esta palavra é dura – Reflexões: Ano B – XXI TC (Jo 6,60-69)

esta palavra é dura

Reflexões: Ano B – XXI Tempo Comum: Cfr. Jo 6,60-69.

«Dai-me a castidade e a continência; mas não ma deis já»,

Santo Agostinho, Confissões, Livraria A. I., Braga, 2008, Liv. VIII, nº7, p.230.

O ensinamento de Jesus Cristo põe-nos uma questão de sustentabilidade, como existencialmente “se–foge-de”. Gera em cada um questionamentos, mesmo dúvidas e até pode ser (coisa negada e cada vez mais exótica!?) uma Crise-de-Sentido: não podia ser doutro modo a nossa confrontação biográfica com o Pecado. Somos situações e liberdade. Não somos relativismo. Para nossa garantia insuspeita, Pedro chegou à conclusão mais óbvia ao dizer-nos: «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna».

“- Nunca abandonaremos!?”: é dizer acima das nossas possibilidades. Somos como repensa Aviad Kleinberg, que passo a parafrasear, no exemplo sui generis: “Há uma espécie de lagartos que desenvolveram um mecanismo de sobrevivência único: podem separar-se das caudas quando estão em perigo. A cauda abandonada, em princípio, atrairá a atenção dos seus predadores, que cravam os dentes nos aperitivos, mas deixam escapar o prato principal”. Cada um de nós Crentes escondemos esqueletos vergonhosos nos nossos armários. Ocasionalmente, confessamo-nos (na forma “ritual”, cada vez menos; na forma “informal”, cada vez mais…), mas não divulgamos as nossas podridões. Para tudo um Tempo, Espaço e Modo. Precisamos de uma “rede de esgotos eclesial”. “O restaurante humano serve sobretudo caudas, mas o leitor que esteja disposto a examinar cuidadosamente a cauda retorcer-se, sem se precipitar de imediato para cravar os dentes nela, aprenderá muito sobre o corpo do qual ela se separou” (Cfr. Sete Pecados Capitais – Uma nova abordagem, Ed. Quetzal, Lisboa, pp.16-17).

Os raciocínios humanos (a “carne”) não ajudam nesta questão; só quem é animado pelo Espírito tem acesso à vida em Cristo. No Sentido que importa sempre aprender «mais». A dureza não faz parte do ser de Deus. Deus é essencialmente Ternura. Uma Ternura infinita que justifica a Sua generosidade para com a humanidade; ofereceu-Se: na entrega radical da Cruz como sacrifício e libertação. Páscoa criativa e eterna. Um coração marcado e ressentido não faz sacrifícios por Ninguém. Ou poderá fazer contrafeito. Deus não é dureza. Deus é Ternura. Oferece a Vida no e por Amor.

Deus faz propostas exigentes. Nós saberemos que a nossa Fé é verdadeira na medida em que fazemos da Vida uma oferta, com as transformações e modificações necessárias em cada momento. A dureza entendida como o fracasso por se perder a Coragem-de-Ser. Explica em parte a ousadia de ouvir que é necessário “comer da sua carne e beber do seu sangue” e não o querer…; não o poder…; e ficar-se indiferente. É indispensável a abertura da Humildade. Jesus diz-nos, hoje, «o espírito é que dá vida, a carne não serve para nada». A auto-suficiência é terrível para quebrar a arrogância do ego.

Esta palavra é, sem margens de manobra, pura e dura. Pois duros somos nós na Cabeça, Coração e Estômago. Deus não o É. O Seu Espírito faz-nos oferta e dom. É importante esta consciência da abertura ao Espírito, esta necessidade permanente de espiritualidade: como modo de vida que não é dureza nem imposição, mas leveza e preferência. Ou uma mistura de ambas: exigência coerente!

FONTE: Cfr. AZEVEDO, Dom Walmor Oliveira, in Na Escola do Salvador, Editora PUC Minas, Belo Horizonte, 2009, pp.361-364. Obs. Além da citação presente no texto. Pedro José, CDJP, Carmo/Encarnação/Gafanha da Nazaré, 22-08-2015, caracteres (incl. esp) 3090.
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