“Esta noite é noite de Natal”: Testemunho de Fé segundo Pedro Arrupe, S.J.

“Esta noite é noite de Natal”(*):

Testemunho de Fé segundo Pedro Arrupe, S.J.

“Chegou o Natal. Nessa noite, enquanto a cidade dormia, Arrupe velava em silêncio com enorme tristeza. A sua alma viajara até à capela da sua paróquia e imaginava a missa do galo, que nesse ano não poderia celebrar. A nostalgia do Natal adensou-se. Ouvia-se a respiração dos soldados que dormiam do lado de lá da cortina…

De repente, vindo de uma janela, ouviu-se um barulho diferente. Suave, manso, chegou até ele o sussurro de muitas vozes que não queriam denunciar-se… Apurou o ouvido. Na prisão qualquer som é aumentado pela ansiedade ou pelo medo que se sente apenas porque se está preso.

Dominando o murmúrio que lhe chegava aos ouvidos uma suave canção de Natal irrompeu. Era uma das canções que Pedro tinha ensinado aos seus cristãos. Não conseguiu conter as lágrimas. O contraste entre aquele gesto de delicadeza e o facto de estar preso sob falsas acusações era demasiado grande.

A serenata natalícia foi-se desvanecendo na escuridão da cidade adormecida. Os cantores tinham partido e Pedro recolheu-se no silêncio. Mas sentia que aquela cela rudimentar se transformara no presépio de Belém.

Os dias de incerteza iam acabar. A 11 de Janeiro, à meia-noite, a porta abriu-se bruscamente, já ele dormia. As luzes foram acesas e o xocho e vários subalternos entraram, levando livros e papéis para fazer um interrogatório em regra. Arrupe pensou que era o último mas que não ia demorar trinta e sete horas seguidas.

Não descuraram nada. Começaram pela vida particular, a hora de se levantar, a hora de se deitar, a reza do breviário, a habitual meditação matutina… Para Arrupe tudo aquilo era incompreensível. No entanto, com a segurança e o aprumo que o caracterizavam, respondia ao que lhe perguntavam ponto por ponto.

“Durante o interrogatório percebi que isto os impressionava muito. Nas suas palavras havia cada vez mais respeito, mais desorientação e menos hostilidade. Tinham sido sempre corteses, mas então tornaram-se positivamente deferentes”.

A primeira parte do interrogatório demorou catorze horas. A segunda foi sobre doutrina e Arrupe receou que lhe fizessem perguntas acerca [p.163] da melindrosa questão do deus-imperador. Como confessa, começava a sentir-se cansado e nervoso e sobretudo a preocupar-se com o que pudesse acontecer aos cristãos.

– Explique-me -, disse de repente o polícia, – o primeiro mandamento da lei de Deus.

Arrupe abriu o coração a Deus, a pedir ajuda, e foi por ele inspirado.

– Está bem, e para que percebam que não vejo inconveniente em abordar o assunto vou fazê-lo como o faço com os catecúmenos na igreja.

Os inquisidores concordaram. Arrupe expôs algumas ideias preliminares sobre Deus e a criação e depois perguntou:

– Vocês acham que o tenno heika [imperador] é o criador do mundo?

Naquela época o imperador era considerado um kami (deus), descente e gerador de kami. Mas o sentido do termo era vago e não era fácil aceitar que o imperador tivesse vivido o tempo suficiente para ser o criador do mundo. Arrupe deixara-os num beco sem saída, se dissessem que não não seriam fiéis ao imperador e se dissessem que sim cometeriam uma asneira, portanto disseram:

– Não percebemos nada de filosofia.

Pedro esfregou as mãos, estava no seu terreno. Aquela confissão de ignorância impedia-os de o rebaterem. Então, com argumentos ad hominem, debruçou-se sobre a vida deles, de que teriam de prestar contas a Deus. Isso perturbou-os e mudaram de conversa voltando à política, à guerra e aos problemas sociais.

No fim a esperança.

– Não se preocupe, está tudo a correr bem.

O xocho pegou no fude e pôs-se a escrever. Do outro lado da mesa o padre via o deslizar vertiginoso do pincel sobre as folhas de papel que iam sendo preenchidas com grandes caracteres. Quando acabou, o xocho perguntou:

– Percebe o que está aqui escrito?

– Não, não consigo ler, a letra é difícil e os papéis estão de cabeça para baixo.

– Bom, vou então ler-lhe o texto para que depois o assine [p. 164].

