O Paradoxo Pastoral: Pe. António Antão [1923-2018].

O Paradoxo Pastoral:

Pe. António Valente Nunes Antão.

 

 

[Nasc. 01-11-1923; Ord. 05-01-1947; Mor. 26-11-2018]

 

1.«Um paradoxo que comporta vários paradoxos». Diante das exéquias na morte de mais um padre, sinto o chamamento ao exame de consciência interno e externo. O mesmo aconteceu recentemente com a não-participação no funeral do Padre António Fragoso Tavares (1929-2018); e com a participação no funeral do Diácono Permanente Augusto Manuel Gomes Semedo (1936-2018). No domingo dia 25, num almoço de quatro padres, de três gerações diferentes, a convite generoso duma família alargada; um padre falou sobre o comportamento de um outro padre que está em cuidados hospitalares (exclamei, logo: – Está a descrever o meu futuro!?). Hoje, no funeral, outro padre, confirmou que o mesmo padre, em cuidados hospitalares, já não o reconheceu (será o próximo funeral: não sabemos agora…); ainda, também, no domingo, dia 25, só cheguei a casa de tarde já noite, porque visitei, com familiares presentes, no arciprestado da Murtosa, um padre natural das paróquias, onde trabalho pastoralmente, a recuperar de tratamento médico muito delicado; encontrava-se, inteiramente, doado à Paróquia e aos paroquianos, que serve até ao tutano ministerial. Nesse domingo, a agonia do Pe. Antão agrava-se. Dia de “Cristo Rei do Universo”, “antigo” dia do “Bom Pastor”. São estes os paradoxos ordinários, avencemos, um pouco, pelos extraordinários.

 

2. Pe. António Antão, nasceu em 1923, ainda frequentou o Seminário na diocese do Porto, antes da nossa restauração; foi ordenado em 1947, e foi nomeado Pároco da Paróquia de Oliveirinha do Vouga (Santo António), que paroquiou até 2013, ou seja, 66 anos como “o” Pároco – disse o Bispo António Moiteiro, na homilia eucarística. Era um recordista aveirense. «Mal amado e Bem amado: Dizem!» Considera-se um paradoxo pastoral, só possível, na base do «Paradoxo da Coincidência» – (cfr. Martin Gardner, Ah, Apanhei-te! (Paradoxo de Pensar e chorar por mais…), pp. 180-181) – “Um estudo que atacou o problema da coincidência, mostra até que ponto as pessoas se encontram intimamente unidas por uma rede de amigos mútuos. Não é, assim, de estranhar que dois desconhecidos que se encontrem longe de casa descubram que possuem um conhecido comum. A rede explica também outros fenómenos estatísticos pouco usuais, como a velocidade a que o boato, as notícias sensacionalistas, a informação confidencial ou anedotas são transmitidas” (p.181). O que se conhece e desconhece numa paróquia em 66 anos. Aqui no óbvio da Fé remeto para o Padroeiro Santo António a patrocinar 66 anos de pároco a outro António. Fujo de paróquias petrinas e reconheço mais méritos à longevidade paroquial do que aos pirilampos paroquiais. Estar em mandatos vitalícios, tal qual Rainha da Grã-Bretanha, é contra-cultura, ora ainda bem que assim é!

 

3. Tentarei aplicar o «Paradoxo de Newcomb» e seria excelente, se o conseguisse. O Sr Bispo W. quer prever se o padre António quer entrar ao serviço da paróquia B.; ou se o padre Zaqueu quer entrar ao serviço da paróquia B. e também da paróquia A. Começa o jogo de xadrez. O primeiro padre pensa entro na paróquia B. e ficou milionário (em Graças claro…). O segundo padre pensa entro na paróquia B. e A. e fico com todo o trabalho (com tudo de Graça claro…). O Sr. Bispo W. – do seu lugar omnisciente – , é desafiado à questão de saber o que os padres verdadeiramente acreditam (os padres vice-versa…) ou não no livre arbítrio. As reações ao paradoxo dividem-se quase igualmente entre os padres que acreditam no livre arbítrio, que se motivam para aceitar ambas as paróquias B. e A. (hoje em dia, num presente já ao mais curto prazo, será A.B.C.D…); e os padres que crêem no determinismo das nomeações; e acabem por só querer a paroquia B., exclusivamente. Outros, argumentam que as condições requeridas pelo «Paradoxo Newcomb», são contraditórias, quer o futuro esteja, quer não, completamente determinado (cfr. Martin Gardner, o.c., p. 49).

