunca encontrareis o verdadeiro Jesus; e uma Cruz sem Jesus não tem sentido”. Deus manifesta preocupação com a felicidade dos seus filhos. Ele salva e redime a quem está prostrado, a quem vive desanimado, a quem não consegue encontrar caminho e sentido para a sua vida. Deus encontra-se não na sua omnipotência, mas na sua debilidade.

A Redenção realizou-se mediante a cruz de Cristo, ou seja, pelo seu sofrimento. Cristo aproximou-se do mundo do sofrimento humano, assumindo Ele próprio este sofrimento. «Ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores (…), foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre Ele, fomos curados pelas suas chagas» (Is 53,4-5). Cada um de nós foi englobado no mistério da redenção e Cristo uniu-se com cada um para sempre, através deste mistério. Graças ao valor redentor e purificador da Cruz de Cristo, a dor e o sofrimento converteram-se num grande valor de purificação, expiação e redenção.

Em Cristo encontra-se a verdadeira vida do mundo. São Paulo expressa: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada? Mas em tudo isto somos vencedores, graças Àquele que nos amou» (Rom 8,35-37). Na ação libertadora de Jesus em favor dos homens começa a manifestar-se um mundo novo sem sofrimento, sem opressão, sem exclusão – o mundo que Deus sonhou para o ser humano. A este propósito, a carta apostólica Salvifici Doloris, de São João Paulo II, dá-nos luzes para, pela fé, não só compreendermos o nosso sofrimento, como o da humanidade, unindo o nosso sofrimento ao corpo da Igreja, que é Corpo de Cristo, completando o valor salvífico da Paixão e Ressurreição do Senhor. «Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível da Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, podem tornar-se participantes do sofrimento redentor de Cristo» (SD 19). Na medida em que o homem se torna participante dos sofrimentos de Cristo, tanto mais ele completa, a seu modo, aquele sofrimento mediante o qual Cristo operou a Redenção do mundo. «Se com ele sofremos, com ele reinaremos», como diz São Paulo (2Tm 2,12).

Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco este caminho e oferecer-nos o seu olhar para nele vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, se tornou “autor e consumador da fé” (Heb 12,2). «À medida que o homem toma a sua cruz, unindo-se espiritualmente à Cruz de Cristo, vai-se-lhe manifestando mais o sentido salvífico do sofrimento. O homem não descobre este sentido ao seu nível humano, mas ao nível do sofrimento de Cristo. Ao mesmo tempo, porém, deste plano em que Cristo se situa, este sentido salvífico do sofrimento desce ao nível do homem e torna-se, de algum modo, a sua resposta pessoal. E é então que o homem encontra no seu sofrimento a paz interior e mesmo a alegria espiritual» (SD 26). Esta descoberta constitui uma confirmação particular da grandeza espiritual que, no homem, supera o corpo de uma maneira totalmente incomparável: Agora o combate, depois a vitória; agora as duras lutas da vida, sustentando o nome de Jesus, depois, a palma da vitória, a graça de ser eternamente abrigado na tenda do coração do Pai e aí, consolados pelo Espírito que Jesus nos deu e que nos glorificará para sempre, nunca mais ter fome ou sede, nunca mais chorar, nunca mais sentir o calor ardente! É esta força, a força da ressurreição, que proporciona o vigor necessário para lidar com o sofrimento.

A ressurreição de Jesus marca a vitória definitiva sobre a dor e a morte e abre caminho à ressurreição de toda a humanidade. Falta ainda que a ressurreição de Jesus transforme o olhar que os homens projetam à sua própria vida. «Ele morreu por todos a fim de que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou» (Cor 5,15). «Falar da fé comporta frequentemente falar também de provas dolorosas, mas é precisamente nelas que São Paulo vê o anúncio mais convincente do Evangelho, porque é na fraqueza e no sofrimento que sobressai e se descobre o poder de Deus que supera a nossa fraqueza e o nosso sofrimento» (LF 56). Não fiquemos, pois, à margem deste caminho de esperança viva. Nada entristece mais que viver sem sentido! «Cristo introduziu-nos neste reino pelo seu sofrimento. E é também mediante o sofrimento que amadurecem para ele os homens envolvidos pelo mistério da Redenção de Cristo» (SD 21).

A nossa alegria consiste na certeza de que a ressurreição não se restringe a Cristo, porque nele descobrimos que a vida humana é também chamada a participar na sua ressurreição. Sabemos que nele tudo se enche de novo sentido… por isso, o relacionamento com Ele permanece essencial; sem um diálogo permanente perde-se o amigo. Aquele que passou da morte à vida dá-nos a possibilidade de perseverar, sem perder o ardor da esperança.

Jesus ensina a amar a cruz

A resposta mais completa ao sentido e valor do sofrimento foi dada à humanidade por Deus, em Cristo. Jesus revela-nos um Deus que é Pai, mas que não impede o seu nem o nosso sofrimento. Jesus não só o venceu como lhe dá um novo sentido, assume a dor com a alegria interior de quem realiza na fidelidade a vontade do Pai. Este sentido não está dado à partida; é necessário descobri-lo.

O projeto trazido por Jesus Cristo é a libertação do homem, e para isso viveu e indicou o caminho da cruz. Também Ele foi interpelado, na cruz, por todo o tipo de sofrimento com que o feriram os nossos pecados. E como respondeu? Só é possível entender a cruz na dimensão do amor. As palavras da oração no Getsémani «Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice» (Mc 14,36) atestam a verdade do sofrimento e provam a verdade do amor que, com a sua obediência, o Filho demonstra para com o Pai. Este é o exemplo para o qual devemos olhar. Na cruz, junto de Jesus crucificado, o mau ladrão deixou-se arrastar pelo ódio à cruz. Pelo contrário, o bom ladrão soube descobrir na sua cruz uma escada que lhe serviu para chegar a Cristo e subir ao céu (cf. Lc 23,39-43).

