ENSAIO [3] – REAL, Miguel, “O sentimento do nada, a confiança e a esperança”, in Público, 4-1-2013, pp. 10-11.

 

ENSAIO [3] – REAL, Miguel, “O sentimento do nada, a confiança e a esperança”, in Público, 4-1-2013, pp 10-11.

O diagnóstico/prognóstico: O Sentimento do Nada. “O Nada – a não-esperança; a não-existência, contrária àquela que tínhamos previsto e para qual trabalhámos afanosamente; a não-importância ou a desqualificação atribuída ao nosso trabalho; o não-futuro, impossibilitado pelo arrastamento de situações constrangedoras do presente; o não-ser, reduzidos a um avida insignificante, sem possibilidade de realização – impregnou a nossa vida, devorou a nossa auto-estima, assolou o papel que desempenhávamos na família, no trabalho, na colectividade de recreio, somos agora vistos como mais um, um daqueles que, inútil, deve emigrar, que falhou a vida por não ter sido oportunista, carreirista, bajulador, serviçal, verdadeiramente por não ter tido suficiente esperteza para se inscrever num partido político e se encontrar agora imune ao assalto colectivo que o Estado faz à carteira e à alma do cidadão” (p.10).

O Princípio da Confiança “(…) Quebrou-se o Princípio da Confiança que vinculava o cidadão ao Estado, instituição garantidora do bem comum. (…)[Insiste uma segunda vez…] Quebrou-se o Princípio da Confiança, vínculo ético da representação política entre o cidadão e o Estado. Instalou-se a regra da desconfiança de cada um sobre todos, conduzindo a uma permanente mas surda guerra civil de todos contra todos, vencendo sempre os oportunistas e os carreiristas, sem valores morais sólidos” (p.11).

O Princípio da Esperança “(…) Opera-se hoje, em Portugal, uma autêntica mutação de valores – da modéstia e da abnegação transitou-se para a soberba e a arrogância; da solidariedade para o egoísmo narcisíaco; dos valores da cooperação para os valores ligados à ganância, à avidez, à cobiça, ser superior ao outro, humilhando-o pela ostentação do carro, da vivenda, da piscina; da sobriedade para luxúria, apregoada como valor benéfico pela televisão; do bem espiritual como supremo valor gregário para o bem económico como manifestação de poder e riqueza. O Princípio da Esperança, motor de trabalho e iniciativa, motor de mobilidade e igualdade social, de equidade na distribuição da riqueza colectiva, quebrou-se, deixando assim o português sentado à porta de um país sonâmbulo, perscrutando um horizonte vazio de confiança e de esperança, sentindo estalar no peito o aterrorizador Sentimento do Nada” (p.11)

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