JOÃO BATISTA TAMBÉM DUVIDOU (Mt 11, 2-11) por JB Libânio

JOÃO BATISTA TAMBÉM DUVIDOU (Is 35, 1-6a/Mt 11, 2-11)

O evangelho parece simples e óbvio, mas não é. Vejam a contradição, que até me grila muito. Foi João quem batizou Jesus. No momento em que isso acontecia, uma voz foi ouvida: “Este é o meu Filho bem amado, escutai-o!”. João viu uma pomba descer sobre Jesus, enquanto uma luz o envolvia. Portanto, João faz uma experiência fulgurante, diria até divina, de Jesus. Guardem isso! Pouco tempo depois, ele vai para a prisão, e começam as dúvidas. Seria Ele o Messias?

Se João, que ouvira a voz de Deus Pai, ainda duvidava, o que dizer de nós? A dúvida atravessa toda a nossa vida. O evangelho diz, numa frase bem curtinha, que João ouvira falar das obras de Jesus, mas, mesmo assim, duvida. De que obras terá ouvido falar, a ponto de duvidar que Jesus seria o Messias? Agora eu começo a imaginar, porque não está no evangelho. João era um homem sério, estudioso do Antigo Testamento. Há algumas tradições que dizem que ele frequentou o mosteiro dos essênios em Qumran, cujas ruínas ainda podem ser vistas às margens do Mar Morto. Ele era um homem muito versado nas escrituras. Como a nossa memória é bastante seletiva, ele terá se lembrado de algum livro do Antigo Testamento que o impressionara.

Guardara a ideia de um Messias que viria transformar a realidade, modificar Israel e acordar o povo. De repente, contam-lhe que aparecera um moço de trinta e poucos anos, vindo de uma cidade totalmente desconhecida dos judeus, cujo nome sequer aparece na escritura. Podem investigar, e nunca encontrarão nenhuma referência sobre Nazaré: uma cidade pequenina, chinfrinzinha, um subúrbio periférico, distando poucos quilômetros da capital – Séforis, onde se falava grego. Além do mais, Ele não faz nada de estrondoso: conversa, prega, almoça na casa de fariseus, toma vinho com o publicano, tem seus pés lavados por uma mulher de má vida, fala com estrangeiros, aparece em público com as mulheres e ainda fala com elas, coisas realmente muito estranhas. João tinha motivos de sobra para entrar em crise, mas uma duvidazinha permaneceu, e ele manda seus discípulos esclarecerem.

O modo como Jesus responde é que é interessante. Ele não se refere a fatos grandiosos: ter andado sobre as águas ou transformado água em vinho, mas sim de cegos que voltavam a ver. Aqui mesmo, nesta igreja, quantos de nós somos cegos?! Quantas coisas não vemos?! Quantas palavras escutamos e não ouvimos?! Há mancos em quantidade, que, mesmo capengando, continuam seguindo. O leproso, que vivia totalmente isolado, já se aproxima. Vinha uma vez por ano à missa, e já vem duas. As coisas estavam melhorando. Jesus quis dizer para João que as coisas se fazem lentamente. Brincando com as palavras, Jesus fez com que João recordasse certa aula que tivera lá em Qumran, sobre Isaías, e aí ele tem certeza de que Jesus era o Messias, e assim poderia morrer em paz.

Nós também somos João Batista. Experimentamos o Senhor no batismo, quando recebemos a infusão da graça e da fé. Quantas vezes participamos da eucaristia?! Quantas vezes quase apalpamos Deus em nossas vidas, o sentimos próximo de nós?! De repente, por qualquer coisinha boba, fechamos a cara e ficamos três meses com a cara amarrada, enferrujada. Por qualquer palavra que a mulher diz, por qualquer palavra que o marido não diz, fecham a cara, um dorme para um lado, o outro dorme para o outro. Por uma coisinha de nada, esquecemos a experiência maior e fundante do amor, que é abertura, é acolhida, é cuidar do cego, do coxo, daquele que ouve pouco.

Jovens, quantos colegas de vocês são cegos, vivem metidos na droga?! Querem cegueira maior que essa?! Não conseguem ver que estão entrando numa aventura que os levará à morte! Não são cegos esses jovens que saem com suas motos a toda velocidade e que, na próxima esquina, podem ver São Pedro antes da hora?! Não são cegos esses que entram no sexo desvairado, gastando seu corpo, sua beleza, seu amor, na vacuidade total?! Por que vocês não os ajudam a ver? Falta João Batista! Também são surdos. Não ouvem nenhuma palavra bonita, apenas pornografia. Não são capazes de dizer a palavra Deus, beleza, amor, verdade, bem. São palavras que não saem de suas bocas, porque são mudos. Por que vocês não os ensinam a falar?! Não estou apenas criticando, mas perguntando: por que não ajudamos esses que não andam? Não vêm aqui porque não conseguem andar. Precisamos ajudá-los a subir a escada. Coxos que não sobem escadas, mudos que não falam palavras de bem, surdos que não ouvem a verdade, cegos que não veem a beleza! Muitos morreram e não sabem disso. São cadáveres ambulantes. Se batermos neles, só encontraremos vacuidade. São Paulo já dizia que são como sinos que batem, e cujo som se perde no nada. Precisamos fazer o que fez Jesus: cuidou do cego, do surdo, do doente, da comunidade. Amém. (16.12.2007/3º. Domingo do Advento).

FONTE: http://jblibanio.org.br/images/homilias/um%20outro%20olhar%20-%20volume9.pdf, acesso, 10-12-2016. NB. O destaque no texto feito a negrito é da nossa responsabilidade.

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