Uma Carta de Amizade ao Brasil – inspirado em MEC

Uma Carta de Amizade ao Brasil

(13 anos depois do primeiro encontro!)

Inspirado e parafraseando: Miguel Esteves Cardoso, Como é Linda a Puta da Vida, Porto Editora, 2013:“Uma carta de amor para Portugal” pp.153-157. Com despudor não utilizo aspas. Está tudo muito misturado.  Como quem rouba do amigo a carta para conquistar a “amada da sua vida”.

Brasil,

Estou há anos para te escrever.

A primeira vez que te conheci, cara a cara, foi no dia 11 de Setembro de 2001, quando as Torres Gémeas caíam em Nova Iorque, numa data profundamente triste para a humanidade. Aterrei primeiro num voo em Fortaleza – o primeiro impacto, conversando com o taxista… – , e logo depois, a decisiva primeira visão na chegada à cidade de S. Luís, no Maranhão, aguardado pelos amigos J. e I., na F-1000, sendo o destino final, o município de Chapadinha, na diocese de Brejo. Vim trabalhar como padre, cumprindo o acordo missionário de comunhão entre Igrejas, que durou nove anos. Ao fim desse tempo de namoro não houve casamento.

Tinha 29 anos e estava fora de Portugal pela primeira vez a sério. Continuo a sofrer dessa paixão antiga. O tempo amadureceu esta carta de amizade melancólica, ciumenta, e mesmo abnegada.

Agora com 42 anos, envelheço cada dia que passa, regresso de férias e que férias estas!? Descubro que continuo apaixonado pelo Brasil desconhecido! Pelo Maranhão escondido! Amo as frutas, não apenas algumas mas todas elas. Melhor que as frutas só os sucos diluídos em água gelada! Não há melhor bebida no mundo! Amo os cheiros… Amo a seleção brasileira mesmo quando perde!? Amo as cores e os sabores extremos! Amo a tua literatura e os teus jornais caóticos, cosmopolitas e surreais nas problemáticas locais!

Amo-te como ainda ontem, em casa de amigos, depois de novena rezada e cantada, ouvi a tua música profunda vinda da Terra; numa inesquecível e perfeita noite de luar, degustando cerveja, acompanhada de salame!? Batendo um papo cordial esquecendo o relógio!

Insinuaste-te assim como radicalmente complexo e eu só anseio por te compreender racionalmente e não consigo. Tento e tento, pergunto e «despergunto», outra vez sem parar!? Não fui eu que te escolhi deste jeito que és. Quando descobri que te tinha esta amizade louca por esta complexidade de efeitos contrários… já era tarde de mais para mim.

Eu não posso ficar aqui preso a ti; tenho de correr para Portugal. Sei que voltarei outra vez porque já não é paixão… é AMIZADE o que sinto por ti. Uma amizade que é a lenta – lentidão nordestina, sem cura… – acumulação de razões, emoções e vantagens.

Sou desejado e isso é o melhor sal para temperar a Amizade autêntica. Sinto que pertenço a uma família sem o dever do sangue. Amigo para sempre! E desde sempre!

Custou-me justificar esta amizade por ti. És difícil e complexo. És muito bonito e és doce mas és pouco dado a escutar amizade crítica. Até dás a impressão que tanto te faz seres odiado como amado pelos teus políticos sórdidos; que gostas de fingir que estás acima disso, olhando para os cidadãos de agora como o céu olha para os urubus planando!? Não te tocas com o absurdo das tuas injustiças!

Mas há gritos de Verdade, contra a mentira social! Há Profetas nestas terras, como na Bíblia feita história da salvação contemporânea. Graças a Deus que o Pe. Manuel Neves, ainda tem saúde (até quando não sei) e lucidez para o testemunhar a qualquer preço! Mas a Justiça virá com devida prudência e urgência. Graças a Deus que ainda há Juízes sérios e comprometidos com a realidade: o Dr. Juiz Mário Henrique Mesquita é um deles!

Encontro-me, novamente, perdido dentro de ti. E, a partir de certa altura, quando já não sei que razões fui arranjando ao longo destes nove anos que agora recordo: rosto a rosto; indignação a indignação; doação a doação; ternura a ternura; deixo de te amaldiçoar! Sou incapaz de te xingar!? Esta Amizade que me prende a ti e, inevitavelmente, começo a sentir-me, muito ignorante e secretamente, convencido que sou o teu melhor amigo (todos o pensamos “secretamente” na era facebook….) e não o reconheces com (im)propriedade!? Como se fosse eu que tivesse eleito esta Amizade imerecida!?

Amo-te por seres o Brasil e estares cheio da alma portuguesa a falar português brasileiro. Não há nenhum outro país, por muito bom ou bonito, onde isso aconteça. O português cantado!

Mesmo que não achasse em ti senão defeitos e razões para deixar de te amar, preferia isso, mesmo deixando de te amar, a que não existisses. Se deixasses de existir, o meu olhar ficava de luto e nunca mais podia olhar para o resto do mundo com os olhos inteiramente abertos ou secos ou interessados.

Esta é a única verdadeira prova de Amizade: fazer tudo para que sobreviva quem se ama. Mesmo que nunca mais te visse, Brasil, saberia que continuavas a existir, que as minhas saudades teriam onde se agarrar. Mesmo que não houvesse em ti um único pormenor que não houvesse nos restantes países do mundo, que são muitos; mesmo que houvesse um país escondido que fosse igualzinho a ti Brasil em todos os pormenores; mesmo assim eu amar-te-ia como se fosses o único país do mundo, diferente em tudo.

