a arte de refazer a maturidade

a arte de refazer a maturidade

“A fé madura é a permanência paciente na noite do mistério. (…) A fé madura é sempre uma fé ferida pelo sofrimento do mundo.” Tomás Halík, in Paciência com Deus, Ed. Paulinas, 2013, p.160.

Como conseguir que a serenidade não nos abandone quando se nos impõe na vida uma Cruz julgada superior às forças do presente? Só conseguimos vencer o Tempo no relógio da Eternidade. Não há horas, há vivências. Indiferença activa e passiva. O risco do presente alienado, no corre-corre, sem vislumbrar futuro que se faça caminho coerente. Carregar a sua «própria cruz de vida», à qual ninguém conhecerá melhor meio para, incluindo a aceitação de si e da sua «sombra». A analogia má dá lugar à ruína bela. Desconstruir não é simplesmente destruir. Sozinho é rápido. Lento é acompanhado. Ambos não têm preço fixo no mercado. Globalização da Caridade. Vacinas indolores.

O trabalho excessivo. A doença incurável. O abandono do parceiro, da família e dos ditos amigos. O quotidiano enquanto fracasso profissional imposto pela disfunção. Intolerância afectiva crónica. Suportar-se a si mesmo e aos outros são os esforços que se repetem dia após dia. A programação que não é programação mas a fuga em frente. Em vez da realidade em si, criamos pela programação a realidade inútil, isto é, desencantada. Temos asas e recusamos o voo. Impostos no surreal consumista. Vivemos num ninho de preconceitos. Melancolia das reuniões: temos de deixar de fazer autópsias pastorais. Liberdade interior da Consciência formada no bem comum.

Hoje a maturidade nas suas obrigações, circunstâncias, papéis, exigências, pretensões, promessas, sacrifícios, prazeres e deveres… Nada de vazio nos extremos. Olhamos para as extremidades plenas do centro. Dias, noites, auroras e ocasos tudo serve para refazer a Felicidade da Maturidade. Não dar lugar à amargura ressentida. A amargura insatisfeita talvez seja capaz de voltar. A metafísica da tentação dorme do lado oposto. A maturidade dos pequenos passos. A coragem de voltar a Ser possível. Apostar tudo na comunicação em tempo real e pedir o Perdão sem vaidades pessoais. Sei e acredito que sou capaz só na fragilidade. Parar e partilhar como condição para Servir.

As possibilidades reais farão com que seja nosso o evoluir na Cruz do Ressuscitado: eis a metamorfose da maturidade. Estamos lá dentro do Tempo que nos expulsou, «já e ainda não», sem as defesas e os créditos nossos: para assumir na responsabilidade a Vida com os encargos da Graça. Atenção tudo é milagre se recursarmos o milagre como prova da Esperança: contra o absurdo justificante. Sem vergonha de Deus, seremos «menos» capazes de adiarmos a conversão diante da Misericórdia. Até quando a capacidade para sermos «mais» maduros? A maturidade está dentro de Ti: é o voto democrático de confiança em Deus, para acreditar no Amor que seja amadurecido: Quero que Tu Sejas Sempre!

Pedro José, padre: Gafanha da Nazaré/Encarnação/Carmo, 12-05-2016 (ainda 44 anos). Caracteres (incl. espaços): 2853.

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