O Eterno Pantera de “66”.

O Eterno Pantera de “66”.

“Se eu não fosse jogador da bola, era o maior bailarino do mundo”;

“O mais completo da história do futebol é o Dom Alfredo Di Stéfano” Eusébio.

“Ninguém ganha nada com essa loucura que faz com que o homem seja menino por um momento,  jogando como o menino que brinca com o balão de gás e como o gato brinca com o novelo de lã: bailarino que dança com uma bola leve como o balão que sobe ao ar o novelo que roda,  jogando sem saber que joga, sem motivo, sem relógio e sem juiz” – Eduardo Galeano.

 

 

 

Sobre como os comentários televisivos a quente sabem sempre a um prato de comida fria e indigesta. Nada a recomendar que já não soubéssemos. Mudar o nome do estádio!? É óbvio. Um minuto de silêncio ou uma hora… É óbvio. Ganhar o mundial no Brasil e dedicá-lo, no pós morte – nós que nos auto roubávamos no europeu à grega!? É óbvio. Como rebuçado supletivo e psicanalítico, voltar a mudar as camisolas da seleção para o modelo de “66”!? É óbvio. Tudo em Eusébio é óbvio. Menos o poema de Manuel Alegre que é profundamente patético, também, num sentido grego à moda latina!? E por último, em sentido grego, não é Eusébio um “mito”, ou um “herói de tragédia”. É apenas um ser humano genial. Que o soube expressar. É Eusébio que nos revela a nossa humanidade no húmus antropológico.

Sobre o que disse-sobre-si-mesmo. Futebolista sempre e antes de tudo. Ou, então, o maior bailarino de sempre. Nunca esquecer que “um penalti é só meio golo”. Isso sim é honestidade sem adjectivos que pervertem. Marcar e ir buscar a bola ao fundo da baliza. Nunca jogar contra o clube de eleição. Jogou doze jogos pelo Beira-Mar (cfr. CV, “Eusébio, jogador do Beira-Mar”, 8-1-2014) e nesse período “recusou-se” a jogar contra (única vez) o Benfica! Entre “o” Ronaldo e “o” Messi, podemos apenas ter a certeza de que os estilos são diferentes e nessa «Diferença» ambos são geniais. Quem percebe de futebol, percebe mesmo. Ele inventava o futebol com raça, arte, génio e sacrifício. Era um corpo endeusado pelo prazer de saber perder com fair play.

Sobre a antológica entrevista de MEC com Eusébio, que nos redime de todas as patranhas óbvias e requentadas, por favor voltar a consultar: http://www.publico.pt/multimedia/video/eusebio-e-miguel-esteves-cardoso-a-conversa-634675991503874156 acesso: 06-01-2014; e http://www.publico.pt/entrevista/jornal/hoje-sao-as-televisoes-que-mandam-no-futebol-ainda-bem-24201233#/0: acesso: 06-01-2014.

Sobre a paixão pela Vida e suas incontáveis maravilhas. Livros, vinhos, orações e flores, poemas e poetas, selos e pinturas, musicas e pássaros, golos e jogos, etc… vê-lo jogar era um êxtase, mesmo em “deferido” na RTP memória, a preto e branco ou reconstituído a cores é um bálsamos catártico para os nossos provisórios fracassos. Até ao dia mortal em que do Céu Eusébio meter ao estilo bem nosso uma “cunha” que acabe de vez com o nosso pé frio derrotista. “De derrota em derrota até à vitória no mundial!?” Nossa profecia-utopia vieirista. Alguns, ou até poucos, sabem ganhar. Raros são os que sabem perder mal bem! Eusébio sabia as duas por três muito bem, por essa ordem de razões (seu estilo era plural) era serviçal e mestre! Eusébio pertencia ao Povo!

Sobre o dia da sua morte (ironia de Deus, para quem se reconhecia católico: morrer na Epifânia do Senhor: outra Estrela nos guiará a nós no regresso como reis de anti magia…) – já nos tinha preparado insuficientes vezes, através dos seus sucessivos internamentos hospitalares, para ser menos dolorosa a nossa despedida agora: um gentleman! Mas amanhã será um dia muito triste… Todas as capas dos jornais desportivos e não só, terão luto branco. As exéquias serão terríveis. Ao marcar um derradeiro golo no Céu, nunca mais será esquecido nesta Terra, enquanto o futebol for celebrado. Ele que não “comercializava ou vendia” futebol. Ele que celebrava cada momento do jogo até com suor até ao sangue. Eis o sinal de que a sua chave de leitura, de vida inteira, pelo futebol: ultrapassou o próprio desporto. Amanhã, o seu jogo divino vai ajudar-nos a atravessar a vitória da Vida sobre a Morte. Segregava humildade e ela conquista-nos definitivamente para Deus. Bem-aventurado, já estava treinado!

Sobre o que fica por dizer, rever todos os seus jogos e imaginar o “resto” e ir relendo como guião da citada entrevista de MEC no Público, como um eterno presente: “A primeira coisa que se sente quando se fala com Eusébio é que ele já sabe, há muito tempo, qualquer coisa que ainda não aprendemos.

É imune à bajulação. Só responde ao sentimento. Os meus nervosos tiques de idolatria deixaram-no indiferente. Embaraçaram-no. (…) É impossível entrevistar um ídolo nosso. Apenas se assiste ao que ele diz. Ainda hoje não acredito que lá estive. Eusébio, felizmente, fala pelos cotovelos. Muda de tema e de velocidade com a mesma facilidade e elegância com que jogava futebol.

Não nos faz lembrar nada. É ele próprio a lembrança. Vive o presente com o mesmo amor que vive o passado. Ele sabe muito. Sempre soube muito. Não pode é dizer tudo de uma vez. São coisas a mais”.

Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação/Carmo, 06-01-2014.

Caracteres (esp.incl.): 4541.

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