A experiência da união com Cristo faz com que todos os sofrimentos possam ser penetrados pela mesma força de Deus que se manifestou na cruz. Mais do que debruçarmo-nos sobre o invólucro da dor, urge adentrar no mistério da cruz. Assim como Cristo nos salvou pela cruz, assim também nos aperfeiçoa e nos santifica por meio da cruz. O sofrimento faz-nos ascender para horizontes maiores; ajuda-nos a escalar os caminhos do amor a Deus e do amor ao próximo. Abraçar a cruz significa viver o mandamento novo, porque “ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

Qual é a nossa atitude nos momentos de tristeza e solidão? Será que Deus realmente nos abandonou ou se esqueceu de nós? No decorrer da história tem-se comprovado que no sofrimento se esconde uma força peculiar que aproxima interiormente o homem a Cristo. Na hora da provação, a fé ilumina-nos; e é precisamente no sofrimento e na fraqueza que se torna claro como “não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor” (2Cor 4,5).

Os que se entregam nas mãos de Deus Pai sentem que a cruz é suave; escutam silenciosamente as palavras de Cristo que, na hora da dor, diz: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que eu hei de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11,28-30).

Aquele que confia em Deus não se deixa abater nem pelos sofrimentos, nem pelas angústias, nem pela morte; acredita que Ele não abandona nenhum ser humano. Tudo será restaurado em Cristo. Sabemos o quanto é difícil o luto pela perda dos que nos são queridos, mas não se pode estar preso a um passado que já não existe. A sua presença física já não é possível. «Para os que creem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma». Com efeito, «os nossos entes queridos não desapareceram nas trevas do nada: a esperança assegura-nos que eles estão nas mãos bondosas e vigorosas de Deus» (AL 256). Mas disto só o crente tem consciência, pelo que deve viver como testemunha desta verdade. Para aquele que crê e ama tudo se pode converter em sacramento de encontro com o Senhor, mas isto implica viver em atento acolhimento e procurar a sua presença em tudo, mesmo naquilo que faz sofrer. Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem se dar por vencido, e recordar o que o Senhor disse a São Paulo: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza» (2Cor 12,9). «O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória» (EG 85). Jesus não permite que nos aconteça nada que não possamos suportar. «Tudo posso naquele que me conforta» (Flp 4,13). Tudo está em conformidade com as nossas forças.

A cruz é a presença incontestável do amor. Então é hora de perguntar a mim mesmo: como aceito eu o sofrimento? Que tipo de consolador(a) sou eu? Vivo na minha vida a bem-aventurança dos que choram “porque serão consolados” (Mt 5,4)? Ponho-me no lugar do outro para o compreender e lhe servir de bálsamo apaziguador da sua tristeza?

Jesus, a plenitude da compaixão

Na pessoa de Jesus Cristo a vontade de Deus aparece expressa no desejo de que as pessoas tenham vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10). Cristo não veio ao nosso encontro para nos fazer sofrer, mas sim dar um novo sentido ao sofrimento. Em toda a sua vida, Jesus identificou-se com aquelas pessoas cuja dignidade estava, por vezes, diminuída ou fragilizada. Ele, que se humilhou até à morte na cruz, coloca-se na condição do outro e atua em nome da reciprocidade: «O que quereis que os homens vos façam, fazei-lho vós primeiro» (cf. Mt 7,12). No seu tempo, a maioria dos doentes era abandonada à sua sorte. Segundo a mentalidade da época, a enfermidade devia-se ao terem sido abandonados por Deus e deviam ser também excluídos do convívio social e religioso. Os cegos, por exemplo, não podiam entrar no Templo de Jerusalém e por vezes também ficavam fora da cidade; os leprosos eram afastados de toda a convivência, não tanto por medo do contágio, mas principalmente por serem considerados ‘impuros’ e poderem transmitir essa ‘impureza’ aos que eram tidos como justos e fiéis cumpridores da lei (cf. Lv 13,45-46). Estes eram as pessoas mais marginalizadas pela sociedade. Jesus veio para mostrar que eles não foram abandonados por Deus, mas têm um lugar privilegiado no seu coração e assim se dedicou a curá-los.

A compaixão é alívio para qualquer doença física e espiritual. Jesus toma todos os que sofrem pela mão; tocava os doentes para expressar a sua proximidade e acolhimento – atitude que deixava a assistência umas vezes escandalizada, outras emocionada e cheia de esperança num mundo novo que começava a surgir. Tomou pela mão a sogra de Pedro, erguendo-a do leito. Com este gesto revela que está com todos os feridos e doentes por tantas doenças, insatisfações, fraquezas e medos. Este é o Evangelho, a boa notícia: em Jesus, Deus revela o sentido da nossa existência porque se revela como Deus próximo, Deus de compaixão. Também é sintomática a manifestação da compaixão de Jesus para com a viúva de Naim, que perdeu o seu único filho, a quem Jesus ressuscitou. «Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: Não chores» (Lc 7,13). Ao exortar os seus ouvintes a imitarem o Pai na maneira de ser misericordioso (cf. Lc 6,36), Jesus mostrou que o ser humano não fica abandonado a si mesmo.

Jesus mostra-nos, com exemplos e palavras, que servir os outros de forma altruísta é a maior revelação de amor de Deus, a melhor das terapias. Na comunhão com Cristo, a dor torna-se plena de significado, e todos nós podemos dizer como São Paulo: «Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja» (Cl 1,24). A vida vai além da nossa existência biológica. Onde não há motivo pelo qual vale a pena morrer, também não há motivo que faça valer a pena viver. Para isso Jesus veio ao mundo, para anunciar o Reino e expulsar tudo aquilo que acorrenta a nossa existência.

III. OS CRISTÃOS PERANTE O SOFRIMENTO

Pelo facto de sermos crentes, poderíamos ser levados a pensar que Deus nos pouparia a certos sofrimentos, porque somos seus filhos prediletos e procuramos observar a sua Lei, mas muitas vezes até parece ser o contrário. Quanto mais crente, mais Deus se sente à vontade para pedir sacrifícios.

