escrevinhar sobre “o” morrer

escrevinhar sobre “o” morrer

“O amor é forte como a morte”, Cântico dos Cânticos.

Três «nomes grandes» não morrem dentro de mim, vindos do Brasil:

João Ubaldo Ribeiro (23 -01-1941 // 18 de julho de 2014);

Rubem Alves (15-09-1933 // 19 de julho de 2014);

e Ariano Suassuna (16 – 06 – 1927 // 23 de julho de 2014.

Três bibliotecas feitas de Vida: infinitas e eternas!

Tremenda a ausência da partida!

Terrível este mês de Julho!

Este ano do Brasil as perdas totais serão irreparáveis…

Como fico a saber da irmã morte? Soube lendo os jornais e revistas… não contei nem falei com ninguém. «Escrevinho». Silêncio da fala. Falo do morrer do meu tio paterno, JOSÉ – leitor crónico da Bíblia -, minado, lentamente, pela doença de Parkinson, e da excelência dos cuidados continuados prestados. Aproximar-me da Família. A pureza da impotência. Visito-o acompanhado e só (não sozinho, mas procurando rezar o morrer). Falar do Silêncio. Mesma coisa sendo a diferença da Diferença: dom do Espírito Santo!

Ando de luto. Cansado do luto. Mas luto branco.

Não gosto de fazer contas aos anos em cima da morte. Ela ganha sempre. Gostaria de contar sobre a Ressurreição, mas não sei como o fazer. Estou empatado. Apenas quero guardar a Memória dos atos de Vida Eterna. Só pode ser desse modo…

Hoje, em assunto sério de vida comunitária, mudei de posição. As mudanças mais profundas: são mais lentas. A Morte apressou-me nas decisões. Termino derrotado. A paráfrase favorita de tão involuntária: De derrota em derrota até à vitória final.

Dos três o que mais li, e de quem “tenho mais” livros, bem dentro de mim, é: Rubem Alves. Muito desaprendi com ele. Fico a pensar e a rezar um texto seu. Do meu tio guardo a melhor recordação possível. A redenção da genética.

O céu será uma biblioteca sem horas para ler a vida como agora?

Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação/Carmo, CDJP, 27-07-2014, caracteres (incl. esp), 1715

***   ***   ***

“Sobre o morrer” – Rubem Alves

Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam.

 Quero tempo para escrever o meu haikai

“NINGUÉM QUER morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao paraíso. Mas a morte é o destino de todos nós.” (Steve Jobs)

Odeio a ideia de morte repentina, embora todos achem que é a melhor. Discordo. Tremo ao pensar que o jaguar negro possa estar à espreita na próxima esquina. Não quero que seja súbita. Quero tempo para escrever o meu haikai.

Mallarmé tinha o sonho de escrever um livro com uma palavra só. Achei-o louco. Depois compreendi. Para escrever um livro assim, de uma palavra só, seria preciso ter-se tornado sábio, infinitamente sábio. Tão sábio que soubesse qual é a última palavra, aquela que permanece solitária depois que todas as outras se calaram. Mas isso é coisa que só a Morte ensina. Mallarmé certamente era seu discípulo.

O último haikai é isto: o esforço supremo para dizer a beleza simples da vida que se vai. Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Se me disserem que ainda me restam dez anos, continuarei a ser tolo, mosca agitada na teia das medíocres, mesquinhas rotinas do cotidiano. Mas se só me restam seis meses, então tudo se torna repentinamente puro e luminoso. Os não essenciais se despregam do corpo, como escamas inúteis.

A Morte me informa sobre o que realmente importa. Me daria ao luxo de escolher as pessoas com quem conversar. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Perante a morte tudo é desculpável… Creio que não mais leria prosa. Com algumas exceções: Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa. Todos eles foram aprendizes da mesma mestra. E certo que não perderia um segundo com filosofia. E me dedicaria à poesia com uma volúpia que até hoje não me permiti. Porque a poesia pertence ao clima de verdade e encanto que a Morte instaura. E ouviria mais Bach e Beethoven. Além de usar meu tempo no prazer de cuidar do meu jardim…

Curioso que a Morte nada tenha a dizer sobre si mesma. Quem sabe sobre a Morte são os vivos. A Morte, ao contrário, só fala sobre a Vida, e depois do seu olhar tudo fica com aquele ar de “ausência que se demora, uma despedida pronta a cumprir-se” (Cecília Meireles). E ela nos faz sempre a mesma pergunta: “Afinal, que é que você está esperando?” Como dizia o bruxo D. Juan ao seu aprendiz:

“A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir que tudo vai de mal a pior e que você está a ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua Morte e pergunte-lhe se isso é verdade.

Sua Morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa fora do seu toque… Sua Morte o encarará e lhe dirá: ‘Ainda não o toquei…'”

E o feiticeiro concluiu: “Um de nós tem de mudar, e rápido. Um de nós tem de aprender que a Morte é caçadora, e está sempre à nossa esquerda. Um de nós tem de aceitar o conselho da Morte e abandonar a maldita mesquinharia que acompanha os homens que vivem suas vidas como se a Morte não os fosse tocar nunca”.

Às vezes ela chega perto demais, o susto é infinito, e até deixa no corpo marcas de sua passagem. Mas se tivermos coragem para a olharmos de frente é certo que ficaremos sábios e a vida ganhará simplicidade e a beleza de um haikai”.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1810201104.htm,

acesso: 27-07-2014.

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