Igreja, Afastar ou Aproximar? – Testemunho de James Martin, S.J.

Igreja, Afastar ou Aproximar?

«Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!» (Lc 5,8):

Testemunho de James Martin[1], S.J.

“Regressemos àqueles cristãos que se sentem marginalizados pelas suas Igrejas e àqueles que, por vezes, se sentem desanimados ou escandalizados por aquilo que as suas Igrejas fazem.

É importante recordar que a Igreja não morreu nem ressuscitou dos mortos. Jesus, sim. Sobretudo em períodos de dificuldade e escândalo, precisamos que nos recordem que a nossa fé não depende de uma instituição, mas de uma pessoa: de Jesus. É certo que experimentamos Cristo na Igreja e através dela, e a Igreja é, certamente, o «Corpo de Cristo» na Terra. Além disso, eu não nego, nem minimizo, de modo algum, a importância da Igreja. A Igreja, porém, não nos salva. Jesus, sim. Foi Jesus, e não a instituição, que nos chamou a entrar em relação com Ele. Mesmo que nós sintamos que a Igreja nos diz «afasta-te de mim», essas palavras nunca passam pelos lábios de Jesus, quando Ele se encontra com pessoas pecadoras.

Para aqueles que se sentem escandalizadas por causa dos pecados cometidos por membros da Igreja, também é importante recordar que a Igreja sempre foi imperfeita. Dorothy Day disse um dia: «Eu amo a Igreja por Cristo tornado visível, não por ela, que tantas vezes me tem escandalizado» (COLES, Dorothy Day, p.51).

Mais uma vez, não pretendo com isto expulsar ninguém da Igreja. A maior parte da minha vida adulta tem sido dedicada à Igreja. Contudo, a Igreja é formada por pessoas que falham, que pecam e que cometem graves erros, ou até crimes. A Igreja tem sido imperfeita desde o início. Os cristãos que leem esta passagem do Evangelho de Lucas [Lc 5,1-11] sabem que estes três homens falharão em relação a Jesus em certos momentos cruciais. Tiago e João deturparão as suas ideias, quando proclamam que querem ser os «primeiros» no Reino dos Céus. Mais gravemente, Pedro falhará três vezes em relação a Jesus, durante a paixão. A inicial reação de entusiasmo na praia da Galileia faz-nos entrar numa tensão humana entre fidelidade e fracasso, que se repetirá vezes sem conta à medida que a peregrinação dos discípulos se for desenrolando.

Essa também é a nossa peregrinação. Quando pertencemos a uma Igreja, por vezes, sentimo-nos indignos dessa pertença. Por vezes também sentimos que a Igreja é indigna do seu fundador. Nós fazemos tanto uma peregrinação de poder à luz da ressurreição como uma peregrinação de impotência frente ao pecado. Hoje temos o benefício de saber tudo isso. Pedro não sabia. Ele disse sim a Jesus com absoluta confiança, depois de ter visto o que Jesus era capaz de fazer. Contudo, não podia saber até que praias o seu sim o levaria. (…)

Imaginei que estava naquela cena e perguntava a Pedro: «Como conseguiste?» E, na minha oração, ele pareceu-me apontar para a rede e exclamar: «Olha só para todo este peixe!»

Todos nós precisamos de deixar certas coisas para seguir a Deus. Para alguns de nós, serão os padrões de comportamentos em que estamos viciados, para outros, uma ênfase arrogante no nosso próprio êxito, para outros, ainda, a adulação da multidão. Às vezes, é útil olharmos não só para aquilo que vamos deixar e que Deus nos promete, mas também para aquilo que Deus nos mostrou.

Olha só para todo este peixe!”

[1] FONTE: MARTIN, James, S.J., Jesus: Um Encontro Passo a Passo [Jesus: A Pilgrimage, 2014], Paulinas Editora, Prior Velho, 2015, pp.190-193.

 

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