O mundo de hoje tem muita dificuldade em aceitar o sofrimento, mas nem sempre o sofrimento e a dor são negativos. A mãe que espera um filho, depois da dor do parto sente uma alegria imensa. O desportista para vencer precisa de sofrer a exigência dos treinos. O mesmo acontece com todos os que querem vencer e chegar à glória. Tudo isto acontece porque a dor e o sofrimento abrem a porta à esperança.

«Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros» (EG 270). Aqueles que sobre a dor não têm nada mais a dizer, a não ser que se deve dominá-la, têm um caminho a percorrer. O sofrimento do outro é também o meu, é semelhante ao meu. As ofensas à humanidade são ofensas dirigidas a Deus. Os sinais dos tempos são também a linguagem de Deus, mas o seu discernimento exige silêncio interior, uma fé esclarecida e capacidade de interpretação dos acontecimentos à luz de Deus, à luz da fé, porque as respostas não estão à superfície, mas mais fundo. Quando não mergulhamos a fundo, à mais simples contrariedade, vem a revolta.

Todo o tipo de sofrimento pode ser uma excelente ocasião para crescermos interiormente e um singular apelo para uma mudança na forma de ser e estar na vida. Por vezes, passamos a valorizar aspetos que até então não dávamos importância e a desvalorizar outros que pareciam pertinentes. O sofrimento constitui também um chamamento a manifestar a grandeza moral do homem, a sua maturidade espiritual. Disto deram e continuam a dar prova os mártires. «Se alguém sofre por ser cristão, não se envergonhe, mas dê glória a Deus por este título» (cf. 1Ped 4,16).

No mundo, são muitos os que sentindo-se frágeis, abandonados, soltam gritos de desespero, mas também não faltam sinais de esperança. Na verdade, as lágrimas rolam e a dor consome quando tudo parece estar acabado e a pedra do túmulo fechada para sempre. Contudo, por vezes é necessário tempo para que a resposta comece a ser percebida interiormente. Tempo para que o grão de trigo lançado à terra comece a germinar (cf. Jo 12,24). Nesta situação estava Maria Madalena que foi ao sepulcro e não encontrou Jesus. «Mulher, porque choras?» Ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram» (Jo 20,13). Ela amava Jesus que tinha visto morrer crucificado, mas apenas acreditava naquilo que podia ver e experimentar. Acreditava firmemente na morte, na dor, no luto, na perda. Acreditava também nos perfumes… nas lembranças doces e amargas. Acreditava nos guardas postos como sentinelas para pôr fim à história do Nazareno. Acreditava, finalmente, na pedra que fechava a entrada do sepulcro.

A descrença de Madalena é a descrença de todo o ser humano. As lágrimas secam e o coração acalma-se somente quando se ouve a voz do Amado a chamar pelo nome: “Maria!” Jesus saiu ao seu encontro e disse: «Não temais. Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia; lá me verão» (Mt 28,10). Maria Madalena e as outras mulheres procuravam um cadáver e encontraram uma surpresa, isto é, um mensageiro que lhes revelou uma boa nova: Jesus de Nazaré, o crucificado, ressuscitou! Verdadeiramente experimentaram uma alegria inefável ao ver novamente o Senhor e, cheias de entusiasmo, correram para comunicar a notícia aos discípulos. Elas que tinham vindo para dar um final definitivo à história de Jesus, encontraram Aquele que inverte os seus projetos humanos e transforma em início o que elas pensavam ter sido o fim. A certeza da ressurreição não deve ser, apenas, uma realidade que esperamos, mas uma realidade que influencia, desde já, a nossa existência terrena. Também a Marta, que chorou a morte do irmão Lázaro, Jesus revelou que a verdadeira vida começava ‘a partir de agora’. É, pois, preciso que a ressurreição de Jesus transforme o olhar que os homens projetam à sua própria vida.

Como respondem os cristãos ao sofrimento

A experiência quotidiana dificilmente dá conta de Deus no sofrimento. Perante a realidade cruel da cruz, mesmo nós cristãos, ficamos desconcertados, mas por detrás das vicissitudes que nos afetam não atuam simplesmente a lei natural, a casualidade, a sorte ou a desgraça. O cristão sabe que o sofrimento não pode ser eliminado, mas pode adquirir um sentido: pode tornar-se entrega nas mãos de Deus, e deste modo ser uma etapa de crescimento na fé e no amor. «A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho» (LF 57). A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. A fé tem sempre de nos incomodar e nunca acomodar. Na hora da provação, a fé ilumina-nos. Os que sofrem foram, e continuam a ser, mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé. Assim, a fé, ao dar-nos a certeza do amor que Deus nos tem, dá-nos também uma grande esperança.

Como pode um cristão lidar com o sofrimento, mantendo-se firme na sua fé e no chamamento que recebeu? Jesus não prometeu uma vida sem dores, mas deu-nos a confiança que o nosso sofrimento, unido a Ele, será uma vitória: «Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo tereis tribulações; mas tende confiança: Eu já venci o mu

vras: «Irmãos, não queremos deixar-vos na ignorância a respeito dos que faleceram, para não andardes tristes como os outros que não têm esperança. Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus reunirá com Jesus os que em Jesus adormeceram» (1Tes 4,13-18). Realidade desanimadora, pelo contrário, é não haver quem console. «Cristo ensinou o homem a fazer bem com o sofrimento e, ao mesmo tempo, a fazer bem a quem sofre» (SD 30).