 

4. Receio que o Gozo e o Labor pastoral do padre e do pároco Antão, ao longo de 66 anos, tenha sido espremido e entranhado (primeiro “estranha-se”, depois, todas ovelhas são iguais, mas com lã diferente?!) no múnus do «Paradoxo Eleitoral» (não confundir com o Paradoxo Evangélico: “muitos os convidados, poucos os presentes”; “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita todos os que escolhe”; Etc.). Suponha-se que três pessoas – Adão, Baptista e Carrascão – concorrem à Presidência da Comissão de Festa, como Juiz [não estamos proibidos de pensar noutras hipóteses e/ou casos pastorais desde que surgiu o “RGPD” europeu, com o “Direito ao Esquecimento”]. Uma amostra na paróquia indica que 2/3 preferem A a B e que 2/3 preferem B a C, deduz-se daqui que também preferem A a C? Não necessariamente! Se os paroquianos ordenarem os candidatos da forma apresentada, surgirá um paradoxo desconcertante. Demos a palavra aos candidatos para se apresentarem. Sr. Adão: Dois terços dos paroquianos preferem-me a Baptista. Sr. Baptista: Dois terços dos paroquianos preferem-me ao Carrascão. Sr. Carrascão: Dois terços dos paroquianos preferem-me ao Adão! Este paradoxo pode surgir em qualquer situação em que seja necessário tomar uma decisão entre três alternativas que se encontrem classificadas relativamente a três propriedades (ou dons!). Suponhamos em A, B, e C três pretendentes ao casamento com a mesma mulher (cfr. Martin Gardner, o.c., pp. 192-194).

5.Por fim, «O Paradoxo da greve dos Padres» (analógico ou anti-analógico ao do «Barbeiro», ou ao dito evangélico: «Médico cura-te a ti mesmo». Sou ou seremos: Workaholic ou Lovework? É os dois! (outro paradoxo?). Dizem e vem no magistério. O padre é um «expropriado»: nos funerais não parece, aparece ou permanece?! Não estacionei, na parte formativa matinal, no Seminário de Aveiro; não estacionei (com volta e 1/2, no parque a pagar em frente ao Hospital de Aveiro); não estacionei, a pagar nos parques a pagar e nos não pagantes, no Campus Universitário; solução fiz a circular rápida pela via Circular Ria (melhor vista!) e estacionei logo, atravessei o departamento de Biologia (?) e o de Cerâmica (?) e entrei 15 minutos atrasado (tenho de volta à Bicicleta!); só descobri, no fim da palestra excelente de “Proteção de Dados”, a identidade diferente da conferencista (!? a convocada inicial faltou segunda vez?!). Estacionei a 300 metros da Matriz de Salreu, para a missa do funeral, pedindo à senhoria da casa a permissão: – pode ser senhor padre, à vontade [Paradoxo do cabeção usado]. Estacionei na “nova” residência paroquial, com o portão automático, pela garagem, para deslocar o peso líquido da mala do carro para a cozinha. Pergunto mentalmente: onde estão os paradoxos ordinários e ou extraordinários (profanos e sagrados)? Comentei ao ouvido do padre amigo: – Depois dos médicos, enfermeiros, professores, taxistas, motoristas vários, finalmente, os juízes… dixit ego: proponho, em honra do Padre Antão, uma “Greve Geral de Padres”. No Céu, entre Almas e Anjos (e Diabos não Demónios?!): Deus sorriu-me, totalmente Trino e Uno, em transparência verdadeira: – Logo agora – um dia são mil anos, mil anos um dia – que faço aumentar o teu/vosso salário em graças!!!

pedro josé, Bustos / Mamarrosa / Oliveira do Bairro / Palhaça, 28-11-2018. 7090

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