Sobre a Denegação por Umberto Galimberti

Sobre a Denegação por Umberto Galimberti

“A denegação é um modo de manter secreta para nós a verdade que não temos a coragem de enfrentar” (S. Cohen – 2001).

Os meios de informação que nos fazem conhecer tudo o que acontece de uma forma permanentemente atualizada, colocaram-nos em situação de praticar um novo vício, que corre o risco de passar despercebido, tal a sua difusão. Esse vício é a denegação, que consiste em negar, nas formas mais variadas e hipócritas, a existência daquilo que existe e, por conseguinte, é conhecido.

O reconhecimento é exatamente o contrário da denegação. Existem várias figuras que vão da denegação absoluta (não acontece) ao descrédito (os A,B ou C ou Grupo X são manipulados e perturbados) à definição errada (é verdade, efetivamente acontece alguma coisa, mas não é, por exemplo, tortura); à justificação (é verdade, mas não havia outra coisa a ser feita, enquanto não se encontrar uma solução política).

A linguagem é uma grande aliada da denegação, dando uma roupagem que se consolida em 3 tipos: literal (não se deseja saber aquilo que se sabe); interpretativa (deseja-se evitar, por meio de uma reformulação cômoda dos fatos) e implícita (os fatos são visualizados como alheios à própria competência, de modo a se sentir eximido de uma pronta intervenção).

Todo tipo de denegação comporta uma falsificação da nossa condição psicológica” (Idem, o.c., p. 122). Em termos gerais, sem generalizar, podemos afirmar, por um lado a denegação política é cínica, calculada e evidente, por outro, a nossa denegação, entre a consciência e a inconsciência, é desastrosa, porque retira qualquer esperança de uma possível reação e inversão do curso dos acontecimentos. Instala-se então o que o autor designa “moral da vizinhança” (tendência a defender o “seu grupo” ignorando todo o resto; poderia ser semelhante ao “corporativismo”, na nossa análise) que transversalmente provoca e difunde duas formas perniciosas: a indiferença e insensibilidade.

Contra a denegação, em tratamento radical, não devemos invocar a verdade, mas o princípio da Revolução Francesa: não a igualdade, a não liberdade, (“destruídas”, respetivamente, pela visão comunista e capitalista) e sim a fraternidade. Sentencia: “(…)se não nos tornamos sensíveis à fraternidade diante daquilo que sabemos, tornamo-nos irremediavelmente imorais, sob o peso da denegação“(Idem, o.c., p.124).

 

FONTE: GALIMBERTI, Umberto, Os vícios capitais e os novos vícios, São Paulo, Paulus, 2004. Obs. As citações são retiradas desta obra.

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