Apontamentos sobre a dor: Aprender o Luto, sem os amigos de Job (Job 40,5)

 Aprender o Luto,

sem os amigos de Job (Job 40,5)

 

Apontamentos sobre a dor – parte 6.

“Falei uma vez e não insistirei;duas vezes e não acrescentarei nada” (Job 40,5).

[1.] A vivência da Morte na realidade do Luto. É no contexto do exercício do ofício do ser padre, dos mais difíceis, e quando a quantidade abafa os dias (in)úteis o risco de superficialidade é real. Ninguém deve fazer nada mecanicamente, muito menos os “ofícios religiosos”. A temporalidade avança. Hoje, é sábado, dia 19, funeral, com Celebração da Palavra, numa paróquia, às 16H00; durante a manhã passei em duas famílias, numa um café…, noutra o almoço…, porque era impossível a presença no funeral, às 16H30; mas este contexto, tornou-se num imperativo de reflexão. Já, anteriormente, na quinta-feira, dia 17, um funeral às 15H30, de pessoa idosa, sacramentada pela Santa Unção, em casa no domingo anterior; na sexta-feira, dia 18, mais um funeral, às 15H00, aí o cancro minou a dignidade da vida corporal; entretanto, passamos o domingo, dia 20, em branco; para na segunda-feira, dia 21, já está agendado, numa paróquia, outro funeral para realizar a Cremação, às 15H00, fará a cerimónia um companheiro padre mais idoso, ainda ao serviço pastoral; por fim, noutra paróquia no mesmo dia, às 17H00, marido e pai ainda jovem, sacramentado no hospital, no passado dia 8 – penso eu se não erro -, com a Unção terminada de mãos dadas a rezarmos juntos o Pai Nosso, à volta da cama hospitalar…; na terça-feira, dia 22, encontra-se, também, agendado a cerimónia fúnebre para as 15H00, de um trabalhador pescador, falecido em “alto mar”, nos inícios deste mês quente. Para além «disto», como se fosse insuficiente, em Julho e Agosto, temos os incêndios no país e as suas vítimas directas e indirectas… temos «agora» a cidade de Barcelona, com o ABSURDO terrorismo, hoje, a notícia, com a Avó e a Neta Jovem, portuguesas entre as vítimas, a celebrar o aniversário… na hora e locais errados… – graças a Deus e às pessoas de bom senso, preservada do «horror mediático» das reportagem sem pudor a identificação privada -; temos o impacto da “Árvore da Morte”, na festa religiosa da Madeira (“De quem é a árvore que caiu? Paróquia e Câmara do Funchal não se entendem”, in Público, 17-08-2017, p.14). No fundo e no profundo, temos e somos os dias e as horas de MORTE distante e perto; conhecida e ignorada, «Nada» nos pode ser indiferente na Vida e, também, na Morte: com rosto e história, ou sem essa possibilidade de relação/união. Estarei sempre aprender em cada Luto, por dever de ofício, dom de humanidade e graça de superação divina.

[2.] Uma Citação de um texto a propósito de um Livro Invulgar. Primeiro, a citação do texto: “(…) E há a morte: a curto, a médio, a longo prazo, todos iremos estando mortos…Quando nos morre o pai, a mãe, um filho, um amigo, uma amiga, perante o cadáver, que é a presença de uma ausência sem nome, constatamos que o pai, a mãe, o filho, o amigo, a amiga estão verdadeiramente mortos, e desaba sobre nós o mistério que nos deixa sem palavra. E quando o resto cadavérico se afunda na terra ou entra no forno crematório, sentimos que do que se trata é do fim de um mundo, e nasce-nos do mais fundo de nós a pergunta: como é que uma dignidade pode tornar-se coisa que apodrece e como é que Deus aparentemente não faz nada?” (BORGES, Anselmo, “A propósito de “A pergunta de Job” in Revista Estudos Teológicos – ISET, Coimbra, Ano 7 (2003), p.317).

Segundo, a identificação do Livro invulgar, em sugestão quase imperativa: SEBASTIÃO J. FORMOSINHO, J. OLIVEIRA BRANCO, A pergunta de Job. O Homem e o mistério do mal, Universidade Católica Editora, Lisboa, 2003, pp. 754. A questão, o enigma, o mistério do mal.

 [3.] E eu pedro pessoa e o ofício e a (pro)vocação do ser padre (com “cabeção” e, sobretudo, sem ele), um sempre a começar e a aprender a realidade do LUTO. O «renascer» na/pela Fé Pascal. A pedagogia mistagógica da páscoa tornada transparente da Teologia para a Rua. O Silêncio Maior. O Silêncio: em respeito Absoluto. Simplesmente o estar junto de. O «Ouvir», e Ouvir, e tornar a Ouvir; só depois, humildemente, dizer a Morte, com a relação e sem a «teoria dos afectos descartável». A Indignação e o Grito, a Heresia e a Graça, O Medo e a Coragem, a Pergunta sem resposta e a Resposta com pergunta por fazer. Sou Eu e a minha Circunstância, e o Amor e a Liberdade, no avesso da história pessoal e comunitária. Um-quase-sempre-por-cumprir. De qualquer forma, quem acredita em Deus é confrontado com a pergunta: Se há Deus, donde vem o mal? Mas o descrente tem, por sua vez, de responder a outra pergunta: Se não há Deus, donde vem o bem? (cfr. BORGES, Anselmo, “A propósito de “A pergunta de Job”(…), p.326). Nada é simples. Nada é complexo. Na Morte e na Vida, o trigo e o joio “crescem” juntos até à Eternidade. Como Job queremos perguntar, até protestar, não O esquecer. Entretanto, ainda não somos o que seremos ao entardecer.

Pe. Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação/Carmo, 19-08-2017. Caracteres (esp.incl.): 4762.
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