Na vida, todos passamos provações e sofrimentos, umas vezes em consequência dos nossos próprios atos, outras, causadas por outros motivos. Nesses momentos precisamos de consolação. Da parte de Deus ela vem com certeza, pois consolar é atributo de Deus. «Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei» (Is 66,13). Mas aliviar a dor ou o sofrimento moral e espiritual deve acontecer também da parte dos irmãos, como recomenda São Paulo: «Consolai-vos, pois, uns aos outros e edificai-vos reciprocamente» (1Tes 5,11). Confortar não significa apenas dar o que é material, ou simplesmente tentar fazer esquecer o motivo do desânimo, mas estar ao lado, tornando esses momentos mais amenos, revigorando-os na fé. «Assim, o dinamismo de fé, esperança e caridade (cf. 1Ts 1,3; 1Cor 13,13) faz-nos abraçar as preocupações de todos os homens, no nosso caminho rumo àquela cidade, ‘cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus’ (Heb 11,10), porque ‘a esperança não engana’(Rm 5,5)» (LF 57). Os santos, perante as adversidades mais extremas, não deixam de invocar Deus para que se possam ver livres delas, mas sobretudo para que se cumpra o desígnio amoroso de Deus. Por isso, não têm temor perante a dor, nem perante a morte, porque as adversidades da terra não podem senão uni-los ao corpo sofredor do Senhor. Seguir Jesus não é simplesmente imitá-lo, mas assumir existencialmente as suas condições de vida.

O sofrimento, um desafio à comunhão e à solidariedade

O sofrimento comporta um desafio à comunhão e à solidariedade. Diante de todo o sofrimento, e no combate ao mal que o causa, a solidariedade é a dinâmica indispensável para construir um caminho humanitariamente possível e justo. Perante a situação dos sofredores, mais do que agudizar a dor causada pelo sofrimento, é necessário enfrentar os problemas com serenidade, buscando saídas para as dificuldades, lembrados de que nunca estamos sós. Enquanto crentes, temos de compartilhar as perplexidades da vida, contrapor alternativas, contribuir para que, no meio de aparentes fracassos, demos conta de que Deus nos surpreende. «Trazemos este tesouro em vasos de barro» (2Cor 4,7). A ação de Jesus tem de ser continuada pelos seus discípulos, mas estes não se podem guiar por interesses pessoais, mas sim pelo amor a Deus e aos irmãos. O sofrimento está presente no mundo para desencadear o amor. O fruto da conversão é não apenas o facto de que o homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas, sobretudo, que no sofrimento ele encontra como que uma maneira nova para avaliar toda a sua vida e a própria vocação.

É necessário fazer tudo para aliviar a dor e limitar o sofrimento, mas se a dor física se recupera com medicamentos, há outros sofrimentos que só são atenuados pela presença, pelo carinho que recebemos nos momentos de provação. Não bastam apenas cuidados paliativos, são urgentes os cuidados espirituais. Muitas vezes o sofrimento instala-se por falta de interiorização e reflexão sobre o sentido da vida pessoal. Chega até a existir um menosprezo por tudo o que tenha a ver com o cultivo do espírito. Diz-nos o Papa Francisco: “O homem deixado às suas forças não compreende as coisas do Espírito”. A resistência, na forma de preocupação, costuma impedir-nos de ver a verdade das nossas vidas, de ouvir a voz de Deus e de viver uma vida espiritual.

«A experiência pessoal de nos deixarmos acompanhar e curar, conseguindo exprimir com plena sinceridade a nossa vida a quem nos acompanha, ensina-nos a ser pacientes e compreensivos com os outros e habilita-nos a encontrar as formas para despertar neles a confiança, a abertura e a vontade de crescer» (EG 172). Quando as dores físicas ou morais, os desgostos, os fracassos, a solidão, a depressão… nos deprimem, Cristo crucificado convida-nos a crescer na mansidão, na paciência, na bondade e na grandeza de alma; a aumentar a confiança em Deus; a ser mais desprendidos de êxitos e bens materiais; sobretudo a deixar-nos abrasar pelo seu amor, a imitá-lo, unindo-nos assim ao seu sacrifício redentor.

Um grande capítulo do Evangelho do sofrimento escrevem-no todos aqueles que sofrem com Cristo. Partilhando as nossas alegrias e sofrimentos, Cristo identificou-se com os pequenos e com os pobres, aos quais anunciou a Boa Nova. No sermão da montanha, conforta todos os que o amam e unem o seu sofrimento ao sofrimento dele: «Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu» (Mt 5,1-10).

IV. A IGREJA RESPONDE AO SOFRIMENTO COM A ALEGRIA DO EVANGELHO

A Igreja sente ser seu dever estar próxima de todos os que sofrem. Não pode ficar indiferente nem ausente de nenhum ambiente da vida das pessoas. Ela é vista na viúva que chora e a quem o Senhor diz: Não chores! «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. E não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (GS 1).

Perante o sofrimento, a Igreja responde em conformidade com o Evangelho. Sentimo-nos envolvidos como destinatários e como participantes, convidados “a ter em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fil 2,5). A fé cristã supõe a atenção ao outro. «Os males do nosso mundo – e os da Igreja – não deveriam servir como desculpa para reduzir a nossa entrega e o nosso amor. Vejamo-los como desafio para crescer» (EG 84). O Samaritano aceita ver e ouvir a dor do outro, até fazer ressoar em si a voz do sofrimento do outro. Este é o modo de ouvir de Deus, e esta deve ser também a maneira de sentir da Igreja diante dos sofrimentos humanos.

A Igreja é chamada a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. «Há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações, e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 79). O cristão tem de compreender que o seu modo de estar na vida deve ser o discernimento: um discernimento cristão, que amadurece na reflexão, no compromisso ativo e na oração, e que deve ajudar a encontrar caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio das fragilidades.

Em tempos difíceis, de fortes contradições e grandes esperanças, urge apreender um novo impulso de humanidade, para não permitir que a mentira, a hipocrisia, a corrupção, a avidez do poder, a barbárie e a indiferença prevaleçam neste mundo que deveria ser de proximidade e de harmonia. Diante do sofrimento de tanta gente exaurida pela miséria, pela violência e pelas injustiças, não podemos permanecer indiferentes. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe a compaixão. Sabemos quanto «a credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo» (MV 10).

