«Decide-te», isto é, do elogio da Fé, como remédio (ganho de emenda) e não anestesia (perda de sensibilidade)» – Reflexões: Ano A – IVº Quaresma – Jo 9, 1.6-9.13-17.34-38 (forma breve).

«Decide-te», isto é, do elogio da Fé, como remédio (ganho de emenda) e não anestesia (perda de sensibilidade)».

Reflexões: Ano A – IVº Quaresma – Jo 9, 1.6-9.13-17.34-38 (forma breve).

“A chance maior do Cristianismo não virá de seu conteúdo doutrinal – ele mesmo maravilhoso -, nem da eficiência organizativa das atuais formas de Igreja, mas da maneira como as comunidades viverão os valores do futuro da humanidade: solidariedade, paz, convivialidade humana, esperança nas tribulações, fé-confiança no ser humano malgrado as terríveis decepções e perversidades”. J.B. Libânio, “Qual o futuro do cristianismo?”, Ed. Paulus, São Paulo, 2006, p.135.

[1.] Para começar, uma frase forte: todos nós nascemos cegos! Não só o cego do evangelho. Todos nós somos cegos de nascença, pois ninguém escapa de alguma cegueira.

Deveríamos não esquecer que o «pecado original», que a Igreja ensina de forma poética e simbólica, mas também existencial e real, para nossa Decisão Espiritual. Esse que é o Pecado Original, é uma “onda de maldade (iniquidade)” que atravessa toda a nossa origem, como humanidade, atingindo a todos nós. Não é pessimismo mas realidade crua, por vezes duríssima.

A cegueira, tal como é, é tanto a causa como a consequência de uma não-conformidade, de uma descoberta da nossa verdadeira natureza, através de uma recusa a ceder à visão autêntica.

[1.1.] Para os que são «superficialmente» cegos na Fé, a adaptação é a sua religião (pagã, entre outras possibilidades…); para os que são «profundamente» cegos na Fé, adaptação é o que os corrompe, e é experimentada com uma forma de insubmissão. Os profundamente cegos na Fé não deveriam trair o seu Desejo de ver; os superficialmente cegos na Fé acomodam-se no seu Desejo de ver às necessidades do ambiente.

Os superficialmente cegos na Fé são mais tranquilizadores porque se ajudam, a eles próprios e a quem os rodeia, a esquecer a verdadeira visão da Fé; e, porque em certa medida não são intimidados (no sentido de harmonia do ser interior), não são intimidantes.

Os que se sabem profundamente cegos na Fé, são todos extremamente conscientes ou inconscientes, – não há dificilmente possibilidade do meio-termo – da cegueira da Fé, mas procuram com ansiedade ou angústia, saber lidar com a falta de Fé; são impressionantes porque nunca se deixaram impressionar demais.

Os superficialmente cegos na Fé são ligeiramente cómicos, ao passo que os profundamente cegos na Fé são heróis trágicos, fiéis ao Fado, místicos e mártires (com ou sem sangue) querem sobreviver às provações todas.

Os superficialmente cegos na Fé tendem a nos convencer de que são produtos dos nossos ambientes míopes (…em terra de cegos, quem tem um olho é rei!?), afirmando que se dermos a todas as pessoas a criação e a educação certas: nós todos nos tornaremos bem ajustados.

Os que se sabem profundamente cegos na Fé, por outro lado, dizem-nos que somos sempre mais que os nossos ambientes; que há uma fonte de Luz dentro de nós – quer lhe chamemos gênio, força vital, dom, instinto, vocação – que excede o mundo tal como o encontramos, é à visão da Fé que devemos prestar a mais séria atenção, porque ela nos conduz, de uma maneira ou de outra, para o que verdadeiramente somos e seremos.

[1.2.] O que pensamos e rezamos na visão de Fé é, em palavras e sobretudo na obras, muito do que está dentro de nós e precisa de ser enviado a lavar-se na Fonte da Fé. Pergunta-se sobre a «DIFERENÇA» entre os superficialmente e os profundamente cegos na Fé. É a diferença, distinção que cabe à decisão da Fé. Muitas vezes não há. Somos ambos. Bipolares da Fé (cegueira)!? Mas Decisão é corte e rotura. «Decide-te», isto é, do elogio da Fé, como remédio (ganho de emenda) e não anestesia (perda de sensibilidade)».

Também por tudo «isto» que o evangelho – sobretudo com «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus» – somos todos “superficialmente” ou “profundamente” cegos, vamos construindo cegueiras ao longo da vida: cegueira biológica, sociológica, psicológica ou religiosa. A grande pergunta é esta: onde poderemos lavar os nossos olhos?

E disse: «Vai lavar-te à piscina de Siloé» (Siloé, quer dizer «Enviado»). O cego foi, lavou-se, e começou a ver.

Jesus Cristo oferece águas puras e cristalinas (-decide-te): «quem me segue terá a Luz da Vida!»

Oração: Olhar-me desde Ti.

Olha-me tu, Jesus de Nazaré

que eu sinta pousar-se sobre mim

teu olhar livre,

sem escravidão de sinagoga,

sem exigência que me ignorem,

sem a distância que congela,

sem a cobiça que me compre.

Que teu olhar se pouse

em meus sentidos,

e se filtre até os desvãos

inacessíveis onde te espera

meu eu desconhecido

semeado por ti desde meu início

e germine meu futuro

rompendo em silêncio

com o verde de suas folhas

a terra machucada que me sepulta

e que me nutre.

Deixa-me entrar dentro de ti,

para olhar-me desde ti,

e sentir que se dissolvem

tantos olhares

próprios e alheios

que me deformam e me rompem.

Benjamim Gonzalez Buelta

Por: Pedro José, CDJP, Gafanha da Nazaré/Encarnação/Carmo, 28-03-2014. Caracteres (incl. espaços): 4790. FONTES: Cfr. JB Libânio, “Um Outro Olhar”, Volume IX, pp. 61-63; cfr. http://www.ihu.unisinos.br/espiritualidade/comentario-evangelho/500085-quarto-domingo-de-quaresma-evangelho-de-joao-9-1-41, acesso 25-03-2014; cfr. PHILLIPS, Adam, Louco para ser normal, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2008, pp. 142-144.

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