MAÇONARIA – Excerto da Tese de Doutoramento de Francisca Maria Carreteiro Branco Veiga, A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834, Un Lisboa/Fac Letras, 2019.

FONTE: MAÇONARIA/Excerto da Tese de Doutoramento de Francisca Maria Carreteiro Branco Veiga, A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834, Un Lisboa/Fac Letras, 2019.

Vitória da Maçonaria

O secretismo da Maçonaria e os seus ideais eram vistos pela Igreja Católica, e, por conseguinte, pelos Jesuítas como um atentado à Religião e aos dogmas católicos, logo a Maçonaria era olhada com desconfiança1416. O primeiro ataque público escrito pelo papado contra a Maçonaria foi feito em 28 de abril de 17381417, com a Constituição In Eminenti e era agora feito dentro da ideologia miguelista, no sentido de fortalecimento da legitimidade de D. Miguel e na proteção da religião1418.

Apesar do combate antimaçónico insistente feito por pessoas próximas do rei D. Miguel, como por exemplo, o P. José Agostinho de Macedo no periódico O Desengano ou Alvito Buela em O Procurador dos Povos, algumas vozes nos revelaram o papel determinante da maçonaria na vitória do liberalismo.

1414 Carta de Cypriano Margottet para uma residente na cidade do Mondego. Lisboa, a bordo do navio Sardo, 7 de julho de 1834. In APPCJ, Companhia de Jesus 1829-1834, Memórias pertencentes aos padres da Companhia de Jesus, Carta de Cypriano Margottet para uma residente na cidade do Mondego fls. 24 – 26. Vide Anexo 44.

1415 Carta do P. Ivo Estanislau para um amigo de Coimbra. Dia 30 de junho de 1834. In APPCJ, Companhia de Jesus 1829-1834, Memórias pertencentes aos padres da Companhia de Jesus, Carta de Ivo Stanislau para um amigo de Coimbra fls 26-29. Vide Anexo 37.

1416 Veja-se FRANCO, José Eduardo – O Mito dos Jesuítas em Portugal, vol. II. Lisboa: ed. Gradiva, 2007. 1417 Vide APÊNDICE H – Pronunciamentos papais relativos à Maçonaria entre 1738 e 1902.

1418 BRASÃO, Eduardo – Relações diplomáticas de Portugal com a Santa Sé: o reconhecimento do Rei D. Miguel (1831). Lisboa : Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1972, pp. 31 e ss.

532

Paul Siebertz refere que, quando estava no exílio, o principal estímulo e ação do Marquês de Palmela1419 era a sua conjura contra D. Miguel, sendo auxiliado pelas Lojas maçónicas1420. Na opinião de Siebertz, teriam sido as sociedades secretas as principais instigadoras da Quádrupla Aliança, de modo que depois do tratado assinado «cessaram as perseguições da Franco- Maçonaria»1421. Homem do Carmo, seguindo o mesmo pensamento de Paul Siebertz refere que,

“As sociedades secretas inglesas e francesas envidaram todos os esforços para desligar os Estados ocidentais da Europa dos laços que os prendiam à política conservadora das monarquias da Europa central e oriental, a-fim-de os tornarem maduros para abraçarem a corrente ideológica liberal do partidarismo parlamentar-constitucional” 1422

Na sua opinião, por mais de uma vez convidaram D. Miguel a ingressar na Maçonaria, «devendo ser esse o preço da sua ascenção e conservação no trono». Como D. Miguel declinou sempre o convite, logo «devia ser afastado»1423.

Se for seguida esta linha de pensamento que coloca também a maçonaria como responsável pelo afastamento de D. Miguel do trono português, pode aceitar-se a ideia de J. Martins de Carvalho quando este afirma que, no dia 8 de maio de 1834, quando entrava o exército liberal em Coimbra para daí expulsar os jesuítas, o nomeado secretário da subprefeitura D. João Correia de Portugal e Silveira trazia a «incumbência» do Grande Oriente de aí fundar uma loja maçónica1424.

1419 Em 13 de junho de 1833, o ducado de Palmela foi instituído por decreto, pelo regente D. Pedro, em nome de sua filha D. Maria II, a D. Pedro de Sousa Holstein. Foi primeiro conde, por decreto de D. Maria I em 11 de abril de 1812, e marquês de Palmela por decreto de D. João VI, em 3 de julho de 1823.

