“P. NEVES, UM AMIGO PARA SEMPRE” – Testemunho Pe. Farias

P. NEVES, UM AMIGO PARA SEMPRE

 

No dia 20 deste mês de Abril despedimo-nos do P. Manuel dos Santos Neves. Não para sempre… foi só até um dia, porque nós partilhamos uma vida comum que em Jesus Ressuscitado, nem a morte poderá romper. Eu e todos nós queremos continuar a dar umas gargalhadas com ele!…

Ele antecipou-se, e merecidamente, porque, como dizia alguém do dia da sua Páscoa, ele viveu dias vidas numa vida só. Ele andava sempre em “prise”, em alta rotação, por feitio e temperamento, mas também, e sobretudo, por paixão. Foi um crente apaixonado. O Reino urgia… e os pobres e desprezados não tinham direito a esperar. Por isso, era preciso não parar nunca, mesmo que houvesse duas ou três tarefas ao mesmo tempo… mas chegava sempre ao fim.

Foi assim este padre Neves que conheci a partir do meu segundo ano de filosofia. Mas nele o ministério sacerdotal imprimiu mesmo carácter. Desde que foi ordenado presbítero a 10 de Junho de 1965 (ia fazer bodas de ouro sacerdotais, mas viveu rápido demais), até de Janeiro deste ano, foi sempre uma máquina a vapor em alta pressão. O Espírito Santo encontrou nele um grande parceiro!

Chegou a Pemba, Moçambique, nos finais de 1967. Levava na bagagem o entusiasmo de jovem padre e carregava a novidade do Concílio Vaticano II que era preciso implementar naquele norte de Moçambique ainda adormecido. Chegava a ser incómodo e até provocador, como sempre foi. Mas era preciso mudar muita coisa. Estava sempre na mira da polícia política. Não tinha medo e era capaz de facilmente enfrentar os seus adversários. Sempre, ao longo de toda a vida. Mas o povo que servia amava-o de coração.

Queria que o Evangelho chegasse ao coração do povo moçambicano. Para tal apaixonou-se pelo estudo dos usos e costumes para que a partir daí o evangelho encarnasse e ganhasse raízes e fisionomia africana. Participava nos ritos da iniciação (interditos a estranhos), escutava os provérbios e tradições. Durante um ano de estudo em Madrid procurou sistematizar todo esse material de modo a uma maior inculturação do Evangelho na cultura local… mas já não pode regressar.

Não se perdeu em lamentações. Em Portugal, na área de Valadares, no tempo da revolução estava sempre na linha da frente das iniciativas pastorais: botava fogo nos cursos de cristandade, dinamizava a pastoral familiar, animava os CPM, promovia as missas nos areais das praias de Francelos e Aguda no Verão, estimulava as conversões nas pregações quaresmais nas paróquias da vigararia, enchia as igrejas com a sua calorosa pregação… era casa cheia onde quer que estivesse. Incomodava muita gente porque dizia o que pensava. Nos tempos que passou na animação missionária ele entusiasmava os nossos colaboradores e auxiliares pela causa missionária. E com as ajudas que recebia canalizou muitos meios para as nossas missões de Angola e Moçambique que nessa altura passavam por imensas dificuldades, até de alimentação. Vivia para os outros.

No Brasil foi preciso começar tudo de novo, em Chapadinha. Era preciso começar por salvar o povo das garras dos abutres da terra que espoliavam o seu povo do único meio de subsistência que era a terra. Muitas vezes teve de enfrentar, até fisicamente, os grandes e seus jagunços com o risco da própria vida… porque a vida do povo estava acima de tudo. Apercebeu-se imediatamente da ignorância religiosa e do fatalismo daquele povo. Por isso, era necessário dar-lhe consciência da sua dignidade e direitos, e também libertá-lo do obscurantismo religioso em que vivia. Passava a maior parte do seu tempo pelas comunidades do interior procurando escolher e formar líderes que animassem as comunidades de base e as ajudassem a crescer na fé e na defesa dos seus direitos.

P. Neves era um líder inovador. Não se contentava com uma pastoral de manutenção. Queria sempre novidade. Para tal juntava a si muita gente para o ajudar. Com ele trabalharam grandes teólogos e pastoralistas brasileiros, padres que pediu a Portugal, particularmente à dioceses de Aveiro e Coimbra. Acolheu e orientou os Leigos Boa Nova, as Missionárias da Boa Nova e as Criaditas dos Pobres, e muitos jovens dessas duas dioceses que por aí passaram em períodos mais ou menos longos partilhando a sua fé e deixando-se interpelar pela bondade e acolhimento desse povo. O P. Neves sabia acolher, integrar e promover a quem chegava. Ninguém estava a mais. Para todos era um pai e um amigo. Isso foi visível no dia do seu funeral em que participaram padres, missionárias e jovens que com ele trabalharam, testemunhando até às lágrimas o carinho e afeição que lhes tinham, e as marcas positivas que deixou nas suas vidas.

Ao fim de 35 anos de tanto trabalho, agitação e preocupação pelo bem dos outros no Brasil, chegou a Portugal em meados de Janeiro. Vinha desfeito. Nunca teve tempo para si. Por mais tentativas que os médicos e pessoal de saúde do Hospital de S. Sebastião em Santa Maria da Feira, fizessem para lhe salvarem a vida, já era tarde demais. Foram quatro meses de íngreme calvário que percorreu até à sua Páscoa a 20 de Abril, 3º Domingo da Páscoa. Foi tempo de pausa, de reflexão, de oração e de configuração dolorosa com Cristo sofredor. Percebeu que tinha cumprido a sua missão. Por isso, entregou-se ao Senhor da Vida com muita serenidade. Já não era o mesmo Neves que regressou do Brasil. Foi tempo de amadurecimento espiritual.

O seu funeral foi uma verdadeira liturgia pascal. Foi-nos dito que ele confidenciara que no dia do seu funeral gostaria que cantassem o cântico “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir”. Na intimidade da acção de graças da comunhão e de acção de graças pela vida deste homem, toda a assembleia, embora com a voz embargada pela emoção, cantou com ele (já na Vida plena) esse cântico que mobilizou toda a sua vida. E assim nos despedimos dele até ao dia em que todos juntos possamos voltar a cantá-lo. Até sempre, P. Neves

FONTE: P. Farias, in Voz da Missão (enviado por e-mail, 23-04-2015).

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