É o amor que nos permite vislumbrar e penetrar no mistério da pessoa – este é a base significativa para uma melhor qualidade de vida para todos. Mais ainda, temos de conhecer os verdadeiros fundamentos da nossa fé e esperança, e sobre eles construir os alicerces da nossa existência. Não sejamos como Caim, que pretende nada ter a ver com a morte de seu irmão Abel: «Serei eu guarda do meu irmão?» (Gn 4,9). O estarmos despertos para a felicidade própria e alheia comporta exigências de evangelização e um esforço de purificação, para que todo o tipo de sofrimento seja um verdadeiro caminho de acesso à experiência da proximidade e da beleza do rosto de Deus, revelado em Jesus Cristo. Só a partir de uma Igreja presente como fermento de esperança ativa no meio do mundo, onde se constrói o Reino de Deus, do qual cada comunidade cristã é sinal visível, comprometida na transformação da história, dando as mãos a todos os que vivem enfermidades, se pode transformar o sofrimento em alegrias. Uma Igreja «onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida feliz do Evangelho» (EG 114). Vendo que a multidão de pessoas que O seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do coração, uma intensa compaixão por tais pessoas (cf. Mt 9,36). Em virtude deste amor compassivo, curou os enfermos que Lhe foram apresentados (cf. Mt 14,14) e, com poucos pães e peixes, saciou grandes multidões (cf. Mt 15,37). Em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia, com a qual dava resposta às necessidades que tinham.

Há corações feridos que esperam por alguém que suavize as suas feridas. É urgente despertar e recuperar a dimensão da fé e do encontro com Cristo. Só um encontro pessoal com a Pessoa de Cristo crucificado, morto e ressuscitado traz a realização plena para as nossas vidas. Cristo não pode ficar na dimensão do conhecimento, sob pena de os olhos humanos se fecharem pela deceção e falta de esperança, quando as coisas não correm bem, quando a crença em Deus se defronta com a realidade do sofrimento e da morte. A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: «Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?» (Jo 11,40).

Quem anuncia a esperança de Jesus é portador de alegria e vê longe, porque sabe olhar para além dos problemas. Fortalecidos pela esperança alicerçada na fé, respondamos ao desafio que se nos coloca, abrindo horizontes de esperança na esfera do amor e do serviço. Com esta esperança, procuremos, pela palavra que escutamos ou dizemos, pelo abraço, pelo afeto que sentimos e fazemos sentir, abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, estar atentos e solícitos para com todos aqueles que, no clamor ou no silêncio, esperam por uma palavra, que as nossas mãos apertem as suas e sintam o calor da nossa presença. Mesmo não podendo curar, devemos sempre cuidar. Cuidar dos enfermos, visitando-os e apoiando-os nos problemas concretos é uma das missões nobres da ação pastoral das comunidades. Um dos problemas que deve interpelar as nossas comunidades é o das pessoas que pela idade ou doença vivem sozinhas em casa. Neste sentido, é fundamental a relação entre as unidades de saúde e as comunidades cristãs.

Não pode faltar ao nosso dia-a-dia a escuta da Palavra de Deus e a solicitude para quem está em necessidade, a oração pessoal e comunitária, a partilha espiritual e o testemunho, o trabalho assíduo e sério. Para tal, é necessário: 1º Fortalecer a nossa identidade e crescer na liberdade criativa para obedecer àquilo que Deus nos chama a ser; 2º Manter-nos atentos e abertos às comunidades; 3º Desenvolver as nossas capacidades para um exercício inteligente da caridade em favor dos que sofrem.

A pastoral não pode deixar de incorporar esta realidade do sofrimento. «Os pastores, que propõem aos fiéis o ideal pleno do Evangelho e a doutrina da Igreja, devem ajudá-los também a assumir a lógica da compaixão pelas pessoas frágeis e evitar perseguições ou juízos demasiado duros e impacientes. O próprio Evangelho exige que não julguemos nem condenemos. Jesus «espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente» (AL 308).

Para fazermos emergir Jesus como o rosto misericordioso de Deus Pai, temos de, sem ceder à tentação do sucesso, mas seguindo o mesmo método, o da humildade, deixar-nos imbuir da sua palavra e agir em conformidade com ela. O discípulo de Jesus tem de ser um agente de misericórdia «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10,37). Paulo alimenta a ideia da alegria aliada à prática da misericórdia e na carta aos Romanos convida a praticar a misericórdia com alegria (cf. Rm 12,8), pois “Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9,7). O mundo de hoje precisa deste testemunho contagiante da alegria, da esperança e da misericórdia. Que cada um de nós seja capaz de “levar a boa nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; consolar os que choram; proclamar o tempo da graça” (Is 61,1-3). No fundo, criar uma comunidade apaixonada pelo seguimento de Jesus, que seja discípula nos caminhos da história, vivendo sempre atenta à voz do Espírito que clama no coração de cada homem.

Ao pé da cruz, Cristo conduz-nos a Maria, aquela que tem o coração trespassado pela espada, que compreende todos os sofrimentos. Maria ensina-nos a meditar para encontrar solução. À semelhança de Cristo, sejamos, através de um coração terno e humilde, capaz de escutar, oferecer alegria e esperança, rasgar horizontes, de sentir e aliviar o sofrimento dos irmãos que encontramos no caminho da vida.

Lembrados de que a oração nos pode iluminar o sentido da dor, com Maria, Mãe de Cristo, que subiu ao Calvário e permaneceu firme diante da Cruz, peçamos a sua intercessão para nos ajudar a suportar todos os sofrimentos e a estarmos atentos ao sofrimento dos outros.

Que nesta Quaresma, possamos refletir e experimentar esta via criada por Deus para a nossa Redenção.

Oração

Deus Pai, rico em misericórdia
que eu una as minhas dores
aos sofrimentos do teu Filho Jesus,
que, por amor aos homens,
ofereceu a Sua vida no alto da cruz.

Senhor Jesus,
a ti ofereço todas as minhas preocupações,
angústias e sofrimentos,
para que eu seja mais digno de ti.

Que o sofrimento,
unido à cruz de Jesus,
não tenha a última palavra,
porque Tu, Jesus, és a minha esperança
e a salvação dos meus irmãos.

