Os Cortejos dos Reis e o escritor Michel Tournier.

O(s) Cortejo(s) dos Reis, nas Gafanhas: Encarnação-Carmo-Nazaré e o escritor Michel Tournier (em janeiro de 2016 – morte aos 91 anos…) OU o dom (in)esperado da chuva composta com as gotas da cultura comunitária (partilhada) e literária (da boa)!

“E lembrava, com humor, que um crítico, uma vez, tinha perguntado: «Por quanto tempo é que Tournier nos vai fazer pagar o seu falhanço na filosofia?», in Público, 19-01-2016, p.48.

“Morreu Michel Tournier. Ainda no domingo falávamos, eu e o Pedro José, deste autor por causa do seu livro “Gaspar, Melchior e Baltasar”, os magos, sim. Não li a melhor obra dele, “O rei dos álamos”, mas marcou-me muito “Os meteoros” (coisa de seminários) e “Uma ceia de amor” (coisas do amor). Em tempos li que ele vivia numa residência paroquial abandonada de uma qualquer aldeia francesa. Um pároco de aldeia, portanto”, por Jorge Pires Ferreira, 19-01-2016 (às 15:58) in Facebook.

O rabi Rizza contava uma história, uma fábula, um apólogo de que Taor […não Gaspar, rei de Méore; não Baltasar, rei de Nipur; nem Belchior, príncipe de Palmira – aos três reis magos… Michel Tournier juntou criativamente um quarto rei – mas Taor, príncipe do Mangalore] percebia só metade, mal distinguindo na sua espessura glauca um ensinamento que se aplicava precisamente ao seu caso, embora o narrador ignorasse quase tudo sobre ele (p.163)

[…Este ensinamento, agora espartilhado, aplica-se “muito” a nós paroquianos assistentes; desistentes e/ou insistentes: escolha o seu lado e durma “bem” para “melhor” acordar para na realidade no consentimento da Fé Testemunhada, através do Encontro com a Estrela do Deus-Menino-Feito-Nosso-Libertador-de-Todas-Dores-e-Alegrias! Bênção de Deus para todos os que põem de pé a Tradição cultural e religiosa do Cortejo dos Reis, – ano após ano, ensaio após ensaio, presente-pagamento após pagamento-presente – com sacrifício e generosidade extremas. Aqui fica o meu reconhecido testemunho de Gratidão pela partilhada Fé comunitária em transmissão viva e edificante para as gerações futuras. Cultura Popular que faz da Memória uma Identidade Sadia. Não há fotos ou filmagens que possam dizer tudo, apenas o pé no chão caminhando pelas ruas das nossas freguesias/paróquias em dia de Cortejo dos Reis! Bem – hajam uma vez mais pela Fidelidade!Pedro José, 22-01-2016].

“- Os nossos antepassados, os primeiros beduínos – começou ele -, não eram nómadas como nós somos hoje. O que eram então? Como é que deixaram o sumptuoso e suculento vergel onde Deus os colocara? Eles tinham apenas que estender a mão para colherem os frutos mais saborosos que faziam curvar os ramos das árvores de infinita diversidade. Porque neste vergel sem fim não existiam duas árvores idênticas que dessem frutos semelhantes.

