Sempre Entre Nós: Pe. Manuel Neves.

Sempre Entre Nós: Pe. Manuel Neves

(01-08-1941 / 19-04-2015).

Impossível não pensar e não agradecer em prece eucarística.

Transcrevo, num primeiro texto, que prontamente aceitou redigir como «Prefácio» – gostosa conversa na Praia do Furadouro (…!?) –, que imperfeitamente chamo, «narrativa evangélica», que o é acima de tudo e por baixo de todos, para que o Tempo não possa diluir o Dom, a Presença-Testemunho, e para que a sua Memória possa continuar a fecundar as convicções diárias. Desse texto retirei a última parte, pelo conteúdo pessoal, e sei que o que aí escreveu, com a sua Generosidade afectiva ímpar, poderia e deveria ser devolvido inteiramente à sua Pessoa e Obra. Ainda faltaria engrandecimento para tal.

Num segundo texto, releio de modo parcial, voltando a outra pequena homenagem/brincadeira que fiz em cumplicidade merecida, quando o trabalho comunitário e missionário nos desgastavam, em alegria, serviço e doação mútuas.

Fica-me a doce dívida: dom da Eternidade.

Recordo sem pressa e volto a rezar agradecido.

Pe. Pedro José, 19-05-2015.

[1.]

Prefácio: como narrativa evangélica.

“Em 1978, com a expulsão e saída de diversos membros das antigas colónias de África, a Sociedade Missionária da Boa Nova quis abrir novos campos de trabalho missionário. Chegou então, por meio da Conferência Episcopal Portuguesa, um pedido de pessoal para a Região do Baixo Parnaíba, no Nordeste brasileiro. O pedido foi aceite e eu topei o desafio. Mas como foram difíceis os princípios! Minha experiência de alguma pastoral africana e uma pequena atualização antropológica e de adaptação conciliar, feitas em Madrid, não me deixaram sobrevoar a realidade. Esforcei-me por me aproximar do povo, tentando aterrar numa situação que já conhecia um pouco através das novelas, mas que (pensava eu!) era apenas uma invenção da televisão atrair a atenção e a curiosidade dos ouvintes. Nisso me enganei. Fazendeiros prepotentes, jagunços, pistoleiros, coronéis, concentração do domínio das terras, exploração e exclusão do povo do interior da floresta… tudo isso era uma realidade inacreditável a que o Evangelho não podia ficar indiferente. Sensibilizar o povo para mudar esta situação, desenterrar e levá-lo a assumir sua dignidade humana, formar os ambientes para o respeito ao Estado de Direito da sociedade, organizar as comunidades para uma digna participação sindical, política e social. Tudo isto, além de quebrar velhas e abusivas arbitrariedades dos políticos locais… tornou-se uma constante preocupação nossa, mexeu comigo e com meus colegas.

Quando cheguei à pequena cidade de Chapadinha, no Maranhão, onde fui colocado como Pároco, observei com espanto um velho jeep Williams conduzido por um senhor de certa idade que nele colocou o esquisito letreiro: “tenho razão, mas não tenho direito!” A frase era estranha, mas atiçava para uma exata e real situação: a força da arbitrariedade duma minoria de poderosos, o abuso dos privilégios, a primazia dada aos políticos da situação, a exclusão social duma multidão de pobres que apenas podia habitar em miseráveis palhotas para trabalhar nas fazendas, pagando pesadas rendas e contentando-se com quase nada para tentar sobreviver. Poucos a terem muito e muitos a não terem nada. Eu sou dos que pensam que na vida cristã ou se joga tudo ou não se ganha nada. Não importa o que temos. Só nos enriquece o que damos. Por isso não deixamos que o desânimo nos [p.9] tocasse, nem que o mau ambiente nos contagiasse. O trabalho foi pesado, ameaçador, perigoso mesmo. Fomos sujeitos a inquéritos policiais, tivemos que nos apresentar em tribunais, responder a falsas acusações nos meios de comunicação social… Mas durante todos estes trinta e seis anos, os missionários, em comunidade apostólica, aceitaram o conselho evangélico: “não tenhais medo dos homens!” (Mt 10,26). Demo-nos bem com o povo e o povo deu-se bem connosco. A primeira grande constatação destes anos é que Cristo Missionário chega antes de nós ao terreno de trabalho. Nós não continuamos a ação salvadora. Deus foi, é e será sempre o eterno senhor e operário da messe. Nós apenas lhe damos visibilidade e, quantas vezes, notório atraso. Quando pensamos que trazemos a iniciativa da Boa Nova, já a achamos trabalhando, em etapas de salvação, na vida do povo. Evangelizamos, mas também somos evangelizados por esse silencioso e fecundo trabalho do Espírito.

Outra constatação é que ser missionário, deixar sua família e cultura, não é sacrifício, mortificação, renúncia… É livre preferência, alegre investimento, imensa alegria e enriquecimento humano. Hoje, nas 135 comunidades espalhadas por toda esta área que nos foi confiada e nas 20 comunidades na cidade com seus respetivos lugares de culto e centros sociais, onde milhares de pessoas celebram sua fé, Deus nos dá a melhor recompensa de nossa entrega ao serviço do Reino. Pena é que algumas comunidades apenas podem celebrar a Eucaristia duas ou três vezes por ano, porque os caminhos são de difícil acesso e as distâncias chegam a ultrapassar os cem quilómetros. A extensão da Paróquia é de 3.200Km2. E já tivemos mais cinco paróquias a nosso cargo. E como custa sentir que as igrejas de origem que nos enviam para estas bandas, depois pouco ou mesmo nada se interessam connosco! Quando muito mandarão algum senhor bispo auxiliar a presidir à missa de corpo presente, se o missionário exerceu algum cargo de autoridade.

