“É para todos mas não é para tudo” por Maria Helena Lobão e Alberto Teixeira.

“É para todos mas não é para tudo”

por Maria Helena Lobão e Alberto Teixeira

(do grupo de leigos “Recasados na Igreja”).

Da leitura da Segunda Exortação Apostólica do Papa Francisco, Amoris Laetitia fica uma forte imagem de uma Igreja fiel a Jesus Cristo, e como tal, de acolhimento e compreensão de todos, como a de uma mãe que lembra a graça dos dons e acolhe e cuida sobretudo dos que sofrem e procuram.

Como resultado de dois anos de reflexão do caminho sinodal, a Exortação é extensa e o Papa Francisco aconselha uma leitura com tempo, aprofundando uma parte ou capítulo, de cada vez, de acordo com as “necessidades” do momento: «É provável que os esposos se identifiquem mais com o capítulo IV e V, que os agentes pastorais tenham especial interesse pelo capítulo VI, e que todos se sintam interpelados pelo capítulo VIII».

Não é apresentado um novo paradigma da família, este vem na sequência de outros documentos anteriores sobre a família, pós Vaticano II, como são “Gaudium et Spes”, “Familiaris Consortio”.

No centro da família encontra-se o casal formado pelo homem e pela mulher com toda a sua história de amor. A imagem de Deus tem como paralelo explicativo o casal – «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» como vem escrito no Livro do Génesis. A imagem criadora de Deus espelha-se ainda na fecundidade do casal, resultante da natureza criadora do amor conjugal. No casal unido em matrimónio há uma complementaridade na diversidade conduzindo a uma união íntima – «e os dois serão uma só carne». À imagem de Deus, o casal é doação incondicional e gratuita. Também à imagem do amor eterno de Deus, indissolúvel. Até aqui nada de novo. A grande novidade desta exortação reside, em linhas gerais, no convite aos agentes pastorais e aos leigos mais comprometidos a entender, com o olhar misericordioso de Deus, cada homem e cada mulher, nas mais diversas situações particulares, próximas ou não do modelo proposto pela Igreja.

Nos capítulos iniciais é feita uma análise antropológico-cultural em que é dito claramente que nada é como dantes nem é para aí (nem tal é desejável) que se caminha. Comparativamente com este “dantes”, a situação atual valoriza a comunicação pessoal entre os esposos e contribui para humanizar a vida familiar. Em contrapartida, os indivíduos são menos apoiados pelas estruturas sociais na sua vida afetiva e familiar.

De uma forma honesta, esclarecida e humilde, nos números 36 a 38, é feita “mea culpa” e são apontadas pelo Papa responsabilidades à Igreja para a recusa de muitos jovens contraírem Matrimónio. Assim, de acordo com esta análise, o que se passa hoje em muitas situações deve-se à forma como a Igreja apresentou as suas convicções e como tratou as pessoas. Muitas das vezes minimizou o fim objetivo do Matrimónio: a união, o crescimento e a ajuda do casal, homem e mulher, enfatizando a procriação – não se casa para ter filhos. Estes surgem da união, do crescimento e da ajuda mútua entre os dois cônjuges.

Também é da responsabilidade da Igreja a falta de acompanhamento dos jovens casais nos primeiros anos com propostas concretas, a proposição de um modelo demasiado abstrato e a falta de motivação para a abertura à Graça.

Assim, o Papa sugere uma correção da pastoral familiar porque «somos chamados a formar as consciências, não a pretender substitui-las».

Relativamente a causas sociais, culturais e institucionais, aponta-se a cultura do provisório e do descartável, em que se “coisificam” os afetos, com medo do compromisso permanente, da obsessão do tempo livre, das relações em que se medem custos e benefícios e que se mantêm apenas para mitigar a solidão, ter uma proteção ou receber algum serviço.

Esta cultura impele os jovens a não constituir família, porque os privam de possibilidades para o futuro. Adia-se o matrimónio por razões económicas, laborais, académicas, ideológicas, maus exemplos, medo de algo impossível, benefícios económicos da convivência, medo de perder liberdade e autonomia, rejeição de tudo o que seja institucional e burocrático. De uma maneira geral por medo.

Também são apontadas as novas tendências culturais que distorcem a afetividade tornando-a narcisista, instável e mutável que não ajuda a atingir a maturidade. São disso exemplo a pornografia e a prostituição. Permanece-se muitas vezes nas fases primárias da vida emocional e sexual.

Por outro lado, os indivíduos sentem-se abandonados por parte das instituições e as políticas económicas e as leis laborais não são favoráveis (bem pelo contrário) à criação de condições que garantam um futuro melhor para os mais jovens e à constituição de famílias. São exemplos o desemprego e o emprego precário, o que se reflete mais tarde na natalidade. «Partindo das reflexões sinodais, não se chega a um estereótipo de família ideal, mas a um interpelante mosaico formado por muitas realidades diferentes, cheias de alegrias, dramas e sonhos».

AUTORES: Maria Helena Lobão e Alberto Teixeira (do grupo de leigos “Recasados na Igreja”). FONTE: In Correio do Vouga, 04-05-2016, p. 15; VER: https://dub122.mail.live.com/mail/ViewOfficePreview.aspx?messageid=mgYJY7SdMR5hGEogAjfePx9g2&folderid=flinbox&attindex=0&cp=-1&attdepth=0&n=83255418 : 04-05-16.
Anúncios
Esta entrada foi publicada em Apontamentos, Cultura, Espiritualidade, Libertar a Teologia, Mensagem, Notícias e política, Organizações, Saúde e bem-estar com as etiquetas , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s