«Dir-me-ás, porventura: existem ainda em certas cidades ou oásis jardins de delícias, como este que estou a falar. Porquê então, em vez de os tomarmos e de instalarmo-nos neles, preferimos percorrer sem descanso o deserto atrás dos nossos rebanhos? Sim, porquê? É uma grande questão cuja resposta contém toda a sageza. A resposta é a seguinte: é que os frutos dos jardins de hoje em nada se parecem com aqueles que alimentavam os nossos antepassados. Os frutos de hoje são escuros e pesados. Os dos primeiros beduínos eram luminosos e sem peso. O que é que isto quer dizer? É-nos difícil conceber o que podia ser a vida dos nossos antepassados, decaídos e degenerados como estamos! Penso que chegámos ao ponto de admitir que este horrível ditado nos diz respeito: “Ventre esfaimado não tem ouvidos.” Ora bem, no tempo de que (p.163) falo, ventre esfaimado de alimento e ouvidos esfaimados de saber eram uma única e mesma coisa, porque os próprios frutos selvagens satisfaziam simultaneamente estas duas espécies de fome. Com efeito, estes frutos não eram diferentes apenas pela forma, a cor e o gosto. Distinguiam-se também pela ciência que forneciam. Uns dedicavam-se ao conhecimento das plantas e animais, outros ao das matemáticas, havia o fruto da geografia, o das artes musicais, o da arquitectura, da dança, da astronomia e muitos outros. E com estes conhecimentos davam aos que comiam as virtudes correspondentes, a coragem dos navegadores, a suavidade dos barbeiros-cirurgiões, a probidade aos historiadores, a fé aos teólogos, o devotamento aos médicos, a paciência aos pedagogos. Naqueles tempos, o homem participava da simplicidade divina. O corpo e a alma eram um só bloco. A boca servia de templo vivo – coberta de púrpura, com o seu duplo semicírculo de escabelos de esmalte, suas fontes de saliva e suas chaminés nasais – à palavra que nutre e ao alimento que ensina, à verdade que se come e se bebe, e aos frutos que são ideias, preceitos e evidências…

«A queda do homem dividiu a verdade em duas partes: uma palavra vazia, oca, mentirosa, sem valor nutritivo. E uma alimentação compacta, pesada, opaca e gorda que obscurece o espírito e se transforma em bochechas e em bandulhos!

«Que fazer, então? Nós, nómadas do deserto, escolhemos a frugalidade mais extrema junto à mais espiritual das actividades físicas: a marcha a pé. Comemos pão, figos, tâmaras, produtos dos nossos rebanhos, leite, manteiga purificada, queijo muito raramente e carne ainda mais raramente. E andamos. Pensamos com as nossas pernas. O ritmo dos passos leva-nos à meditação. Os nossos pés mimam a progressão de um espírito em busca da verdade, uma verdade certamente modesta, tão frugal como a nossa alimentação. Remediamos a fractura entre alimentação e conhecimento esforçando-nos por manter ambos na sua mais extrema simplicidade, convencidos de que o seu divórcio só se agrava elaborando os dois. Claro, não esperamos reconciliá-los tão-somente pelas nossas forças. Não. Para esta regeneração é necessário um poder maior do que o (p.164) humano, divino, na verdade. Mas o caso é que aguardamos esta revolução e encontramo-nos, pela nossa frugalidade e as nossas longas marchas através do deserto, na disposição mais própria, acreditem-nos, para compreender, para acolher e fazê-la nossa, quer ela se produza amanhã, quer daqui a vinte séculos.»

Taor não compreendeu todo este discurso. Era para ele como que um amontoado de nuvens negras, ameaçadoras e impenetráveis, mas escavadas de clarões que revelavam num breve instante fragmentos de paisagens, de perspectivas abissais. Não compreendeu o essencial deste discurso, mas conservou-o totalmente no coração, supondo que tinha para ele um sentido profético à medida que a sua viagem se desenrolava. De qualquer modo, já não podia duvidar que a receita do rahat lukum [“pequena guloseima” – “O que significa na sua linguagem «felicidade da garganta» – cfr.pp.149-151] com pistache – por causa da qual, em princípio, deixara o palácio de Mangalore – se esfumava, parecia transformar-se numa ilusão – que o arrancara ao seu paraíso juvenil – ou se tornara uma espécie de símbolo cujo significado estava por decifrar” (p.165).

FONTE: TOURNIER, Michel, Gaspar, Belchior & Baltasar, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 21986 [1ªedição francesa por Éditions Gallimard, Paris, 1980 – Tradução de Virgílio Martinho], pp.163-165. Transcrição: Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação/Carmo, 22-01-2016. Caracteres (incl. espaços): 6910.

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