Pequeno Elogio das Lágrimas: fragmentos dispersos.

Pequeno Elogio das Lágrimas: fragmentos dispersos.

1.Há lugares comuns, do tipo: – Quando chove o Céu está a chorar…; – Faz bem chorar… (se não somos nós os agentes…!?); – Chorar liberta ou aprisiona? Decidimos só da próxima vez, que nunca será a última vez. – Lágrimas salgadas ou doces: sinal de humanidade. Foi, ainda, ontem, na parte final das exéquias, a Mãe agarrada e caída sobre o caixão do Filho a chorar compulsivamente… Impossível não rezar ao Deus-que-enxugará-Todas-as-Lágrimas-derramadas. Não há Palavas para restituir o Sentido a uma mãe, a um pai, ou ao amigo(a), diante da Morte. Resta o Gesto da Presença. Quando choramos estamos a Pensar com o Corpo, de modo quase exclusivo. Pensar com o Corpo? Que significará de Verdade. Lágrimas secas d’Alma não crente será possível?

2.“Alguma vez tinhas chorado no court? – Por derrotas, nunca pela emoção de uma vitória. Isto vai ficar muito marcado na minha memória. Foi muito emotivo, não só para mim como para toda a gente que me apoiou. Não consigo explicar, emocionei-me muito por vencer em Portugal, que era uma coisa que sempre desejei” (In ExpressoPrimeiro Caderno (Entrevista a João Sousa, 29 anos, Tenista português: o primeiro a vencer o Estoril Open), 12-05-2018, pp.34-35). E recolho, também, uma citação longa, de José Tolentino Mendonça. “E sobretudo isto: Jerusalém é a cidade do Messias e ali percebe-se melhor porquê. Não estranhem o que digo: porque é o campo magnético das lágrimas. O filósofo Emil Cioran escreveu um dia, num daqueles seus aforismas terrivelmente verdadeiros, que a maior dádiva da religião só pode ser esta: ensinar-nos a chorar. As lágrimas dão um sentido de eternidade ao impreciso do nosso devir histórico. Elas guiam-nos da experiência habitual de orfandade à possibilidade redentora de um êxtase. São as lágrimas a linha divisória que distingue os seres que sabem tudo dos seres que não sabem nada. E se, por um absurdo, as lágrimas se esgotassem, o nosso desejo e o nosso conhecimento de Deus desapareceriam também. E Cioran explicava que “no juízo universal serão tomadas em consideração apenas as lágrimas”. Uma vez pediram a Julia Kristeva que comentasse, mesmo sendo uma não-crente, a bem-aventurança que Jesus proclama: “Bem-aventurados os que agora chorais” (Lucas 6:21) – Jesus que antes de entrar em Jerusalém, pela última vez, chorou sobre a cidade. E Kristeva respondeu que, como psicanalista, entende a afirmação muito bem. Pois quando um paciente muito aflito ou deprimido consegue chorar no divã acontece uma coisa muito importante: começa a distanciar-se da ideia da morte. As lágrimas não narram o desejo de morrer, mas a nossa sede de vida. As lágrimas são a zona visível, transparente e viva do nosso desejo. Correm de dentro para fora do nosso corpo, mas exprimem a mais recôndita e intensa interioridade. Talvez saibamos ainda pouco sobre esse misterioso país que são as nossas lágrimas. “As lágrimas são aquilo que nos pode tornar santos, depois de termos sido humanos” – cito ainda Cioran. A paradoxal e inapagável beleza de Jerusalém – a cidade santa, por excelência – é mergulhar-nos nesse excesso” (In ExpressoPrimeiro Caderno (José Tolentino Mendonça: “Para não me esquecer de Jerusalém”), 12-05-2018, pp.36-37).

3. O(s) Sino(s) da(s) Igreja(s) ensinava(m) a diferença entre o chorar de Alegria e o chorar de Tristeza; como “eles” pararam de tocar ou são silenciados: andamos neste Mundo sem saber a razão do choro das carpideiras ou da algazarra das crianças? Há uma (auto ou hetero)terapia feita com Lágrimas e há, necessariamente, outra diferente, que as dispensa (quase) sempre. É preciso aprender a chorar. «Ao contrário do que se pensa não nascemos ensinados». Há um Tempo para parar de chorar. Há um Tempo para começar a chorar. O Silêncio respeita as Lágrimas verdadeiras. Posso ao chorar “fracassar” cada vez melhor. O Desejo feito Pensamento. O Pensamento, que liberta a racionalidade impura. Diante de Deus as Lágrimas da Graça, alcançada e imerecida, iniciam ou confirmam, o processo de Conversão. Não chores apenas, por Ti ou pelos Outros, chora pela Salvação Futura, no compromisso Diário da nossa Fé Comum. Nunca choramos sozinhos, ainda que estejas isolado no teu Quarto, ou no meio da Rua. O dia do teu Aniversário, como o dia do teu Funeral, são os dias propícios às melhores Lágrimas, resta saber se são verdadeiras, em Ti e para os Outros. Aprende a fazer a Leitura das Lágrimas para as parar ou para as ver nascer, e saberás que no Caminho as Lágrimas ressuscitadas, serão as mais preciosas da tua Existência. – Quem nunca sofreu, ou sentiu qualquer vestígio de Dor, saberá o que são as Lágrimas? Só quem aprende a chorar sabe acolher e partilhar o Sacramento do Sorriso: outra história que falta narrar ainda. – Porque razão não choro ou choro eu pouco? Ou muito pouco, ou pouco a pouco? Não perguntes sobre o porquê? Mas para que servem as Tuas Lágrimas? A Quem Elas Servem?

pedro josé, Bustos / Mamarrosa / Oliveira do Bairro / Palhaça, 05-06-2018. 4881.

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