escrevinhar servindo o fastio

escrevinhar servindo o fastio

(…) (“Burro com fome, cardos come”, diz o provérbio) (…)

A secularização pela fome é questão sobre Deus e para Deus – e assim, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma experiência. É questão pré-oracional, questão sem resposta, e assim como que um eco enigmático ou ambíguo da questão. Precisar-se-á no entanto que, com esta análise, não se trata de subjetivar a transcendência, mas de se espantar com a subjetividade”.

Emmanuel Levinas in Deus, a Morte e o Tempo (1993), p.198.

Os dias passam e os projectos não avançam… Onde está o projecto maior? Questionar as indecisões, as faltas de diálogo e, porventura, a qualidade da comunicação institucional, ou a falta dela, que pode não acontecer na verdade relacional. Isolar-se é morrer lentamente. E querer tudo «certinho», não duma certeza apenas moral, mas a partir daí, enquanto autenticidade para a Vida organizada em fruição de Serviço. O Deus-das-surpresas, tipo analogia doméstica, não se dispõe de modo nada fácil. Por isso, andar de vassoura na mão à procura do Sentido e ser capaz de varrer o quotidiano metodicamente. Limpar e ficar arrumado no mundo da linguagem simbólica. Não querer ir além do óbvio. Conservar esse mundo no raio afectivo permitido por lei e servir aí mesmo, onde o Desejo e o Dever o consentem.

Enfeitiçamento sem querer e querendo mesmo o diferente. Caminhar num labirinto de incertezas restando a Certeza impessoal como fio condutor, por entre rostos que são máscaras ou funções disfuncionais, em contextos adversos. Deus é um Deus do caminho. Aos deuses visíveis como lugar da idolatria: secar a fonte e beber no Deus invisível: na humildade da Fome. Do aquém para o para-além. Morrer nas profundezas do “interessamento” e depois ressuscitar no serviço: ainda nos será possível dizer a Verdade-de-que-somos-feitos! A oração pré-orante de uma pré-crença. À prece pré-oracional da fome de Sentido do Espírito ou até à Realidade gritante do Corpo. Como partilhar sonhos desfeitos na Verdade fiel e pacientemente. Não podemos encontrar uma lista de ensinamentos e mandamentos. Perigo da denegação do Credo.

Abrir as janelas do Ser e deixar o Ar Puro percorrer todas as divisões interiores. Ensaiar a exterioridade com o aprofundamento da fidelidade interior. Sempre cúmplice e absorvido pelo partilhar. Outro Amor ainda é possível. A simplicidade no prazer do observador ou no prazer do ouvidor. Luta desigual nas consequências que não fazem efeito. Distância e proximidade. O elogio da lentidão apressada. Os deveres chamam para não serem obedecidos. Orar é lançar um olhar em frente. Passo a passo. Decisão a decisão. Ao medo oferecer a luz. Ao trabalho oferecer a entrega. Que podemos fazer? Saber aquilo que nos faz mal interiormente. Não fugir da chave da vida cristã. Apreender de novo na era da indiferença. A agenda está aberta. A obra ainda não. Talvez seja precisamente o contrário. A liberdade está em fazer o que deve ser exigido. Amém sem o peso da gravidade. Apenas o Evangelho como primeiro apetite!

Pedro José, CDJP, Gafanha da Nazaré, Encarnação, e Carmo, 17-05-2015. Caracteres (esp.incl.): 2993.

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