“Silêncio e presença” – texto José Augusto Mourão

“Silêncio e presença” – texto José Augusto Mourão

“O silêncio é uma estratégia de comunicação, um fazer, como se verá adiante no relato da mulher que se ajoelha aos pés de Jesus e lhe unge os pés, e que lemos como uma parábola no decurso de um discurso. O corpo fala, o silêncio é um gesto significante, afectivo. Há silêncios prenhes: Jonas, no ventre da baleia, é o símbolo de Cristo silencioso no seio da mãe e, ao mesmo tempo, a figura reduzida ao silêncio e que depois renasce, falando. Thomas Merton falava de vida religiosa como vida silenciosa. O que a vida religiosa exige é que se deixe instalar o silêncio para que Deus fale, que se entre no silêncio de si para aí ouvir a Palavra. Quando amamos alguém, procuramos a sua presença: basta então que aquele que procuramos esteja lá, mesmo que nenhuma palavra se troque: essa é a verdade do silêncio interior. Nesse silêncio escuta-se o que vive em nós, a palavra. O silêncio da presença faz apelo a um presente radicalmente outro. S. Agostinho coloca a questão de fundo: lembramo-nos do passado, antecipamos o futuro, mas o presente? E contudo, não podemos definir o passado e o futuro senão relativamente ao presente. O silêncio faz parte da observância regular recolhida da tradição por S. Domingos. Entre os elementos da vida regular e que constituem a vida dominicana, por exemplo, destaca-se o silêncio. No nº 46 do Livro das Constituições e Ordenações lê-se: “Os irmãos devem diligentemente guardar o silêncio, sobretudo nos lugares e tempos destinados à oração e ao estudo; é, com efeito a defesa de toda a observância e contribui sobremaneira para a vida religiosa interior, para a paz, para a oração, para o estudo da verdade e para a sinceridade da pregação”. Mas logo o número seguinte diz. “O silêncio deve ser regulado com tal espírito de caridade que não impeça as comunicações frutuosas”. Daqui se depreende que, em termos de semiótica narrativa, o silêncio ocupa a função de coadjuvante relativamente a objectos-valor que são a oração e o estudo. Como um rumor longínquo, ou um gemido na noite escura, a oração parece-se com “o gemido da pomba” (Rm 8). Para Francisco de Sales “l’amour parle par les yeux, les soupirs, les contenances. Même le silence et la taciturnité lui tiennent lieu de parole” (Monique Brulin, “L’oralité liturgique comme question de théologie fondamentale” in LMD 226, 2001, p. 25). Na corrente quietista o silêncio não era ausência total de fala ou de ruído, mas um lugar onde se fala e se é escutado. O silêncio seria uma saturação da palavra, uma testemunha das manifestações figurativas do corpo. Nem a ciência da fábula, discurso instituído “en lieu de l’autre”, “desígnio de escrever a voz”, como dizia Certeau, e que visava reduzir o outro ao mesmo, não esgota a palavra selvagem que ouve e de que fica sempre um resto”.

FONTE: MOURÃO, José Augusto, “Os rostos do silêncio (para uma semiótica do silêncio)” in Didaskalia XXXIX (2009)1. 113-125, cfr. https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/9863/1/V03901-113-125.pdf , acesso: 18-06-18.

 

 

 

 

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