Padre Neves: o eterno missionário!

Padre Neves: o eterno missionário!

In memoriam: Por Ivandro Coelho

Vai demorar muito tempo – talvez séculos! – para que Chapadinha tenha a dimensão exata do imenso vazio espiritual, político e moral que a partida do maior líder religioso de toda a sua história representa. Padre Manuel dos Santos Neves – ou simplesmente Padre Neves, como costumavam chamá-lo – era uma figura raríssima, dessas que surgem de tempos em tempos sobre a terra e que despertam a nossa atenção por reunirem, em si e ao mesmo tempo, todas aquelas características que nas demais pessoas só se revelam de forma isolada e em geral bastante tímida: dignidade, coragem, sabedoria, generosidade, força de caráter, humildade e fé.

 

Analisando a trajetória desse português nascido na Vila de Cucujães, Portugal, a primeira coisa que a gente se pergunta é: o que teria feito esse homem deixar para trás parentes, amigos e uma vida certamente promissora e confortável – tudo aquilo que, como diria Mário Vargas Lhosa, a nossa “Civilização do Espetáculo” mais preza e cultua – para se embrenhar nos confins do Maranhão nos idos de 78, uma terra inóspita, marcada pela pobreza e pelo latifúndio, pela violência e pela desigualdade social? A resposta a essa pergunta quem nos dá é o próprio Padre Neves, no prefácio do livro É mesmo uma boa nova, do meu amigo Padre Pedro: “Ser missionário, deixar sua família e cultura, não é sacrifício, mortificação, renúncia… é livre preferência, alegre investimento, imensa alegria e enriquecimento humano”.

 

Para Manuel Neves, portanto, levar a palavra de Deus a quem necessitava era uma alegria, uma forma de crescimento espiritual – não um martírio. Eis o verdadeiro espírito missionário. E foi esse espírito missionário, aliado à imensa fé cristã, que o trouxeram para nosso meio. E que o ajudaram a enfrentar com firmeza e determinação as dificuldades, as perseguições, os desafios e incompreensões que desde sempre se lhe puseram no caminho. “Fomos sujeitos a inquéritos policiais, tivemos que nos apresentar em tribunais, responder a falsas acusações nos meios de comunicação social… Mas durante todos estes trinta e seis anos, os missionários, em comunidade apostólica, aceitaram o conselho evangélico: ‘não tenhais medo dos homens’.” E não tiveram mesmo!

 

Mas se, por um lado, a postura firme e irrenunciável a favor dos menos favorecidos e contra a exclusão social atraiu o ódio dos poderosos, por outro, fez com que Padre Neves conquistasse o coração e a alma do povo humilde das centenas de comunidades e bairros espalhados na região de Chapadinha, que viam nele mais que um simples líder religioso: na verdade, o tinham como um amigo, um irmão e – por que não dizer? – um grande pai. A prova dessa simbiose espiritual e social com a população podia ser facilmente constatada durante as festividades religiosas organizadas pela paróquia sob a liderança luminosa do Padre Neves, entre elas as procissões em homenagem à santa padroeira da cidade, Nossa Senhora das Dores, que atraíam – e ainda atraem – milhares de pessoas.

 

No entanto, apesar de todas essas claras demonstrações de prestígio social e religioso, Padre Neves sempre manteve a humildade, reconhecendo que a obra em prol da Igreja deveu-se menos à sua atuação individual do que ao próprio trabalho divino: “Deus foi, é e será sempre o eterno senhor e operário da messe. Nós apenas lhe damos visibilidade e, quantas vezes, com notório atraso. Quando pensamos que trazemos a iniciativa da Boa Nova, já a achamos trabalhando, em etapas de salvação, na vida do povo. Evangelizamos, mas também somos evangelizados por esse silencioso e fecundo trabalho do Espírito”. Eis aqui uma lição para alguns semideuses, desse e de outros credos, que há muito deixaram em segundo plano a palavra divina para se transformar em astros pop. Pura jactância.

A contribuição de Padre Neves, porém, não se resume à revitalização e consolidação da Igreja Católica em nosso município. Seu maior legado é ter semeado entre nós os valores cristãos da solidariedade, do amor aos desamparados e do combate intransigente às injustiças – tudo isso sem aderir a particularismos ideológicos de direita ou de esquerda, a interesses de grupos políticos oficiais ou de oposição. Graças a ele, hoje sabemos que a evangelização não pode ocorrer no vácuo, longe das questões do mundo concreto dos homens. Que fé e justiça social andam de mãos dadas. E que a tarefa de levar a Boa Nova exige entrega livre, espontânea e absoluta. “Eu sou dos que pensam que na vida cristã ou se joga tudo ou não se ganha nada. Não importa o que temos. Só nos enriquece o que damos”.

 

É por essa firmeza de convicção e pela força de caráter que sua vida se transformou num dos poucos exemplos entre nós capazes de orientar jovens e velhos na busca da verdade, do perdão e do amor divino. Jamais transigir com a injustiça ou com a hipocrisia. Jamais admitir a mentira ou a falácia. Fazer com que o povo tome as rédeas do seu próprio destino: eis os motivos por que Padre Neves lutou durante toda a vida. “Sensibilizar o povo para mudar esta situação, desenterrar e levá-lo a assumir a sua dignidade humana, formar os ambientes para o respeito ao Estado de Direito da sociedade, organizar as comunidades para uma digna participação sindical, política e social. Tudo isto, além de quebrar velhas e abusivas arbitrariedades dos políticos locais… tornou-se uma constante preocupação nossa, mexeu comigo e meus colegas”.

 

Quem nesses dias acompanha o clamor do povo simples, as lágrimas, a comoção dos amigos mais próximos e dos colegas de trabalho, as declarações públicas – das mais sinceras às que não passam de meras formalidades – há de em algum momento, lá no fundo da sua consciência, também se perguntar: e eu, o que estou fazendo para melhorar a mim mesmo e aos que me cercam? Quando essa pergunta se fizer presente, e, principalmente, quando ela começar a se transformar em atos de fé e esperança, é sinal de que aprendemos a lição. De que as sementes plantadas pelo grande missionário já estão frutificando. Aí então teremos a certeza de que sua missão foi cumprida.

FONTE: Ivandro Coêlho, professor e jornalista, in http://cafepequeno-ivandro.blogspot.com.br/ , acesso: 23-04-2015.

 

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