A tentação do «se» e do «mas» – por Adelino Ascenso

A tentação do «se» e do «mas»

 

 

Um destes dias, escutei um dos nossos bispos chamar a atenção para dois grandes perigos da vida consagrada: os «se» e os «mas».

Já é lugar-comum dizer-se que temos grande dificuldade em viver o presente, pois, como dizia Santo Agostinho, só na eternidade tudo é presente (cf. Confissões, XI). E porquê? Por que razão temos dificuldade em saborear o presente? Porque tanto o passado como o futuro nos fazem sofrer, sobrepondo-se ao aqui e agora. Por exemplo, os remorsos obscurecem o nosso passado e a ansiedade ensombra o nosso futuro, impedindo o caminho da esperança e da confiança.

A ansiedade é talvez aquilo que mais fortemente nos tolhe e nos mata o fervor do «partir», precisamente porque tem a sua raiz no «se». Se acontecer isto e aquilo, que será de mim? Se não tiver dinheiro, que me acontecerá? Se eu adoecer, quem cuidará de mim? Se eu não me entender com os colegas, que devo fazer? Se eu não me adaptar ao novo campo de missão, poderei voltar? Se eu reagir daquela maneira, que vão pensar de mim? Se, se, se… Na realidade, se eu ficar prisioneiro dos meus «se», da minha ansiedade, perco a visão panorâmica e deixo de ver as flores do jardim e o sorriso das crianças ou não escuto as vozes alegres do meu amigo. Correrei mesmo o risco de confundir um afago com uma ameaça.

O «mas» não tolhe menos do que o «se». O «mas» não permite a entrega total; é calculista, condicionando o compromisso. E nós corremos tantas vezes – o risco de impor condições ao acto de entrega, esquecendo-nos que o amor é incondicional. Um amor que impõe condições ainda não amadureceu. Eu sigo-te, Senhor, mas “permite primeiro que me despeça dos que estão em casa.” (Lc 9,61). “Eu seguir-te-ei, mas o que é que receberei em troca?” “Eu quero seguir-te, mas…” A resposta de Jesus faz-nos estremecer: “Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.” (Lc 9,61).

O ser-se consagrado significa que devemos estar predispostos para o excesso. A verdadeira amizade é excessiva; a verdadeira entrega é excessiva. Jesus não nos pede meia entrega; Jesus pede-nos tudo, todo o nosso ser. Enquanto não tivermos isso cinzelado no nosso coração, não nos libertaremos da tentação do «se» nem do «mas», isto é, ficaremos reféns dos nossos medos, das nossas ansiedades e da pequenez calculista da nossa fé, nunca vivendo o presente na sua plenitude nem a felicidade do verdadeiro encontro.

Deus pede-nos que sejamos destemidos, que arrisquemos, que nos abramos à novidade e que testemunhemos, com a nossa existência, a confiança e a alegria de sermos consagrados. Nada menos que isto.

 

Por: Pe. Adelino Ascenso in Boletim Familiar – SMBN, nº393, Setembro, 2015.

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