Portanto, já viste, ó Brasil: não preciso de nenhuma razão para te amar. Amo-te sem razão. Amo-te às cegas, antes sequer de olhar para ti. Podes ser o pior país do mundo, ou o melhor, ou o mais monotonamente assim-assim. Não me interessa. Amo-te. Amo-te à mesma. Amo-te antes de falarmos nisso.

Amo-te mesmo que sejas impossível de conhecer ou de descrever. Isto é muito importante. O Brasil que eu conheço e descrevo (é pouco, Belo Horizonte…, Santos, N.S. Aparecida, em São Paulo, duas vezes de viagem e estadia breve…, muitas vezes em São Luís (queria conhecer a magia histórica de Alcântara), e a partir de Chapadinha – MA, a grande riqueza humana da região do Baixo Parnaíba…) é apenas o Brasil que eu julgo, se calhar, conhecer (pouco) e descrever (mal).

Uma das razões por que te amo é o teu clima. Acho que tens um bom clima. Mas não julgues que há muitos brasileiros apaixonados por ti que concordam comigo. Esses julgam o teu clima dia a dia e hora a hora e gostam dele, quando muito, vinte por cento do ano. Em cada cinco horas do teu clima, gostam de uma e odeiam quatro.

Pois eu amo-te sem saber sequer se o teu clima é bom ou mau. Não tenho a certeza, mas não interessa: amo-te mesmo ignorando tudo a teu respeito. Amo-te mesmo estando completamente enganado. A pessoa convencida sou eu. Quem está convencido que ama, quando fala da sua AMIZADE, não quer convencer ninguém. Quer declarar que é amigo! Se é bom ou mau nem secundário é. Fica noutro mundo, onde vivemos.

Pronto. Está dito. É uma vergonha pôr as coisas de uma maneira tão simples. Mas era isto que eu estava há anos para te dizer: amo-te, Brasil, por seres o segundo melhor país do mundo (o primeiro continua a ser teu «avô»: Portugal!?).

Como vês não sou o racional que aparento ser, com o meu português fechado e duro, quando se tem Amizade a valer não precisamos procurar razões. Ou se calhar precisamos de sobremaneira!? Tenho uma razão muito interesseira para te amar: se tivesse de trocar Portugal, era por ti que trocava, sem hesitar um único segundo! Por muito racional que eu seja noutras coisas, acho mesmo que tive imensa sorte em ser tão bem acolhido por TI! Acho que te respeito sempre na Amizade Leal!

Deu tremendamente certo!

Vai desculpando qualquer coisa!

Como por exemplo, essa íntima vaidade. Tu não és orgulhoso. Mas, muito bem disfarçada, tens uma vaidade sem fim. Dizes-te belo e vestes-te mal mas, quando passas por um espelho, espreitas e achas-te giro. E se alguém te diz que és feio e estás mal vestido, não ficas ofendido – achas que aquela pessoa é obviamente ignorante e não tem olhos na cara. Ou, pelo menos, não tem o discernimento e o bom gosto necessários para apreciar a tua oblíqua mas inegável formosura. A tua beleza, estás convencido, está reservada para os apreciadores. A ralé passa ao lado e não vê: deixá-la passar. A tua vaidade é tanta que até te permites um grande desleixo. Sabes que, na terra onde nada plantaste, há-de crescer um jardim preguiçoso que um dia será selvagem e bonito, sem qualquer esforço teu. Deus e o tempo trabalham por tua conta. Sabes que a tinta fresca salta muito à vista e que é cansativa. Esperas, despreocupado, pela beleza que há-de vir com a passagem dos tempos. E a vaidade que sussurra, preguiçosamente, a quem insista em aproximar-se: «Sim, eu sei que sou uma casa bonita e não, não me lembro da última vez que fui pintada. Eu cá não preciso de me abonecar.»

Graças ao desleixo que a tua vaidade consente, mudas menos do que os outros países. As pessoas acham que és inovador, que és favor da mudança. Mas não é isso. És vaidoso e preguiçoso porque achas que não precisas de grandes esforços, e sobretudo, as mudanças verdadeiras continuam a ser adiadas: sabes que mesmo assim continuas encantador. O teu desleixo crónico também é causa de muito sofrimento mas não é numa carta de amizade que vou falar dele. Embora tenha consequências muito desagradáveis.

Eu poderia perder anos a fazer um cuidadoso retrato de ti. Por muito verosímil que fosse, davas uma olhadela e dirias talvez, confuso e sorridente: «Isso não sou eu. Isso é outro país qualquer que inventaste…».

Quanto mais variados forem os teus retratos, mais gostas. Até tu, nas tuas paisagens, varias e hesitas tanto e recusas-te a decidir, como quem não tem pressa e, no fundo, não escolhe nem decide, porque quer tudo para mais tarde! É cedo! Pode sentar um pouco mais!? Ainda falta saideira!?

Tenho uma Grande Amizade, aconteça o que acontecer. Amizade por causa de ti mesmo. Não é apesar de ti. É por causa de ti. Não há outra razão. Nem podia haver uma razão mais simples.

Já ouviste uma carta tão delirante?

Pedro José, Chapadinha MA, 11-09-2014, caracteres (incl. esp), 9367.

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