1420 SIEBERTZ, Paul – A maçonaria na luta pelo poder: D. Miguel I e a sua época. Porto: Pola Grey, 1944, pp. 223-225.

1421 Ibidem, p. 405.

1422 CARMO, A. Homem do – ibidem, p. 62.

1423 Ibidem.

1424 CARVALHO, Joaquim Martins de – Apontamentos para a Historia Contemporanea, p. 167.

533

Em conformidade com o que foi dito, e para António do Carmo Reis, “… com a vitória do senhor D. Pedro, sob a protecção da Quádrupla Aliança, criam- se as condições de liberdade para que a Maçonaria se dilate em lojas e obreiros”1425. Também para António Ventura “O triunfo liberal era, em larga medida, o triunfo da Maçonaria”1426.

Para o Marquês de Fronteira no período subsequente, “… tanto a oposição como o Ministério estavam debaixo do domínio das associações secretas”, sendo que, “As reuniões da maioria, tanto de Pares como de Deputados, faziam-se nas salas da Relação Ecclesiastica, de que era secretário José Maria Couceiro, e, para seu commodo e dos nossos representantes, estabeleceu uma loja maçónica no segundo andar, de que era Veneravel o Ministro da Fazenda, José da Silva Carvalho”1427.

Oliveira Marques também refere o poder da maçonaria na política liberal pedrista:

“A vitória definitiva dos Liberais, em Maio de 1834, entregou à Maçonaria a quase plenitude do poder. O ministério de Outubro de 1833 a Abril de 1834 e o que lhe seguiu, de Abril a Setembro de 1834, foram constituídos exclusivamente por maçons. Na Câmara dos Deputados, eleita em 28 de Julho e funcionando desde 15 de Agosto de 1834, a Maçonaria obteve um dos melhores, se não o melhor resultado de sempre: pelo menos 71% de participações, com percentagens de 100% para os dois círculos dos açores e o da Madeira, de 89% para o do Algarve e de 88% para o do Alentejo. E, até Setembro, o próprio Chefe efectivo do Estado, D. Pedro IV, embora afastado dos trabalhos, era pedreiro-livre também”1428

Por sua vez, Fortunato de Almeida ao referir-se à política religiosa do “partido” de D. Pedro e às suas influências ideológicas afirmava que,

1425 REIS, António do Carmo – “Maçonaria”. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – Dicionário de História Religiosa de Portugal, J-P. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p. 167.

1426 VENTURA, António – Uma história da Maçonaria em Portugal, p. 164.

1427 FRONTEIRA, 7o Marquês de – Memorias do Marquês de Fronteira e de Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861, Parte 5a e 6a: 1833 a 1842. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1929, pp. 12; 119.

1428 MARQUES, A. H. de Oliveira – História da maçonaria em Portugal, 2o vol.: Política e maçonaria, 1820-1869 (1a parte). Lisboa: Presença, 1996, p. 51.

534

“Todas as reformas do partido constitucional em matéria eclesiástica, desde 1832, foram obra da maçonaria, decretadas por mações graduados ou por instrumentos que a estes obedeciam cegamente. Um maçom confesso escreve: «Em 1833 e 1834, D. Pedro IV, que era mação e de mações estava rodeado no seu governo, expulsou primeiro os jesuítas e em seguida suprimiu todas as congregações religiosas de ambos os sexos, proibindo de futuro a sua existência em Portugal».

Posteriormente partiram da maçonaria todos os embates contra o clero e contra as instituições religiosas”1429.

      1. Pedro era maçon, tal como a maior parte dos chefes militares do seu exército1430. Com o fim último, o triunfo dos ideais liberais, visavam aniquilar o sistema absoluto do governo miguelista e derrubar os padres e jesuítas dos seus púlpitos e confessionários1431.

