Homilia da Missa Crismal (2017) por António Moiteiro, Bispo de Aveiro

Homilia na Missa Crismal 2017

1. «O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu. Enviou-me a anunciar a Boa Nova aos infelizes… Enviou-me a consolar os que andam amargurados…» (Is 61, 1-3).

Estas palavras de Isaías constituem todo um programa de vida que, mais tarde, vai ser assumido e realizado por Jesus no início da sua vida pública. O texto da sinagoga de Nazaré dá sentido a todo o desenvolvimento posterior da missão de Jesus. Começa a sua pregação na sinagoga “como era costume aos sábados”, mas fica tudo superado pela força do Espírito, que o possui plenamente. O Espírito “me ungiu”, de uma vez para sempre; e “me enviou”, com um efeito que dura permanentemente. Esta unção destina-se à missão.

A escolha dos primeiros discípulos (Lc 5, 1-11) mostra um certo paralelismo com a pesca milagrosa após a Ressurreição de Jesus, junto do lago de Tiberíades. Ressalta-se a abundância da pesca, fazendo referência a todos os povos e nações que são chamados a fazer parte da nova comunidade – é a universalidade da missão da Igreja. Os gestos de Jesus adquirem um significado especial num contexto eucarístico: Jesus prepara o pão e convida-os a participar da sua mesa.

O papel de Pedro, que representa cada um de nós, diáconos, sacerdotes, bispos e consagrados, é fundamental na comunidade dos discípulos. O serviço no amor é a primeira exigência da nova comunidade; aqueles que estão na comunidade em nome de Cristo, bom pastor, sejam os primeiros no amor e no serviço aos irmãos.

2. A vocação ao sacerdócio no seguimento de Cristo

Da existência sacerdotal fazem parte dois momentos fundamentais: o chamamento de Deus e a resposta do homem. A vida cristã concretiza-se na relação entre o escutar e o responder: ao apelo que recebeu de Deus, o homem responde com a sua vida. O chamamento parte de Deus. Ele encontra o homem e interpela-o. O que realmente dá sentido à nossa vida é o momento em que o sim de Deus e o sim do homem se encontram.

Jesus Cristo é o verdadeiro projeto do homem porque na sua pessoa Ele une o chamamento de Deus e a nossa resposta. Por isso, a vocação sacerdotal requer uma decisão que envolve a vida na sua totalidade, precisamente porque vem de Deus: «Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós» (Jo 15,16). O seguimento deve ser uma relação viva com Deus, que é vida e amor. Para conceber o seguimento na vida sacerdotal tenho de reconhecer quem é Jesus Cristo, porque a questão da identidade de Jesus Cristo é decisiva para a minha identidade e para encontrar o sentido da minha vida. À pergunta «Quem sou eu?», corresponde «Quem és Tu, ó Senhor?».

Consagrado na ordenação para servir, o sacerdote define-se pela característica da caridade pastoral, que consiste na participação da caridade pastoral de Cristo: amor incarnado, traduzido no amor à sua comunidade e à comunidade universal da Igreja. «A caridade pastoral é aquela virtude pela qual nós imitamos Cristo na entrega de Si mesmo e no seu serviço. Não é apenas aquilo que fazemos, mas o dom de nós

mesmos que manifesta o amor de Cristo pelo seu rebanho. A caridade pastoral determina o nosso modo de pensar e de agir, o modo de nos relacionarmos com as pessoas. E não deixa de ser particularmente exigente para nós» (PDV 23). Ela é condição essencial para que o nosso ministério dê muito fruto.