“E dos seus lábios fluiu a mais bela confissão de fé que em meu nome se escreveu na primeira pessoa. ‘Eu, Pedro Arrupe […]’. Aquele homem tinha conseguido chegar ao fundo do meu pensamento missionário e sacerdotal decerto por causa do contacto providencial que eu tinha mantido com os soldados. A exactidão de expressão que tivera de atingir para dizer, com palavras que pareciam inexactas, o que queria que eles entendessem, fez com que nas trinta e sete horas de interrogatório não lhes desse uma só resposta em que quisesse dizer uma coisa e eles entendessem outra. Enquanto punha o dedo sujo de tinta sobre um dos extremos do papel, como prova de que concordava com o que ali estava escrito, pedi ao xocho que me cedesse uma cópia do documento, que tão maravilhosamente resumia as minhas crenças e as minhas actividades. Mas esse favor não me foi concedido”.

– É um documento oficial -, respondeu com secura.

Mas Pedro percebeu-lhe nos cantos dos lábios um esgar de satisfação causado pelo reconhecimento implícito no pedido.

Meia hora mais tarde o director da cadeia chamou-o ao gabinete para lhe dizer que estava livre e que quando quisesse podia ir-se embora. Mas antes teve uma longa conversa com ele. Para se desculpar explicou-lhe que as informações que recebera da autoridade civil eram muito [p.165] negativas e que isso o forçara a detê-lo e a revistar-lhe a casa para evitar problemas posteriores. Prendera-o para investigar a fundo a sua pessoa, as suas actividades e as suas crenças.

– Então porque é que tive tanto tempo detido sem que me interrogassem?

– Porque nestes casos a conduta do acusado é um dos elementos de julgamento mais importantes. O senhor submeteu-se a tudo sem se insurgir. Dedicava-se ao estudo e à oração e não prestava, não se queixava e não insultava ninguém.

Na verdade, perto do padre Arrupe tinha estado preso um professor chinês que não parava de proferir insultos grosseiros e de se queixar em altos berros.

Arrupe levantou-se para se despedir. O chefe voltou a desculpar-se.

– O senhor sabe que em tempos de guerra os nervos aumentam e é fácil cometer erros.

– Já lhe disse, não se preocupe. Sabe pelas minhas declarações que me dedico a pregar a palavra de Cristo e que vim para o Japão para sofrer pelos japoneses. Para um cristão o sofrimento não é objecto de vergonha nem de ódio. Jesus Cristo sofreu muito mais que qualquer outra pessoa. Um crente não tem medo de sofrer com ele nem como ele sofreu. Não lhe guardo rancor porque o senhor foi quem mais me ajudou a sofrer assim. Saiba que lhe estou grato como a alguém que me fez bem.

– Eu fiz-lhe bem?

– Sim, fez com que me aproximasse da realização do meu ideal. O senhor foi quem mais me fez sofrer pelos japoneses.

Aquelas palavras impressionaram imenso o diretor da cadeia. Este estendeu a mão, ao jeito ocidental, para apertar com firmeza a do padre Arrupe, e disse:

– Pregue, pregue sempre uma religião como esta. Subaraxii [admirável].

Pedro nem queria acreditar. Quando os olhos encontraram os daquele homem viu lágrimas, lágrimas de emoção.

Antes de partir foi despedir-se dos soldados e dar uma olhadela à cela improvisada em que passara mais de um mês. Ali vivera momentos duríssimos. Não fora nem bem nem mal tratado, fora apenas mais um preso. Mas para um estrangeiro as coisas são mais duras. Numa outra [p.166] prisão a cela teria pelo menos um catre, uma mesa-de-cabeceira e um banco, mas a de Arrupe só tinha o tatami, em cima do qual passava os dias, com os rins dobrados por não ter encosto e o corpo moído por falta da cama. Quanto à comida, teria preferido pão e água aos nabos fibrosos e aos caldos concentrados que lhe davam náuseas.

Quando se despediu dos soldados com quem tinha convivido e que tinham ouvido tantos ensinamentos seus, também eles não conseguiram disfarçar a emoção. Para além da simpatia, havia uma coisa no padre Arrupe que ele tenta explicar com simplicidade. “Era uma nostalgia indefinida, imprecisa, que não conseguiam precisar. Julgavam que se emocionavam porque eu partia, mas estavam enganados, emocionavam-se porque quem partia era Cristo. Pode haver outra explicação para a tristeza deles?” [p.167].

(*)FONTE: LAMET, Pedro Miguel, Pedro Arrupe, Testemunha Do Século XX, Profeta Para o Século XXI, Edições Tenacitas, 32010, Coimbra, pp.564 [Original 2003, Tradutora: Fátima Ragageles]. Transcreveu: Pedro José, CDJP, Gafanha da Nazaré/Encarnação/Carmo, 26-12-2014. Caracteres (incl. espaços): 8035.

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