Após a Convenção de Évora Monte o país partiu-se em fações e a maçonaria dividiu-se em grupos e com duas orientações distintas: a francesa e a inglesa. Leais ao liberalismo e a D. Pedro encontravam-se os maçons: João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, Marechal Duque de Saldanha, da maçonaria «francesa», foi Grão-mestre da Maçonaria do Sul entre 1832 e 1837 e teve como colaboradores, José Liberato Freire de Carvalho e o 4o conde de Lumiares1432; D. Pedro de Sousa Holstein, 1.o Duque de Palmela, embora não se conhecendo ligação à maçonaria, tinha como seu apoiante o Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, Silva Carvalho, tal como Agostinho José Freire1433. Está sepultado no Cemitério dos Prazeres, no maior mausoléu particular da

1429 ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, 3o vol.: Porto; Lisboa: Livr. Civilização, 1970, p. 280.

1430 António Ribeiro Saraiva na obra Cartas Conspiradoras, fazia a seguinte ligação: «Empoleirado o Pedrismo (ou Pedreirismo) em Lisboa». In SARAIVA, António Ribeiro – Cartas Conspiradoras. Londres: Schulze e Ca., 1844, p. 123.

1431 António Ribeiro Saraiva responsabiliza a maçonaria e os liberais pela nova expulsão dos jesuítas que, segundo este diplomata, enchiam a população de «calumnias» acerca destes padres. O Conimbricense, no 3065, de 12 de dezembro de 1876, p. 1.

1432 Esboço biographico do duque de Saldanha, Lisboa: Typ. Lisbonense, 1876.

1433 Refere o Marquês de Fronteira que, “… quiseram meter na maçonaria e fazer Grão-Mestre d’ella o Duque de Palmella, o qual recusou e delegou no Duque da Terceira, que, com o horror que elle tinha ás sociedades secretas, desde logo pediu que nunca mais lhe falassem nisso, …”. In FRONTEIRA, 7o Marquês de – Memorias do Marquês de Fronteira e de Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861, Parte 5a: 1833 a 1834, p. 120.

535

Europa, projetado pelo arquiteto e maçon Giuseppe Cinatti, e o seu espaço exterior recria a simbologia de um templo maçon1434; José da Silva Carvalho, ministro de D. João VI, de D. Pedro IV e de D. Maria II. Em 1821, com o nome simbólico Hydaspe, foi membro da Loja 15 de Outubro, onde ocupou o cargo de Venerável. Em 1822 ou 1823 e até 1839 ocupou o cargo de 8.o Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano1435; Agostinho José Freire nos começos de 1821, é um dos assessores do Grão-Mestre João da Cunha Sotto-Mayor no Grande Oriente Lusitano, acompanhado de José Correia da Serra, Nuno Álvares Pato Moniz, José Ferreira Borges e Manuel Borges Carneiro. Em 1834 foi nomeado por D. Pedro Ministro da Guerra e Ministro da Marinha (interino), e Ministro do Reino, em 1835 e 18361436; Joaquim António de Aguiar, foi iniciado na Maçonaria em data e Loja afeta ao Grande Oriente Lusitano desconhecidas e com nome simbólico desconhecido, tendo sido evocado como maçon pelo Grande Oriente Lusitano Unido por ocasião da sua morte1437; Mouzinho da Silveira a convite de D. João VI, assume a pasta do Ministério da Fazenda, demitindo-se quando depois da Vilafrancada a sua ligação à Maçonaria é tornada pública. Em 1832 assume a Pasta da Fazenda e, interinamente, a pasta da Justiça1438.

Como refere Oliveira Marques, a vitória definitiva dos liberais e pedristas entregou aos maçons a quase totalidade do poder. O primeiro ministério (outubro

1434 Veja-se CARVALHO, Maria Amália Vaz de – Vida do Duque de Palmela D. Pedro de Sousa e Holstein, 3 vols., Lisboa: Imp. Nacional, 1898-1903.

1435 MOGARRO, Maria João – José da Silva Carvalho: significado de uma acção política. Lisboa: [s.n.], 1988; VIANA, António – José da Silva Carvalho e o seu tempo, 3 vols., Lisboa: Imp. Nacional, 1891-1894.

1436 [FELGUEIRAS, João Baptista] – Resumo histórico da vida e trágico fim do conselheiro de Estado Agostinho José Freire, …, Lisboa: Typ. Patriotica de C. J. da Silva, 1837, pp. 9-11.

1437 OLIVEIRA MARQUES, António Henrique Rodrigo de – Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. I. Lisboa: Ed. Delta, 1986, Col. 27-8.

