Cristianismo em choque operativo: “deverás ser feliz” (parte II)

Cristianismo em choque operativo: “deverás ser feliz”

(parte II)

– ensaio brevíssimo (continuação) –

 1. Consciência vivida por inteiro. Na hora da despedida. Na hora do ocultamento. Na hora da (in)visibilidade porque hora, também, de transparência testemunhal. Novamente reafirmada a Consciência como a grande vitoriosa. Muitas leituras podem ser feitas mas sei e acredito que esta perdurará sem medo eclesial (já não digo eclesiástico). Consciência porque fidelidade à «Voz de Deus»[1], enquanto conversão interior, não intimista ou sectária. Nas palavras do próprio Bento XVI: “essa conversão implica voltar a colocar Deus em primeiro lugar. Tudo fica diferente depois. Implica ainda que busquemos de novo as palavras de Deus para as deixar brilhar como realidade na nossa própria vida. Temos, por assim dizer, de voltar a ousar a experiência com Deus, a fim de O deixarmos actuar na nossa sociedade[2].

 2. Oportunidade de sentir a renovação. A renovação verdadeira por uma decisão de Liberdade. Descobrir onde o Vento Sopra: ” (…) a partir do dia 28 de Fevereiro de 2013, às 20h (19h em Lisboa), a sede de Roma, a sede de S. Pedro vai ficar vaga (…)”. Na missa junto com o Povo de Deus, vou deixar de rezar a invocação: – Pelo nosso Papa Bento XVI – conhecendo-me sei, que ainda vai surgir vez por outra, o mesmo nome, ato falho memorável!? – isto acontece como uma morte programada e anunciada. Morte-em-vida. “Visão [vivência] mais cristã do tempo de Deus como não –Poder”[3]. Isto é: o cristianismo em estado quase puro. Penitência como purificação: Um só Desejo: Servir com Humildade, até ao Fim. Assim quando encaramos a Morte como Fidelidade á Vontade-de-Deus, a Morte deixa de ser inimiga mortal, mas passará a ser irmã em humanidade. Morre como Papa, continua Bispo e Cristão. Morte Pascal prenúncio de Ressurreição.

 3. Obrigado por ser como é. Não-querer-ser-como-todos-os-outros. Renúncia generosa ou a vida também se lê. Renunciou a uma vida anormal, para voltar á normalidade da Graça (…claro está/fica que nunca esteve fora dela!). Renunciou a horas mal dormidas, para ter horas de leitura e oração. Renunciou a não ter dias de folgas, para ter todas as folgas preenchidas com o Silêncio-de-Deus. Entretanto, porque sou muito daquilo que tive a oportunidade e dever de ler. Obrigado: pelas encíclicas, Deus caritas Est, pela Spe Salvi, e, sobretudo, pela encíclica social, Caritas in Veritate, esta ainda não li toda como deve ser, mas é um dos melhores textos sobre a globalização solidária. Obrigado: pelos três livros sobre “Jesus de Nazaré”, o primeiro li e reli, sublinhei e risquei, e continuará em mim na força da diferença-teológica-arrumada, confesso que quase li o número dois, “Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição”, e conto pegar nele, novamente, nesta Semana Santa; e paginei capítulos, com muito interesse, do volume sobre “A Infância de Jesus”, depois de todas as “imprecisões e crimes opinativos[4]” – mais uma vez e nunca a última – sobre o que o papa não escreveu no livro, a sua releitura impõe-se. Sobretudo, estou a ler “Introdução ao Cristianismo” uma verdadeira pérola teológica.

4. Tradição é sempre interpretação – “segundo a Escritura”[5]. Não há que ter medo do futuro. Terrível a leitura sociológica presente no neologismo «cristianofobia», como lição/moda pós-moderna, na espuma dos nossos dias stressados. O seu legado «ratzingeriano» contra a ditadura do relativismo é o antídoto necessário. O futuro a Deus pertence: isto se a responsabilidade humana, no presente, não for descartada. Não deverá haver votos marcados dentro/fora do Conclave (!?). A Fé é o bom combate, o papa emérito dentro da Tradição já o recordou: “como dizia santo Agostinho, a História mundial é uma luta entre dois tipos de amor: o amor por si próprio – até à destruição do mundo – e o amor pelo Outro – até à renúncia de si próprio. Esta luta, que sempre pudemos presenciar, também está a acontecer agora[6]. Mesmo dentro da eleição? Sim dentro eleição. Pois o papa não é votado, por Anjos…, por Mulheres.., mas por Homens, celibatários, com o ónus da nomeação de Cardeais-Eleitores, que sendo batizados, vão ser iluminados pelo Espírito Santo. Haja abertura e fidelidade aos Sinais dos Tempos. Apenas isto: «Se sou batizado, devo ser um convertido feliz». Que o novo Papa nos conduza à Bem-aventurança Evangélica!

Pedro José, CDJP, Gafanha da Nazaré/Encarnação, 27-02-2013, caracteres (incl. esp), 5718.

[1] “Poucos papas, salvo o angustiado Paulo VI, terão vivido tão literal mas também tão calmamente a banalizada “morte de Deus” na consciência contemporanea como Bento XVI”, LOURENÇO, Eduardo, “O peso da tiara abolida” in Público, 15-02-2013, p.47.

[2] BENTO XVI – Luz do mundo: Uma conversa com Peter Seewald, Lucerna, Cascais, 2010, p.69.

[3] “Depondo como quem descansa o peso da sua tiara virtualmente anacrónica e renunciando nela a uma “eternidade” inumana por uma outra visão mais cristã do tempo de Deus como não –Poder, o mais suave dos papas não dilacera a túnica sem costura do Cristo (há tantos séculos dialcerada). Restitui-lhe o sentido e o esplendor da única etenridade que conta aos olhos de um cristão. E que não é a de ouro e seu peso de sangue, nem glória e sua ilusão, mas a da consiência do seu nada no espelho do tempo mortal do nosso coração”, LOURENÇO, Eduardo, “O peso da tiara abolida”, in Público, 15-02-2013, p.47.

[4] Uma voz crítica para saber ler: MESSORI, Vittorio, “Ipotesi sul Papa. E sulla Chiesa che verrà” in Corriere della Sera, 17-02-2013. E no seu blog [http://www.et-et.it/] todo um manacial de artigos para saber ler, como exemplos: “Quella lettura politica che sfigura la Chiesa”; “Quel mio primo incontro con Ratzinger”; “l’eredità di Benedetto XVI è la fede”.

[5] Cfr. E.M. TERRA, João, S.J., Itinerário Teológico de Bento XVI, Editora Ave-Maria, São Paulo, 2006, p.74ss.

[6] BENTO XVI – Luz do mundo: Uma conversa com Peter Seewald, Lucerna, Cascais, 2010, p.65.

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