António Marcelino, então bispo da Diocese de Aveiro, conheceu esta realidade e, como tinha sido o promotor da dinamização missionária de sua diocese, através das Semanas Missionárias realizadas pelos Institutos Ad Gentes, tomou a iniciativa de manter sempre alguém de sua diocese na linha da frente, colaborando também com os Institutos Missionários. Achava ele que essa concreta expressão missionária de sua diocese não a empobreceria, mas seria motivo de rejuvenescimento pastoral e apostólico. O autor deste livro, Pe. Pedro, recebeu e aceitou o convite para se vir juntar aos Missionários da Boa Nova no Maranhão. Veio por três anos e ficou nove. Aqui ficam nossos agradecimentos a ele e à diocese de Aveiro que também nos enviou Dr. Jorge Carvalhais durante vários anos e seus pais durante um ano, Pe. Joaquim Martins por seis meses, Pe. Nestor, alguns seminaristas e vários jovens durante o tempo de férias [pp.10-11] (…)”.

FONTE: Pe. Manuel Neves, SMBN, Chapadinha-MA, Sagrado Coração de Jesus, 27 Junho 2014, in É Mesmo Uma Boa Nova: Escritos, Estudos e Vivências de um Padre no Brasil, 2014.

[2.]

Muito além do umbigo mora um «mestre».

Homenagem – Pe. Manuel Neves

“Se o arrependimento fosse causa de morte, eu continuava vivo. É certo que arrependo-me perante certos «Mestres», que não serão condenados pelo Evangelho, na medida em que apontam e fazem luz sobre o verdadeiro Mestre dos mestres: Jesus Cristo. É disto que sinto necessidade de escrever com a intuição do instante. A relação com esse «tipo» de mestre cristificado arrasta somente para Deus, vida abundante (cfr. Jo 14,6;12).

[…]

No presente-presença, escrevo sobre o Pe. Neves, meu superior na Missão, duma forma sintética. E na síntese ele é, também, mestre, dupla ousadia. Alguns traços na minha perspetiva.

Pe. Neves coloca «pressão nas pessoas» (bendito seja por isso!). O colocar pressão em tudo o que vive e sente e quer, origina divergências e convergências: morais, teológicas, pastorais (devíamos ter mais…), psicológicas e humanas. A «pressão» não é stress, é intensidade/densidade; mas a «pressão» pode levar a uma “vida stressada”.

No meu relacionamento com ele cabe a afirmativa de S. Teresa de Ávila: “Não quero ser santa. É tão difícil conviver com os santos!”. Não me compete julgar a santidade de ninguém. Pe. Neves é um profeta. Todos(as) os(as) santos(as) são profetas no seu ser e agir.

Defende o amigo até à morte, dá o que tem por inteiro (de forma generosa); pode ser contrariado na forma, não no conteúdo. Dá espaço de criatividade, mas não tolera o questionamento da Autoridade (não escrevi Poder, todos sabem a diferença). Amigo de todas as horas, fica acordado, “podre de sono”, quando chego tarde das atividades pastorais, para abrir a porta e perguntar como foi (devia falar mais e não sou capaz por idiossincrasia). O seu humor é irónico, inoportuno, instigante, pontes excelentes em sintonia interpessoal comigo: sempre aceito o jogo.

Tem na cabeça 10 projetos, dos quais 5 em execução imediata e simultânea. Quatro em estudo rápido, dois em processo de indecisão contínua e UM projeto em relacionamento direto com Deus, por meio do nosso Advogado, Espírito Santo, que ninguém suspeita. Dez projetos que são doze, pois é, o desdobramento, nunca o entendo. Eu tenho ideias a mais, ele tem projetos a mais: só dá casamento com separação de bens.

Eu não tenho a sua capacidade de trabalho e gestão (sobretudo esta), nem saúde (ele tem menos ainda) e vigor (ele tem em excesso). Será Workaholic ou Lovework? É os dois! Com o Pe. Neves, o ferro malha-se enquanto está quente, e também, quando está frio. Debater com ele é um desafio e um desenvolvimento; não entra em “brigas” fúteis e inúteis, ao contrário do que a maioria “acha”; e sabe respeitar “o inimigo”, ao contrário do que muitos criticam. Partilhamos muitos livros, mas insuficientes leituras, acaba por ser (a)normal.

Um dos meus trocadilhos favoritos é: “Pe. Neves, de férias, temos mais trabalho na Paróquia, mas também temos menos trabalho paroquial”, é um paradoxo bem lógico! Assim vivo o presente, com viagem marcada e paga. Sem pressas, sem lentidões! Agradecido Pe. Neves! Lavei um pouco a minha alma, nas suas palavras, e por isso experimento Paz e Alegria, frutos da Justiça. O processo terapêutico está em curso. “Blink”, é a decisão num piscar de olhos com Fé!”

FONTE: Pe. Pedro José, Chapadinha (27-04-2007), in É Mesmo Uma Boa Nova: Escritos, Estudos e Vivências de um Padre no Brasil, pp. 80-81, 2014.

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