Estas exéquias que fecundam: António Baltasar Marcelino (21-09-1930 / 09-10-2013)

Estas exéquias que fecundam:

António Baltasar Marcelino (21-09-1930 / 09-10-2013).

Todos morremos um dia assim. Não é bem assim. Creio que todos desejaríamos morrer com um só cêntimo de realização comparável ao bispo António Marcelino. Seríamos felizardos. Ora ele mostrou o segredo dessa vitalidade. «Ser um homem para os outros». Um “ícone vivo” à maneira do Concílio Vaticano II: um ser resoluto, um ser autónomo, um ser integrado, um ser teimoso e determinado, um ser lúcido e curativo, um ser sempre comunitário (onde se celebrará com a vida doada, o mistério pascal junto ao Povo, a partir do Povo). Ele era a mistagogia em acção, a contemplação no agir. Era tudo “isso” e vai continuar a ser dentro da nossa Memória e da Fidelidade, a partir da diocese onde fez sua a história da salvação.

Escolher conscientemente, sermos nós próprios, no individual e no comunitário, sem atropelos ou cisões. Resolutos, preocupamo-nos com o que somos e com o que fazemos. Devíamos ser assim. Resilientes, com a força da fragilidade humana e do fracasso da Cruz, construir as pontes sólidas e os oásis de Verdade para com todos. Eis o ser querer, o que Deus quer, para que todos queiram mais e melhor. “Quanto a mim, de bom grado darei o que tenho e dar-me-ei a mim mesmo totalmente, em vosso favor” (2Cor.12.15).

Um ser que lê e gosta de ler na tradição de St. Agostinho. Um ser que lê a Vida sem descanso. Lê com coragem e lucidez. Um ser que no passado (como memória que se enraíza), no presente (consciência que abre ao social) e no futuro (projecto sonhado por Deus) lia a intervenção e o silêncio de Deus. Entre nós foi uma das vozes mais credíveis e competentes na procura de concretização da Doutrina Social da Igreja: promovendo e defendendo os caminhos da Justiça e da Paz, exemplarmente, nos domínios da Educação, da Família e da Solidariedade Social. O que nós somos como Igreja em Aveiro, a nossa identidade, move-se num horizonte de Missão Jubilar (75 anos de restauração), cujo significado, neste presente ambíguo, perplexo e esperançoso na graça de Deus, liga-nos agora o nosso passado com o futuro, que a nós cabe continuar a construir.

A sua observação do Tempo era evangélica ainda que vivida na realização histórica. Configurava-se de leituras múltiplas e plurais. Conta-se de João XXIII que rezava a Deus pedindo a graça de livrá-lo de ler todos os jornais todos os dias. Ler jornais é uma arte[1]. Sua arte era exercitada, singularmente, na leitura e apreciação de entrevistas. Neste «instante» está a entrevistar Deus e a ser entrevistado pelo Seu Amor. Como a abelha que retira o pólen. Ele próprio produzia jornais como colunista de peso, de tal modo que as suas reflexões incisivas continuarão a ser preciosas. Não se duvide. As suas histórias começam agora na tradição oral afectiva. «Histórias de bispos existem muitas. Bispos que fizeram história há poucos». Nossos sorrisos evocativos serão sacramentais. Não é um bem menor é a lei da purificação ao serviço da Santidade.

 

Pe. Pedro José, CDJP e Paroquias: Gafanha da Nazaré/Encarnação/Carmo, 09-10-2013,caracteres (incl. esp), 3004.


 

[1] Cfr. LIBANIO, João Batista, Introdução à Vida Intelectual, Edições Loyola, São Paulo, 2001, p.250.

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