Algumas reflexões sobre o Luto: “o Morrer”.

Algumas reflexões sobre o Luto: “o Morrer”.

o. O luto envolvido na Dor e na Separação empurra-nos, mais do que nunca, para uma exigência de sentido “a que não conseguimos fugir” (rua de sentido único: “a que não devemos fugir”).

1. Sem receitas feitas. Sem lições demagógicas. Sem presenças estéreis. O amadurecimento maior. Fundo e consciente, passa necessariamente pela experiência do luto. Pouco importa a idade de quem se inicia (há gradualidade) e empenha nesta busca pessoal e intransmissível mas partilhada – ombro a ombro; lágrima e voz baixa; lisura e silenciar de banalidades. A morte não permite a superficialidade. Não desvie o olhar.

2. Propor com simplicidade e contensão palavras e gestos sobre o luto e morte. No jornal não passemos rapidamente a secção de necrologia. No luto particularmente no absurdo imposto pelo quotidiano descontínuo de palavras cruzadas. Descruzar as palavras e (a)firmar o Silêncio. Intervalo de espera para ouvir falar, gritar se necessário for. Grito preto no modo ou branco na forma tanto que desfaça o testemunho de auto-suficiência. O luto tem cor própria em cada cultura, modo de identidade histórica. Urgentes os grupos/círculos terapêuticos de vivência no pós-luto pela inserção integrada.

3. Estarmos preparados para olhar de frente a morte como o verdadeiro natal (cristificado e não apenas secularizado: eis a preferência e não renúncia) e preocuparmo-nos com ela pode também constituir uma prova de saúde espiritual – recuse o auto-engano; tenha cuidado com a auto-ajuda light; o apoio mútuo, consentido e partilhado de modo contínuo é o caminho – um sinal de que encontrámos a capacidade de apreciar a vida e corremos o risco de a viver com coragem. Coragem não é iludir fragilidades. É experiência humana que liberta o medo. É que o medo de morrer talvez (humildemente sem incenso falso) dissimule na realidade o medo de viver. Queres experimentar um retiro interior, repara num conselho a realizar sempre acompanhado. No dia 1 ou 2 de Novembro de cada ano, depois das cerimónias dignas nos cemitérios – em dias em que a chuva não nos abençoa – percorre, volta a insistir sem fotografar (porém não comentes…) o cemitério ao anoitecer, iluminado, em todas as campas de mármore e terra; sente o odor das flores e cera que arde lentamente pelo ar pleno de saudade no futuro. A alma, razão do esperar, vai fecundar o teu corpo para sementeira da Vida Eterna. Farás a aprendizagem do Credo de modo heterodoxo mas fiel. Na nossa existência, há uma questão verdadeira: pode-se amar, sabendo-se que se vai morrer? Difícil resposta em tratamentos terminais para o corpo, depressivos para a alma, paliativos para o espírito.

4. Como nos aconteceu? Pois é. Realidade. Os descrentes, os que pensam, os que precisam pensar mais e de canal aberto, os que choram, os que nunca telefonam e aparecem no dia aprazado do testamento fechado, terão assim a pretensão para dizer «talvez»; «nunca hei-de»; «era o destino»; «chegou no limite»; «sim que é não»; «não que é para depois». Nada e tudo. Só o pequeno é genesis. Os Cemitérios perdidos procuram ser os Jardins bíblicos. A nossa devoção às flores sem preço é primordial. Escrever em todas as listas de condolências. A Morte é Grande. O luto é pequeno.

5. Somos livres de viver e de amar contra o morrer (“que-é-um-morrer-se”), envolvido no luto doloroso que está prescrito em todos os rostos amigos. Cartas não escritas. Palavras caladas. Gestos incontidos porque despercebidos. O nosso amadurecimento espiritual supõe e compõe um processo de luto e desolação, uma morte e um renascimento. Custo sem medida, impossível suavizar, ver partir as crianças de forma incumprida. Inocência perdida. Cada um é chamado a acreditar na aceitação…pai, mãe, filho(a), amigo, amante de ser amado, prodigo e prodígio, libertino e libertador, anónimo e óscar… todos morremos e, logo, havemos de aceitar. Não é bem assim. Não é mesmo assim. Evitar o inevitável. Aceitação do desafio lancinante que lhe é feito pelas perdas inevitáveis provocadas pelo crescimento interior. Que não se vê e está lá oculto. Desenvolvimento, envelhecimento e morte. Ordem natural trocada maior sofrimento acrescido.