Maria, Mãe de Cristo, junto à Cruz,
ajuda-me a levar a minha cruz e a dos meus irmãos.

Ámen.

____________
Quaresma, 2019
† António Manuel Moiteiro Ramos,
Bispo de Aveiro

FONTE: http://www.diocese-aveiro.pt/v2/?p=17836, acesso: 14-03-2019

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“SANTO MISSIONÁRIO DE PAIS ALENTEJANOS”: S. João de Brito, texto do Bispo Antonino Dias (01/02/2019)

“SANTO MISSIONÁRIO DE PAIS ALENTEJANOS”,

pelo Bispo Antonino Dias.

 

    “No dia 4 de fevereiro celebramos a memória de São João de Brito, filho de Dona Brites de Portalegre e de Salvador de Brito Pereira, de Vila Viçosa, Alcaide-Mor de Alter do Chão e Governador do Rio de Janeiro. João de Brito nasceu na cidade de Lisboa a 1 de Março de 1647, o mais novo de 3 irmãos. Foi educado na corte de D. João IV. Ao completar 15 anos de idade, pediu a admissão ao noviciado da Companhia de Jesus. Cumprido o noviciado, partiu para Évora onde, durante cinco anos, estudou Humanidades e Filosofia. Em Coimbra, no Colégio das Artes, estuda Filosofia. É neste período da sua vida que, impulsionado pelo exemplo de São Francisco Xavier, se deixa atrair pelas missões da Ásia, nomeadamente na Índia. Após terminar o curso de Filosofia, leciona gramática no colégio de S. Antão, atual Hospital de S. José, em Lisboa. Entre 1671 e 1673, estuda Teologia. Ordenado sacerdote em 1673, em Março embarca para Goa, onde chega a 14 de Setembro desse ano. No início do ano seguinte, parte para Ambalacata, onde se situava um colégio e um seminário. Em Abril, segue para a missão de Madurai como Superior da Comunidade. Dirigia-se assim para junto da mais baixa das castas da Índia, os párias. Era gente desprezada pelas outras castas. O próprio facto de os párias lidarem com os missionários era uma afronta que levava ao desprezo e a serem considerados como inimigos. Percebendo que a única forma de conquistar a classe mais alta, os brâmanes, era identificar-se com eles, João de Brito veste-se como eles, deixa crescer o cabelo, aprende a sua língua e costumes: “ele foi tão longe nos seus métodos de adaptação quanto era possível, mas não era o seu método que fazia as conversões, mas sim a sua alegria, a sua personalidade amiga, a sua abnegação, a sua evidente santidade”. No entanto, se o fruto do seu incansável testemunho e zelo iam crescendo, a perseguição bramânica também não deixava de crescer. E não tardou que missionários e catequistas, atados uns aos outros durante dois dias, fossem intimados a clamar pelos deuses hindus e, como o não fizessem, fossem açoitados e torturados, juntamente com João de Brito. Seguiram-se outras torturas e mais espancamentos, sem que aceitassem as exigências dos oficiais hindus. Condenados à morte, a sentença não foi confirmada, dadas as inesperadas alterações políticas. João de Brito foi intimado a comparecer diante de uns hindus para, em disputa com eles, expor e defender teologicamente a sua fé. Expôs e argumentou tão sabiamente que todos os seus foram libertados. Porque as notícias também chegavam a Portugal, o Provincial Manuel Rodrigues chamou João de Brito a Lisboa. Contrariado, João obedece, parte de Goa em viagem atribulada com escala forçada no Brasil. Chega a Lisboa a 8 de setembro de 1687. É recebido por D. Pedro II, percorre todos os Colégios da Companhia, nomeadamente os de Santarém, Coimbra, Porto, Braga, Évora, Monforte e Portalegre, desperta grande entusiasmo falando sobre a missão do Madurai, atrai pessoas, consegue fundos para a missão.

     E se antes fora a sua família a reagir contra a sua partida para a Índia, desta vez era o rei e a coroa quem o não queria deixar partir. Nada o removendo, regressa à Índia, levando consigo um grupo de missionários destinados à Índia meridional e que ele preparara dando-lhes a conhecer o país, a religião hindu e a sua experiência missionária.

    João Paulo Azevedo de Oliveira e Costa, no seu trabalho sobre a missão de João de Brito, conta-nos que “Chegado o momento da partida sucederia um último episódio rocambolesco, que nos serve hoje para melhor compreendermos a determinação que sempre animou João de Brito. Depois de um adiamento devido a uma tempestade, a armada de 1690 partiu a 8 de abril. Um tiro de canhão avisou todos os que iam partir de que chegara a hora de embarcar. João dirigiu-se de imediato para o cais, mas no caminho encontrou o Conde de Marialva, que lhe pediu insistentemente para que se fosse despedir novamente do Rei. Contrariado, o jesuíta acedeu; D. Pedro e a rainha retardaram-lhe sucessivamente a partida até que ressoou novo tiro de canhão – era o sinal de que a armada acabava de partir. João deixou rapidamente a companhia do monarca e correu para o cais; os navios já vogavam em direção ao Atlântico; o jesuíta viu então um pequeno navio à vela, cujos tripulantes se dispuseram a levá-lo até à armada; mas a embarcação era menos veloz que as grandes naus e estas continuavam a distanciar-se; em pleno rio João conseguiu mudar para outro navio mais rápido e este pôde alcançar as naus da Índia. Foi desta forma algo caricata que João de Brito deixou definitivamente Portugal”.

    De novo entre os Indianos, o missionário, mesmo a semear com lágrimas, reencontra a felicidade, como ele próprio reconhecia numa carta de 20 de abril de 1692. “Não há perseguição que me possa roubar a alegria que sinto em pregar, mais uma vez, o Evangelho aos gentios. Nos últimos quatro meses tenho estado escondido numa floresta, vivendo debaixo de uma árvore com tigres e cobras. Até agora ainda não fui atacado.”

