«O coração tem as suas razões»: por Gianfranco Ravasi.

Sagrado Coração de Jesus – solenidade: 12.06.2015

«O coração tem as suas razões»

– por Gianfranco Ravasi –

Todos conhecem a seguinte célebre frase de pascal nos seus Pensamentos: «O coração tem razões que a razão não conhece» (n.227, ed. Brunschvicg). Para a Bíblia, isto não é absolutamente verdade, porque o coração bíblico também compreende a inteligência, sendo, na prática, expressão da alma e, portanto, da realidade e da actividade interiores inteiras da pessoa. O que nós atribuímos à mente, à racionalidade, a Bíblia engloba no coração: «O coração inteligente procura o conhecimento» (Pr 15,14). É preciso pedir a Deus e, depois, saber cultivar um «coração sábio». É curiosa a locução[1] «pensar no seu coração», que equivale a «pensar consigo mesmo», ou, então, «falar ao coração» ou «dizer no seu coração», que deve entender-se como o reflectir pessoal. «Roubar o coração» de alguém significa «fazê-lo perder a cabeça, enganá-lo», como a «falta de coração» não é crueldade, mas a estupidez. Salomão, na véspera da sua entronização, pede a Deus «um coração dócil para que saiba distribuir justiça por entre o povo e distinguir o bem do mal». E o autor sagrado comenta que «agradou ao Senhor que Salomão tivesse pedido a sabedoria para governar» (1 Rs 3, 9-10).

De facto, para a Bíblia a inteligência não é simples actividade racional, mas sabedoria e experiência, conhecimento e moralidade. Por isso, é fácil compreender que o coração também se torne a sede da vontade, das decisões e da ética: «O coração do homem determina a sua vida» (Pr 16,9). O augúrio que o salmista dirige ao rei hebreu é este: «Que o Senhor te conceda tudo o que o teu coração deseja e realize todos os teus projectos» (Sl 20,5). O apelo à decisão é formulado assim: «Vai e realiza tudo o que está no teu coração» (2 Sm 7,3). Porém, também há o lado negativo: «o coração que trama projectos perversos» (Pr 6,18). É a esta luz que nasce a imagem do «coração engrossado / engordado / endurecido» que é representação da obstinação e da pertinácio do mal. Portanto, é necessário «circuncidar o coração» e não somente o prepúcio, segundo uma sugestão da metáfora da circuncisão, inaugurada pelo Deuteronómio (10,16). Porque, como observava Jesus, é do coração que «saem as intenções más: fornicações, furtos, suicídios, adultérios, cobiças, malvadeza, engano, impudicícia, inveja, calúnia, soberba e estultícia» (Mc 7,21-22).

Portanto, o coração é expressão da determinação e dedicação conscientes da vontade, sendo uma graça de Deus ter um coração aberto ao bem e não «empedernido» na decisão perversa. Neste sentido, são claras e incisivas as palavras divinas proclamadas pelo profeta Ezequiel: «Dar-lhes-ei outro coração… Tirarei do seu peito o coração de pedra e dar-lhes-ei um coração de carne» (11,19). Assim, para a Bíblia, ter uma religião «do coração» não significa abraçar uma espiritualidade sentimental e efervescente, mas sim pensar, decidir e operar segundo a verdade e a justiça.