A pergunta feita por Saulo no caminho de Damasco continua a ser fundamental na vida de cada um de nós: «Que devo fazer, Senhor?» O entusiasmo por Deus é a fonte da alegria cristã: «Em toda a vida da Igreja, deve sempre manifestar-se que a iniciativa pertence a Deus, “porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19) e é “só Deus que faz crescer” (1Cor 3,7). Esta convicção permite-nos manter a alegria no meio duma tarefa tão exigente e desafiadora que ocupa inteiramente a nossa vida. Pede-nos tudo, mas ao mesmo tempo dá-nos tudo» (EG 12). Nada de grande nem de corajoso se faz sem entusiasmo. Deus é amor e o amor tende, por natureza, a comunicar a vida. Não há fecundidade pastoral sem amor, nem nenhum amor sem fecundidade pastoral. O sacerdote, tal como a comunidade eclesial, só vive a sua vida comunitária na medida em que viver na unidade e comunhão – o amor fundamentado em Cristo. Foi isto que o apóstolo S. João escreveu aos primeiros cristãos: «O que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo. Escrevemos-vos isto para que a nossa alegria seja completa» (Jo 1,3-4).

A Igreja não pode viver nem crescer sem entusiasmo, porque é impossível dar vida a uma comunidade se não se lhe infundir o espírito da alegria. O entusiasmo pode avivar-se, esmorecer ou morrer, mas o Filho de Deus, que confiou a seres humanos a missão de pregar e de construir o seu Reino, quer que a sua Palavra seja anunciada e encontre no coração das pessoas o eco que as faça vibrar; Ele nos dará o alento, pois é Ele que o suscita. O Espírito está presente, animando-nos, conduzindo-nos, criando vida nova.

Neste momento, queremos dar graças a Deus pelo dom do sacerdócio do P. António Graça da Cruz (30/7,) que celebra os cinquenta anos de ordenação sacerdotal e pelos vinte e cinco anos de sacerdote do P. Jorge Manuel Matos Fragoso (21/6). Uma palavra de recordação e de sufrágio é devida aos padres Manuel Marques Dias e José Soares Lourenço e ao diácono Emanuel Ribau Caçoilo, falecidos no ano passado. Permiti que lembre os sacerdotes que foram ordenados há cinquenta anos e que o Senhor já chamou a si: P. Vítor José Mónica de Pinho, P. Manuel João dos Santos Cartaxo e o P. Augusto Fernandes da Costa. Com os aniversariantes louvamos Cristo, o Bom Pastor, por tudo o que de bom têm dado à nossa Diocese, e aos falecidos pedimos que intercedam junto de Deus para que tenhamos mais vocações ao ministério ordenado e de consagração para o serviço das comunidades cristãs.

3. A promoção de novas vocações sacerdotais e de consagração

Ao longo deste ano pastoral, a nossa Diocese de Aveiro iniciou um caminho que desejamos se estenda às paróquias, às comunidades de vida consagrada, aos sacerdotes e diáconos, numa palavra, a todos os agentes de pastoral e a todo o povo de Deus: criarmos uma cultura vocacional em toda a Diocese. Ao falarmos de vocação não podemos esquecer a vocação batismal, que nos chama à comunhão com Deus e à

santidade, a vocação a constituir uma família segundo o desígnio de Deus, e à promoção de novas vocações de consagração.

No dia 19 de março do ano transato, o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica A Alegria do amor, fruto de uma caminhada sinodal de toda a Igreja e também com o contributo da nossa Diocese. Nela se afirma que o «matrimónio é uma vocação, sendo uma resposta à chamada específica para viver o amor conjugal como sinal imperfeito do amor entre Cristo e a Igreja. Por isso, a decisão de se casar e formar uma família deve ser fruto de um discernimento vocacional» (AL 72). Este é um dos maiores desafios que se colocam hoje à pastoral da Igreja: educar para o amor na descoberta da vocação a que Deus nos chama.

A dimensão vocacional é um elemento constitutivo do nosso ser cristão. Sem discernimento, uma resposta livre e consciente ao chamamento de Deus, não podemos crescer na fé, no amor a Deus e no serviço aos irmãos.

Maria Santíssima, Mãe do nosso Salvador, teve a coragem de abraçar este sonho de Deus, pondo a sua juventude e o seu entusiasmo nas mãos d’Ele. Que a sua intercessão nos obtenha a mesma abertura de coração, a prontidão em dizer o nosso «Eis-me aqui» à chamada do Senhor e a alegria de, como Ela, nos pormos a caminho para O anunciar ao mundo inteiro.

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Catedral de Aveiro, 13 de abril de 2017

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro

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