    A conversão de um príncipe hindu da casa real do Maravá, é que fez cair o carmo e a trindade. Foi uma provocação demasiado forte. O rei, furibundo, chamou o príncipe, destruiu tudo quanto era dos cristãos, mandou prender João de Brito. Os amigos de João ainda pensaram em planos de fuga, ele recusou-os: “estava num dilema, em que muitos mártires futuros se haviam de encontrar: se fogem, são cobardes; se ficam, estão a arriscar temerariamente a própria vida. Brito ficou, porque estava convencido no Espírito que devia ficar; e, humanamente falando, a sua fuga teria sido um escândalo para os cristãos que ele deixava a enfrentar sozinhos a perseguição”. Preso e espancado, é julgado e condenado à morte. Para evitar motins populares, levam-no para Oriyur. Aí, sobre um outeiro, com dois ou três golpes, é decapitado. As mãos e os pés também lhe são amputados. Era o dia 4 de Fevereiro de 1693. O local tornou-se lugar de peregrinação, a sua morte e os milagres que lhe eram atribuídos fez aumentar o número de conversões. Mais tarde, as relíquias foram levadas para Goa e guardadas no Colégio de S. Paulo. Foi canonizado no dia 22 de Junho de 1947. A 14 de Maio de 1982, São João Paulo II, no Parque Eduardo VII, em Lisboa, afirmava: “Como não lembrar o exemplo de S. João de Brito, jovem lisboeta que, deixando a vida fácil da corte, partiu para a Índia, a anunciar o Evangelho da salvação aos mais pobres e desprotegidos, identificando-se com eles e selando a sua fidelidade a Cristo e aos irmãos com o testemunho do martírio?”

   Neste Ano Missionário a caminho do “Mês Missionário Extraordinário”, a viver em outubro próximo, não podemos esquecer que a proclamação do Evangelho continua a ser o melhor serviço que a Igreja pode prestar a cada pessoa e à sociedade.

   Reitero o desafio do Papa Francisco: “Na escola dos santos, que nos abrem para os vastos horizontes de Deus, convido-vos a perguntar a vós mesmos em cada cicunstância: “Que faria Cristo no meu lugar?”

 

AUTOR: Antonino Dias, Bispo de Portalegre-Castelo Branco, 01-02-2019.

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Algumas reflexões sobre o Luto: “o Morrer”.

Algumas reflexões sobre o Luto: “o Morrer”.

o. O luto envolvido na Dor e na Separação empurra-nos, mais do que nunca, para uma exigência de sentido “a que não conseguimos fugir” (rua de sentido único: “a que não devemos fugir”).

1. Sem receitas feitas. Sem lições demagógicas. Sem presenças estéreis. O amadurecimento maior. Fundo e consciente, passa necessariamente pela experiência do luto. Pouco importa a idade de quem se inicia (há gradualidade) e empenha nesta busca pessoal e intransmissível mas partilhada – ombro a ombro; lágrima e voz baixa; lisura e silenciar de banalidades. A morte não permite a superficialidade. Não desvie o olhar.

2. Propor com simplicidade e contensão palavras e gestos sobre o luto e morte. No jornal não passemos rapidamente a secção de necrologia. No luto particularmente no absurdo imposto pelo quotidiano descontínuo de palavras cruzadas. Descruzar as palavras e (a)firmar o Silêncio. Intervalo de espera para ouvir falar, gritar se necessário for. Grito preto no modo ou branco na forma tanto que desfaça o testemunho de auto-suficiência. O luto tem cor própria em cada cultura, modo de identidade histórica. Urgentes os grupos/círculos terapêuticos de vivência no pós-luto pela inserção integrada.

3. Estarmos preparados para olhar de frente a morte como o verdadeiro natal (cristificado e não apenas secularizado: eis a preferência e não renúncia) e preocuparmo-nos com ela pode também constituir uma prova de saúde espiritual – recuse o auto-engano; tenha cuidado com a auto-ajuda light; o apoio mútuo, consentido e partilhado de modo contínuo é o caminho – um sinal de que encontrámos a capacidade de apreciar a vida e corremos o risco de a viver com coragem. Coragem não é iludir fragilidades. É experiência humana que liberta o medo. É que o medo de morrer talvez (humildemente sem incenso falso) dissimule na realidade o medo de viver. Queres experimentar um retiro interior, repara num conselho a realizar sempre acompanhado. No dia 1 ou 2 de Novembro de cada ano, depois das cerimónias dignas nos cemitérios – em dias em que a chuva não nos abençoa – percorre, volta a insistir sem fotografar (porém não comentes…) o cemitério ao anoitecer, iluminado, em todas as campas de mármore e terra; sente o odor das flores e cera que arde lentamente pelo ar pleno de saudade no futuro. A alma, razão do esperar, vai fecundar o teu corpo para sementeira da Vida Eterna. Farás a aprendizagem do Credo de modo heterodoxo mas fiel. Na nossa existência, há uma questão verdadeira: pode-se amar, sabendo-se que se vai morrer? Difícil resposta em tratamentos terminais para o corpo, depressivos para a alma, paliativos para o espírito.

4. Como nos aconteceu? Pois é. Realidade. Os descrentes, os que pensam, os que precisam pensar mais e de canal aberto, os que choram, os que nunca telefonam e aparecem no dia aprazado do testamento fechado, terão assim a pretensão para dizer «talvez»; «nunca hei-de»; «era o destino»; «chegou no limite»; «sim que é não»; «não que é para depois». Nada e tudo. Só o pequeno é genesis. Os Cemitérios perdidos procuram ser os Jardins bíblicos. A nossa devoção às flores sem preço é primordial. Escrever em todas as listas de condolências. A Morte é Grande. O luto é pequeno.

