escrevinhar parabéns!

escrevinhar parabéns!

“Os 40 anos são uma idade terrível. É a idade em que nos tornamos aquilo que somos” – Charles Péguy.

No texto paradigmático que Pedro Mexia escreveu no Expresso (“Quarenta” – 01/12/2012) encontrei em parte uma lupa interior e noutra um farol para caminhar. As minhas leituras são muito diferentes das suas, embora tenha “confessado” o seu “quinto evangelista” com a leitura de “O Desespero Humano” de Kierkegaard (Expresso, 11/5/2013). E aí eu também parei de reler, lembro-me agora do quarto voltado para o claustro interior do Seminário de Coimbra, onde terminei a sua leitura. E como fiquei, tento relembrar, terrivelmente encantado de pessimismo activo! Nunca mais fui o mesmo. Mas depois foi e é a leitura de “El ser e el Teimpo” (infelizmente não em alemão) de Martin Heidegger[1], que marcou toda a minha pequena estrutura de Pensamento. Até hoje basicamente assim é. Com quarenta e um anos sou apenas pouco do pouco que li. Gosto de pensar e de escrever, gosto acima de tudo de Ler. E aprender a ler a Vida: «a vida também se lê». Não importa que seja ignorado ou lido, e por quem. Importa mais ajudar a ler a Vida a partir dos Outros. Em vez de padre deveria ser simplesmente leitor apenas. Tem sido assim o meu existir partilhado.

Por uma ordem de afectos e partilhas, o Dia da Peregrinação ao Túmulo, e à História Viva de Santa Joana Princesa, foi o melhor presente de aniversário que jamais tive! O coro de vozes, junto com a paroquiana que “fazia e alcançava” a maioridade dos 18 anos, sob o espectáculo da noite em rock batizado e surreal!? “Isso” e o caminhar lado a lado com as marinhas de sal inexistentes, como um anti-quixote-moderno, o panamá-verde-claro, em representação «bi-paroquial» exibido ao sol e durante o exercício de purificação da procissão solene: ver-e-ser-visto! Os compromissos vivem de símbolos. E agora uma transposição um pouco adulterada: “Aos 40 [e um] anos, vivo com “expectativas diminuídas”, diminutas, em diminuição. Já sei que não sou melhor nem pior do que os outros, sei ao milímetro aquilo que valho, sei perfeitamente que não vou deixar vestígio, que desapareço quando morrer a última pessoa que me conheceu. E nada disto é trágico”.

Não sei quanto tempo vou andar por aqui a «escrevinhar» – minha última dedução e intuição em jeito de meditação avulsa e não moda estilística ao sabor de leituras comerciais. Sei e quero assumir “aos 40 [e um], não compreendo esse medo de ficar sozinho, que me inquietava ainda aos 33. Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar. E há, digamos, dez pessoas de quem gosto [procuro amar imperfeitamente], dez pessoas sobre quem não me enganei, e dez pessoas é um mundo”.

Hoje dia após o meu aniversário (40 +1, ou 4.1 como as senhoras sem idade!?) deveria ser feriado nacional, dia 13 de Maio, dia do fenómeno de Fátima. O Milagre da Purificação e da Peregrinação. Vou continuar a celebrar com os meus amigos Idosos – são eles que fazem o dom de serem meus amigos – num santuário muito nosso. Vou continuar a celebrar uma Amizade tridentina com sabor aos trópicos. Sobretudo, continuar apostar na minha querida família de sangue, que me atura nas minhas idiossincrasias; apostar na minha família de companheiros em sacerdócio; e na minha família, de relações humanas e profissionais. Ser para os outros, ser um quase expropriado, e ser feliz na justiça de nada possuir para mim mesmo. Assim seja, e continue a Ser!

Por: Pedro José, Gafanha da Encarnação / Nazaré, 13-05-2013.

Caracteres (esp.incl.): 4361.


[1] “As principais correntes do modernismo e do pós-modernismo, como o existencialismo e a desconstrução, são volumosas notas de rodapé ao texto de Heidegger. Não haveria Sartre nem Merleau-Ponty não haveria Gadamer, nem Levinas, nem Derrida, nem Lacan, nem Deleuze sem Sein und Zeit, sem os ensinamentos de Heidegger sobre a natureza do pensamento ou as origens da arte. Apesar da resistência definitiva que oferece a qualquer leitura inocente, a prosa de Heidegger representa a maior reavaliação da língua alemã desde Lutero. Os próximos séculos reflectirão e debaterão sobre a sua doxa magnetizante” (p.206), “isto” que está transcrito e “tudo” o que a seguir escreve George Steiner, sobre a linha de adesão de Heidegger ao nazismo (suas mentiras e meias-verdades…) e sobretudo no seu relacionamento com Celan, na obra “A Poesia do Pensamento”, Relógio D´Água, 2012, pp.206-217, é de leitura essencial. Nada a acrescentar só reconhecimento.

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