1438 REIS, António do Carmo – O essencial sobre Mouzinho da Silveira. Lisboa: Inp. Nac.-Casa da Moeda, 2004; MANIQUE, António Pedro – A reforma administrativa de Mouzinho da Silveira [Texto policopiado]: aplicação e resultados. Dissertação de Mestrado, Lisboa: [s.n.], 1986; Idem – “Instituições administrativas e construção do Estado Liberal”. In COSTA, Fernando Marques da; DOMINGUES, Francisco Contente; MONTEIRO, Nuno Gonçalo (coords.) – Do Antigo Regime ao Liberalismo, 1750-1850. Lisboa: Vega, D.L. 1989, pp. 166-173. BRANDÃO, Maria de Fátima; FEIJÓ, Rui Graça – “O discurso reformador de Mouzinho da Silveira”. In Análise Social, vol. XVI (61-62), 1980- l.o- 2.o, pp. 237-258.

536

de 1833 a abril de 1834) e o seguinte (abril a setembro de 1834) foram constituídos de um modo quase exclusivo por maçons1439.

Ora, com esta conjuntura política interna e externa, como é que os jesuítas poderiam ter ficado em Portugal?

Em 16 de abril de 1848, António Ribeiro Saraiva consternado, escrevia ao P. Nicolau dando-lhe conhecimento do estado em que se encontrava a Europa. Afirmava ele:

“É, todavia, um facto, que não há quase um canto da Europa em que se esteja ao abrigo da borrasca revolucionária e republicana, as únicas excepções por ora parecem ser aqui a Rússia. É triste não se ver apoio aos princípios monárquicos quase em parte alguma”1440.

Carayon manifesta o seu desconsolo: “… Fribourg, Chambéry, Mélan, Le Passage et Coïmbre, après avoir appelé les Jésuites et les avoir tant aimés les virent expulser au nom de toutes les libertés modernes”1441.

O mundo estava em mudança, as monarquias constitucionais estavam a tomar o lugar das monarquias absolutas, os liberais a tomar o lugar nos governos e a trazer consigo novos ideais de sociedades que valorizam a liberdade individual. O maçon José Liberato Freire de Carvalho rendido à liberdade de imprensa afirmava:

“… em quanto durar a imprensa, que já naõ está na maõ do homem o poder aniquilar, nem Jesuitas, nem qualquer outra classe particular de individuos poderaõ ser exclusivamente os Mestres, ou os Tutores do mundo”1442.

1439 MARQUES, A. H. de Oliveira – História da Maçonaria em Portugal, 2o vol.: Política e maçonaria, 1820-1869, 1a parte. Lisboa: ed. Presença, 1996, p. 51.

1440 Carta de António Ribeiro Saraiva para o P. Nicolau, dia 16 de abril de 1848. In BNP, ARS, cx. 172 (25 cartas de 1844 a 1852), no 22.

A Rússia manteve-se fiel aos ideais da Santa Aliança pois era um dos poucos países sem interesses na da Europa, excepto o de uma paz duradoura. Veja-se em anexo a Litografia satírica que representa a guerra entre os dois irmãos. Vide GRAVURA A – Kssssse! Pédro – Ksssss! Kssssse! Miguel

1441 CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus: Notes historiques, vol. X, p. X.

1442 O investigador portuguez em Inglaterra ou jornal literario político, no l (no2, vol. XIII), agosto de 1815, p. 251.

537

Deste modo, e na opinião de Teófilo Braga, os Jesuítas responsabilizavam a Maçonaria por todos os males do século XIX, “… apresentando-a ás monarchias absolutas como um perigo, poque ella fomentava a liberdade politica”1443.

Concluindo, a vitória dos liberais sobre o governo absoluto miguelista era obra de uma elite política que lutava por restabelecer em Portugal um governo constitucional. São católicos e querem que a religião da Nação Portuguesa seja a Católica Apostólica Romana. Contudo, a doutrina anti jesuíta encontrava-se dissiminada entre estes intelectuais e somente pelo fato de serem “Jesuítas” se criava uma imagiologia crítica depreciativa.

FONTE: MAÇONARIA/Excerto da Tese de Doutoramento de Francisca Maria Carreteiro Branco Veiga, A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834, Un Lisboa/Fac Letras, 2019.

 

Esta entrada foi publicada em Apontamentos, Cultura, Organizações com as etiquetas , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s