Isto, porém, não exclui que o coração bíblico também oculte no seu interior a dimensão afectiva e passional. É admirável a imagem de Isaías: «O coração freme como se agitam as árvores do bosque, agitadas pelo vento» (7,2). O coração torna-se «mole» e funde-se como cera com o medo, diz-se no salmo 22, 15; ou, então, dissolve-se em água por causa do terror (Js 7,5). Fica vermelho de inveja por causa do sucesso dos patifes, observa o Livro dos Provérbios (23,17), que admira «o coração alegre que ilumina o rosto», «o coração contente que faz bem ao corpo», enquanto deprecia «o coração triste que indica um espírito deprimido» (15,13; 17,22). Por isso, o enamoramento é cantado pelo amado no Cântico dos Cânticos: «Roubaste-me o coração, minha irmã, esposa, roubaste-me o coração com um só olhar teu!» (4,9), enquanto na linguagem semítica o dia das bodas se torna «o dia da alegria do coração». Uma alegria que é induzida mais prosaicamente também pelo vinho, «que alegra o coração do homem» (Sl 104,15), embora esteja à espreita o risco de ofuscamento mental: «Não olhes para o vinho quando se avermelha e brilha no copo… Acabará por morder-te como uma serpente… e o teu coração dirá coisas desconexas» (Pr 23, 31-33). Nesta linha «psicológica», o coração transforma-se em símbolo do desejo incontrolável que acaba na cobiça: «Não alimentes no teu coração cupidez pela beleza» da mulher do teu vizinho, adverte o sábio do Livro dos Provérbios (6,25), também pronto a oferecer notações delicadas sobre as pulsões interiores: «Uma espera demasiado longa faz mal ao coração, enquanto o desejo satisfeito é uma árvore de vida» (13,12).

Portanto, o coração acolhe todo o leque das características e das qualidades da alma no sentido mais vasto do termo também uma componente fundamental da própria concepção do Deus-pessoa, típica da Bíblia. Sim, também Deus tem um coração que, pela lei da analogia, recalca no positivo as mesmas experiências do coração humano. «A vontade do Senhor permanece eternamente; os pensamentos do seu coração, de idade em idade» (Sl 33,11): também o coração divino pensa e quer como o da criatura humana. Experimenta os mesmos sentimentos e paixões, segundo o que testemunha o admirável solilóquio, referido pelo profeta Oseias, em que Deus aparece como um pai cheio de amor ao seu filho Israel, rebelde e afastado: «Como poderei abandonar-te, Israel?… O meu coração comove-se dentro de mim, todas as minhas entranhas fremem de paixão…» (11,8). É por isso que o Senhor declara a Salomão: «Os meus olhos e o meu coração estarão continuamente lá», no templo de Sião, no meio da humanidade (1Rs 9,3).

Também os Evangelhos evocam o coração de Cristo. Porém, fazem-no explicitamente uma única vez, numa passagem de grande intensidade (no célebre episódio do lado traspassado pela lança do soldado, quando Ele está cruz, o evangelista João não alude ao coração). Eis o admirável apelo de Jesus unicamente referido por Mateus (11, 28-30):

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos,

que Eu hei-de aliviar-vos.

Tomai sobre vós o meu jugo

e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração

e encontrareis descanso para as vossas almas.

O meu jugo é doce e a minha carga, leve.

Nos Actos dos Apóstolos (1, 24 e 15,8) diz-se de Deus que é kardiognôstes, quer dizer, «conhecedor dos corações», das consciências, do íntimo mais secreto do homem. Cristo, pelo contrário, desvenda o seu próprio íntimo à humanidade e revela-o marcado pela mansidão e pela humildade, pela bondade e pela compartilha. Diante de Jesus com o peito aberto, na cruz, numa cena de amor e de doação, Santa Catarina de Siena na sua Carta XXX também envolvia Maria, a mãe dolorosa, representada com aquele coração traspassado em muitas pinturas e estátuas (tendo por base as palavras do justo Simeão: «Uma espada traspassará a tua alma», Lc 2,35):

Ó dulcíssimo e dilectíssimo Amor,

aquela faca que recebeste no coração e na alma

foi a mesma faca que traspassou

o coração e alma da tua mãe.

 

Por isso, também Deus tem uma alma, simbolizada pelo coração; ela vive a experiência das nossas almas suprema e perfeitamente, sobretudo através da manifestação da essência de Deus, que é formulada pelo Novo Testamento assim: ho Théos agápe estín [«Deus é amor»] (1 Jo 4,8-16).

FONTE: Gianfranco Ravasi, Breve História da Alma, D. Quixote, Alfragide, 2011, pp.111-114. Caracteres (espaço incluídos): 7241.

[1] As locuções seguintes são todas da Bíblia; por isso, nem sempre exprimem o mesmo que as locuções portuguesas idênticas.

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Uma resposta a «O coração tem as suas razões»: por Gianfranco Ravasi.

  1. ir. Fernanda diz:

    Obrigada pela extensa partilha, P. pedro

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