Annabel Oliveira: in memoriam

Annabel Oliveira: in memoriam

      Não foi uma só vez. Foram várias. Mas não foram muitas. Foram as suficientes para fazerem toda a diferença, em relação ao meu entendimento. O pedido vinha revestido da seriedade sacramental. A seriedade sacramental do “preciso de me confessar”. Idiota racional procurava pôr a “bola fora de jogo”. -Amigos não se confessam! Pode correr mal no aconselhamento imparcial. E Deus é ou não  imparcial!? – Não posso recusar a confissão consciente a ninguém.

A Doçura é em primeiro lugar um oásis, lugar de imprescindível paragem; uma paz sem contexto (como se isso fosse real); isto é, realmente desejada: é o contrário da crueldade, da agressividade, da violência… Paz interior, a única que se constitui em Virtude. Daí o desconcerto de não saber situar-me, o não dar a resposta tipo institucional, a plena confiança de que era entendido apesar de ser a mediação errada na circunstância providencial de Deus.

Assim sendo. Que é vestígio divino. O Amor não precisa da pureza, ou melhor o Amor é a única pureza que vale. Era assim a sua presença e as suas confidências, que tiravam a máscara que se cola à nossa virtude de impostura. Somos o que somos e não o que a ilusão e o fingimento nos pedem nas cedências egoísticas praticadas na primeira pessoa. Um mundo de sofrimentos assumidos na Redenção. O mistério da Redenção: no sim de não se fazer vítima, sem a possibilidade duma Cruz redentora. Aqui sou incapaz de avançar. Não tirei as minhas sandálias e banalizei o Dom sagrado que foi disposto diante de mim.

Doçura, pureza sempre renascida, voz e olhar que nos faziam descansar num mundo sem banalidades, um jeito de ser único sem rótulos, um misto daquela sensação de que falávamos sempre na presença de uma pessoa incapaz de mentir, ainda que fosse para o nosso maior Bem. Era assim na minha recordação de tantas coisas e confidências bondosas. Não quero falar no passado. O seu tempo é o futuro, uma vez que se adiantou na Eternidade. Que possa rogar por nós.

Diante de uma biografia incompleta rezamos com mais Fé. Falta-me essa Fé, para continuar a querer rezar com mais Fé ainda. Ainda não sou capaz de agradecer a morte prematura. A morte roubada e tirada, quando tudo ainda estava por fazer. Tudo por partilhar. Os livros (re)oferecidos; as canções com a guitarra afinada a jeito; as refeições feitas em simplicidade; a pronuncia só nossa. Sobretudo, a Fé sacramental nas estações próprias do calendário existencial. As amizades cultivadas assim com delicadeza e independência. A falta de quem nunca partiu do nosso meio. Até breve na Dor e na Espera.

Por: Pedro José, Gafanha da Encarnação / Nazaré, 30-06-2013.

Caracteres (esp.incl.): 2555.

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Apontamentos. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s