6. Os filhos crescem e abandonam a casa. Os pais avançam na idade, adoecem ou ficam inválidos e morrem. Não há prescrição possível. E quando se adensam os processos de vícios auto-destrutivos de forma irreversível. O papel do cireneu fica no inverso do bom-samaritano. Papel químico e não descartável. Não é inverdade, nem inumano que todos nós entraremos/entramos já hoje, em declínio, mesmo que Jesus Cristo nos consubstancie em Vida (abundante no batismo de sangue ou nas gotas de água depositadas no cálice amargo ou doce do funeral; por requisição civil) e mais cedo do que tarde, teremos de ser nós a enfrentar a doença incurável da morte propriamente. Impróprios para morrer velhos de juventude.

7. A morte irmã natural – não só a nossa; mas também e sobretudo a de quem amamos. Ciclo sem angústia. A consequência agravada em Graça e Ternura. O colo que não foi nosso no nascer deve cumprir-se no morrer. Desgraçadamente amparados no Amor devemos aceitar conscientemente as diversas fases do luto se quisermos preservar a saúde mental e espiritual, diante do morrer diário e final.

8. Sobreviver à perda do Amor é das lutas mais duras e penosas, nas quais enfrentamos uma educação desigual. Sentimentos de vazio, solidão, sofrimento, choramos inconsolavelmente. Temos direito ao luto mal vivido. Mas não temos direito a recusar a ajuda de quem nos ama e respeita. Se o Amor se ausentar estás obrigado humanamente ao respeito. Com a injustiça gritante na hipocrisia refugia-te no mínimo de decoro. Se o mecanismo saudável for bloqueado por qualquer sentimento de Culpa ou Medo que não conseguiu aflorar à Consciência. Ciência imperfeita de seres para a morte. Sabedoria apofática de criaturas para a vida eterna.

9. Nós os amigos do defunto podemos ser surpreendidos pela notícia. Pelos sentimentos contraditórios, pela tempestade de paz, pela aceitação a prazo, pela ausência de qualquer dor ou sintoma de tristeza. Será mesmo assim? Inicia a tua oração secular ou mística. O teu silêncio surdo será ouvido. A tua prece de olhos fechados: a visão interior é mais fiel. Assim nos seja dada a impossibilidade dos prognósticos ou das estatísticas: «Diga-me só se tenho hipóteses de viver?». Os números de valor infinito: «Diga-me lá a probabilidade que tenho?». A Morte é a única certeza que nos espera na Porta da Vida Eterna. Assim nos seja dada a possibilidade de experimentar o Luto para que a Vida não seja apenas retirada mas transformada na Comunhão da memória agradecida, menos depressiva e menos negligenciável – participar na comunhão de sufrágio para eternidade tecida nas raízes humanas.

10. Não sou um número, um algoritmo, uma música, uma moeda, uma morada, um lenço, um perfume, um lugar, uma chave, um anel, uma maçã, um intervalo num espetáculo em que não paguei o ingresso nem recebi convite. Sou também um nó de relações fecundas, uma narrativa contada pelo meu avesso, uma alma biológica e espiritual. Nasci como Mistério de Amor não morrerei fora desse Mistério revelado na sombra do Luto e na Luz da Irmã Morte. Importância do «e». Querer aprender e partilhar e respeitar o Luto. Ritual e Rito. Alfa e Ómega. Pecado e Graça. Ámen e Aleluia.

pedro josé, Bustos / Mamarrosa / Oliveira do Bairro / Palhaça, 21-01-2019. 7281

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