Ainda ontem (sobre a recusa de MEC): baptismo, o compromisso com o futuro – Reflexões: Ano C – Baptismo do Senhor, Lc 3,15-16.21-22.

Ainda ontem (sobre a recusa de MEC):

baptismo, o compromisso com o futuro.

Reflexões: Ano C – Baptismo do Senhor, Lc 3,15-16.21-22

 Disposição 1. – Jesus assumiu-nos com o «sinal» das águas: um baptimo sem a «culpa original[1]».

O relato do baptismo narrado por Lucas faz referência a uma experiência muito importante na vida de Jesus.

Nós seres humanos somos carregados de Culpa (veja-se a força – sem exagero – de Freud e depois dele de todos os psicanalistas…). Em nós e em tudo o que nos rodeia queremos a libertação da culpabilidade.

Este é o cenário, enquanto contexto vital, do baptismo-enquanto-fonte-de-purificação. É na pia baptismal de toda e qualquer Igreja Matriz (…Mãe-que-dá-a-Fé. Infelizmente não estaremos conscientes desta experiência). Jesus ao entrar na fila, ao entrar nas águas, realiza essa experiência fundamental, para nós (e por nós). Ele não precisava agir assim, mas agiu.

Disposição 2. –“Ser batizado é mais importante do que ganhar o euromilhões, porque o dinheiro deste prémio, apesar de me ser entregue em mão, não o posso levar comigo quando morrer. O Batismo, pelo contrário, ninguém mo tira, nem mesmo na morte. O meu Batismo, o facto de ser “um filho de Deus”, é algo que levo comigo para a vida eterna. O batismo é um grande presente, um grande tesouro! Quem já compreendeu a grandeza que é pertencer às pessoas mais ricas da Terra, só pode sentir contentamento interior e viver daí em diante num estado de perfeita alegria.

O Batismo garante ao Homem a vida eterna, mas representa sobretudo o amor. O amor em que a alma é mergulhada. Um amor que liberta, que redime e que perdoa.

No Batismo, Deus dá ao Homem a garantia de que estará sempre a seu lado. Através do Batismo, Deus sublinha o valor do Homem. O amor de Deus nunca acaba, independentemente do que o Homem faz com a sua vida. Mas o que o Homem faz com esse amor depende inteiramente dele.

As coisas mais importantes da vida não são as que nós próprios vamos buscar, mas sim aquelas que nos são oferecidas”.

(in YOUCAT – Agenda 2013, organizado por Pe. Norbert Fink, Paulus Editora, Lisboa, 2012, p.22).

 Disposição 3. – Oração – Façamos deste poema a nossa oração neste dia tão especial, para assim sermos renovados no nosso serviço aos nossos irmãos:

Batiza meus sentidos

Não amanheças, Senhor,

que ainda meus olhos

não aprenderam a ver-te

no meio da noite.

Não me fales, Senhor,

que ainda meus ouvidos

não logram te escutar

nos barulhos da vida.

Não me abraces, Senhor,

que ainda meu corpo

não percebe tua pele

nos abraços e na brisa.

Não me adociques Senhor,

que ainda minha garganta

não saboreia tua ternura,

no meio do amargo.

Não me perfumes, Senhor,

que ainda meu olfato

não cheira tua presença

no meio da miséria.

Batiza meus sentidos

com o lento decorrer

de tua graça encarnada,

fluindo por meu corpo.

Benjamin Gonzalez Buelta, sj.

Por: Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação, 14-01-2013. Caracteres (esp.incl. com notas): 5970.

 


[1] Para mim foi acutilante, no «pensar à margem e pela margem», a crónica “Ainda ontem – Para o Antoninho”, de Miguel Esteves Cardoso, a propósito do batismo do seu primeiro neto. Transcrevo três parágrafos exemplares: (1) “Hoje vai ser batizado. Eu cá não acredito no baptismo nem que se nasça com um pecado que, de original, não tem nada. Mas os pais acreditam e muito boa gente acredita, a começar pela mãe dele e a irmã dela (as minhas filhas, Tristana e Sara), que quiseram ser batizadas com treze anos.
      (2) Foi a minha querida mãe que foi ter com o maravilhoso e abençoado António Ribeiro, então cardeal-patriarca de Lisboa (e responsável pela melhor tradução da Bíblia até à altura), para conseguir que ambas fossem baptizadas.
      (3) Eu cá, não obstante ter sido baptizado, tornei-me judeu e não acredito que se nasça culpado de um único pecado que seja: original ou não”. In Público, 13-01-2013, p.53.
Neste relato biográfico temos de “tudo”. Apenas uma ponderação, sendo MEC judeu – tornou-se, ainda por cima enquanto livre pensador -, não foi coisa “herdada”, como é possível deitar no lixo o paradigma hermenêutico da «culpa» judaica!? Faço algumas “sugestões” de leitura para aprofundamento a MEC e a todos, acreditem ou não, se identificam com a sua argumentação: (1) “(…)a doutrina do pecado original, na qual se fala de uma condição originante (desde que o homem é homem, desde que é posto na condição histórica) e originada (cada homem que nasce traz essa marca indelével) afirma, fundamentalmente, que o pecado não tem origem em Deus, nem em cada um de nós: é transcendente a cada homem, mas inferior a Deus. Pensar as coisas de outro modo teria de significar uma de duas coisas: ou que o mal era criado por cada homem, o que é um absurdo. O «mistério da iniquidade» submerge o homem ao ponto de lhe desafiar a liberdade! Ou, então, que Deus seria o criador simultâneo do bem e do mal, o que não seria absurdo menor. A doutrina do pecado original é, neste quadro, a salvaguardar do justo equilíbrio entre os dois absurdos, salvaguardando, ainda, a universalidade da salvação trazida, de uma vez por todas, por Jesus Cristo. Assim saibamos lê-la e interpretá-la com linguagem dos novos tempos”, cfr. Luís SILVA, “Ainda tem sentido falar do pecado original se afinal descendemos de primatas?” in CV, 12-12-2012, p.17. E ainda, (1.1.) “é importante verificar que, ao considerar que o pecado original originado é «morte da alma» está a dissociar-se esta condição da morte física. A teologia é, hoje, unânime em considerar que a morte que se origina com o pecado original não é a física, mas a eterna. Assim, compreende-se, por um lado, que esta é uma condição universal, e, desta universalidade da pecaminosidade resulta, também, a universalidade da salvação oferecida por Jesus Cristo”, cfr. Luís SILVA, ”De que falamos ao dizer “pecado original”? (1.ª parte)” in CV, 18-01-2013, p.18. Outra leitura fundamental é: MORANO, Carlos Domínguez, Crer depois de Freud, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2003 [Original: 1992], pp.342. Esta obra faz a reconciliação entre a experiência psicanalítica e a experiência da fé, aplicando a esta o que de mais válido se encontra no texto freudiano. Temas abordados: oração, imagem de Deus, culpa, pecado e salvação, sexo, dinheiro e poder.
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