5. Somos livres de viver e de amar contra o morrer (“que-é-um-morrer-se”), envolvido no luto doloroso que está prescrito em todos os rostos amigos. Cartas não escritas. Palavras caladas. Gestos incontidos porque despercebidos. O nosso amadurecimento espiritual supõe e compõe um processo de luto e desolação, uma morte e um renascimento. Custo sem medida, impossível suavizar, ver partir as crianças de forma incumprida. Inocência perdida. Cada um é chamado a acreditar na aceitação…pai, mãe, filho(a), amigo, amante de ser amado, prodigo e prodígio, libertino e libertador, anónimo e óscar… todos morremos e, logo, havemos de aceitar. Não é bem assim. Não é mesmo assim. Evitar o inevitável. Aceitação do desafio lancinante que lhe é feito pelas perdas inevitáveis provocadas pelo crescimento interior. Que não se vê e está lá oculto. Desenvolvimento, envelhecimento e morte. Ordem natural trocada maior sofrimento acrescido.

6. Os filhos crescem e abandonam a casa. Os pais avançam na idade, adoecem ou ficam inválidos e morrem. Não há prescrição possível. E quando se adensam os processos de vícios auto-destrutivos de forma irreversível. O papel do cireneu fica no inverso do bom-samaritano. Papel químico e não descartável. Não é inverdade, nem inumano que todos nós entraremos/entramos já hoje, em declínio, mesmo que Jesus Cristo nos consubstancie em Vida (abundante no batismo de sangue ou nas gotas de água depositadas no cálice amargo ou doce do funeral; por requisição civil) e mais cedo do que tarde, teremos de ser nós a enfrentar a doença incurável da morte propriamente. Impróprios para morrer velhos de juventude.

7. A morte irmã natural – não só a nossa; mas também e sobretudo a de quem amamos. Ciclo sem angústia. A consequência agravada em Graça e Ternura. O colo que não foi nosso no nascer deve cumprir-se no morrer. Desgraçadamente amparados no Amor devemos aceitar conscientemente as diversas fases do luto se quisermos preservar a saúde mental e espiritual, diante do morrer diário e final.

8. Sobreviver à perda do Amor é das lutas mais duras e penosas, nas quais enfrentamos uma educação desigual. Sentimentos de vazio, solidão, sofrimento, choramos inconsolavelmente. Temos direito ao luto mal vivido. Mas não temos direito a recusar a ajuda de quem nos ama e respeita. Se o Amor se ausentar estás obrigado humanamente ao respeito. Com a injustiça gritante na hipocrisia refugia-te no mínimo de decoro. Se o mecanismo saudável for bloqueado por qualquer sentimento de Culpa ou Medo que não conseguiu aflorar à Consciência. Ciência imperfeita de seres para a morte. Sabedoria apofática de criaturas para a vida eterna.

9. Nós os amigos do defunto podemos ser surpreendidos pela notícia. Pelos sentimentos contraditórios, pela tempestade de paz, pela aceitação a prazo, pela ausência de qualquer dor ou sintoma de tristeza. Será mesmo assim? Inicia a tua oração secular ou mística. O teu silêncio surdo será ouvido. A tua prece de olhos fechados: a visão interior é mais fiel. Assim nos seja dada a impossibilidade dos prognósticos ou das estatísticas: «Diga-me só se tenho hipóteses de viver?». Os números de valor infinito: «Diga-me lá a probabilidade que tenho?». A Morte é a única certeza que nos espera na Porta da Vida Eterna. Assim nos seja dada a possibilidade de experimentar o Luto para que a Vida não seja apenas retirada mas transformada na Comunhão da memória agradecida, menos depressiva e menos negligenciável – participar na comunhão de sufrágio para eternidade tecida nas raízes humanas.

10. Não sou um número, um algoritmo, uma música, uma moeda, uma morada, um lenço, um perfume, um lugar, uma chave, um anel, uma maçã, um intervalo num espetáculo em que não paguei o ingresso nem recebi convite. Sou também um nó de relações fecundas, uma narrativa contada pelo meu avesso, uma alma biológica e espiritual. Nasci como Mistério de Amor não morrerei fora desse Mistério revelado na sombra do Luto e na Luz da Irmã Morte. Importância do «e». Querer aprender e partilhar e respeitar o Luto. Ritual e Rito. Alfa e Ómega. Pecado e Graça. Ámen e Aleluia.

pedro josé, Bustos / Mamarrosa / Oliveira do Bairro / Palhaça, 21-01-2019. 7281

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Conversas de Natal e Ano Novo (releituras…)

Conversas de Natal e Ano Novo

 

(I – Parte)

“Tinhas-me dito – observou o boi – que era a festa da serenidade, da paz, do repouso do espírito…

– Mas – respondeu o burro – dantes era assim…

– Lembras-te – retomou o boi – daquela noite, em Belém ? Da cabana, dos pastores e daquele lindo menino ?

  Também lá estava frio, mas havia uma paz, uma satisfação…  Como era diferente !

– É verdade. E aquelas gaitas de fole distantes que mal se ouviam, muito baixinho… Lembras-te ?

– E do telhado vinha o som de um leve esvoaçar  Talvez fossem aves…

– Que aves ? Sempre és um grande teimoso! Eram Anjos…  Anjos !!

– E a estrela ? Ainda sabes que estrela era? Sobre a cabana .

– Talvez ainda lá esteja…  As estrelas têm vida longa!!

– Ainda bem ! ” –  D. Luzzati

(Parte II)

“Quem persegue uma estrela tem de caminhar na noite. Todos os santos o atestam, ao falar da noite da fé, da noite da dor… Jesus nasceu e ressuscitou de noite, e é nas nossas noites que nos vem visitar, fazendo brilhar, poderosa, a sua estrela.

Quem persegue uma estrela tem de levantar os olhos das coisas rasteiras e procurar trilhos, não na terra, mas no céu. Levantaremos nós suficientemente o olhar para o Céu? Ou vivemos este Natal e a nossa vida presos às coisas terrenas? O Papa Francisco lembrava há dias que se fala pouco do Céu nas catequeses e homilias, e que um cristão precisa de pensar no Céu,

se quiser encontrar o seu caminho sobre a Terra – como os Magos…” – Teresa Power

 

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