Sobre a anedota dos caranguejos

Sobre a anedota dos caranguejos

1.“Um pescador andava há horas na orla do mar a recolher caranguejos para um balde. Ao chegar a um café de praia, um homem que ali estava pousou o jornal e perguntou-lhe: – Desculpe, como é possível não lhe fugir nenhum caranguejo, se o senhor vira costas para ir apanhar mais e nunca deixa o balde tapado? – Ora, amigo, não vê que são caranguejos portugueses? Se algum deles tentar subir, os outros juntam-se logo para o deitar abaixo”.

2.Esta anedota é muito mais «grave» do que possa parecer, segundo Sílvia Rodrigues, a quem devo o choque da mesma (in Revista Saúda+, Farmácias Portuguesas, Abril 2016,p.3 https://www.farmaciasportuguesas.pt/pub/sauda/revista/006/pubData/source/revista_ebook.pdf, acesso: 22-04-16.) “tem lá dentro aquela moral simples das histórias que resistem ao tempo, de boca em boca – e se instalam no imaginário colectivo. Por alguma razão nos consideramos frequentemente um povo dado à inveja e à intriga”. Se quisermos, aprofundar, indo mais dentro nesta análise, invocamos José Gil, professor catedrático, na sua reconhecida e incómoda clarividência quando chega a afirmar numa entrevista “A inveja é mais do que um sentimento. É um sistema. E não é apenas individual: criam-se grupos de inveja. Várias pessoas manifestam-se simultaneamente contra a sua iniciativa. Cria-se um ambiente de inveja. Um grupo determinado age segundo os regulamentos da inveja” (in Revista Pública, nº451, 16-01-2005, pp.8-9). Ainda na sua obra “Portugal, Hoje: O Medo de existir” (2005), o capítulo sugestivamente denominado: “Queixume, Ressentimento, Invejas” (cfr. pp.90-102). Analisa de forma transparente e dolorosa o mal de uma sociedade fechada (nossa e não só…), na convivência, no trabalho social e criativo, quando é contaminada pela inveja e seus efeitos perversos. A Inveja (e seus “familiares diretos”: intriga, queixume, ressentimento, etc…): subsiste por si, evolui por si, ataca por si. Como um vírus maligno. Mal-me-quer-bem!?

 

3.Temos de instalar dentro de nós o som do alarme Anti-Inveja. Fazer com que o círculo do vício dê lugar ao círculo da virtude. Fazer crescer a cultura da «Admiração» na sinceridade, na humildade, na partilha. Se rirmo-nos desta anedota (transcendental e humana…) é porque temos a Consciência que este defeito, estrutural e cultural, pode e deve ser mudado. Haja vontade para iniciar a contra-cultura. Iniciemos o Caminho do autoconhecimento. Deixemos o caminho do autoengano. Se a Vida nos faz perder o palco… «Há mais Vida para além de uma Vida sem palco». Somos seguidores da «Vida Plena»: a eternidade da singularidade (ninguém terá vocação para génio, a não ser no «Serviço à defesa e promoção da própria Vida») vivida Aqui e Agora. Simples e concreta.

4.Na vez de ficar a olhar para baixo das humilhações…, para o lado mais influenciável do mediatismo fácil…, para ver se ninguém nos tira o lugar no protagonismo saloio…; cultivemos a Responsabilidade que sentimos em ir lá abaixo, na nossa condição solidária, para a ajudar os «Outros»: os mais novos; os mais débeis; os mais e menos interessados; os menos capazes; os mais esquecidos e abandonados… Ser para os Outros e não contra os Outros. Esse será sem dúvida um dos contributos, mais fecundos, para fazer parte das conquistas maiores em humanidade. Precisamos da força dos Testemunhos embebidos na alegria e esperança Pascais. Alegria incondicional e Esperança incondicional. O Caminho é difícil mas faz mais Sentido ser percorrido em conjunto.

Pedro José, Gafanha Nazaré/Carmo/Encarnação/, 22-04-2016, caracteres (incl. esp) 3461.

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