O que devemos (poder) fazer? Reflexões: Ano C – IIIº Dom. Advento, Lc 3, 10-18

O que devemos (poder) fazer?

Reflexões: Ano C – IIIº Dom. Advento, Lc 3, 10-18

Disposição 1. – No evangelho de Lucas, João Batista não propõe exercícios de penitência, jejum, nem sacrifícios. Mais do que “isso”. A conversão é apresentada como uma mudança no estilo de vida, para assim construirmos um mundo novo.

Três vezes aparece no texto de Lucas a pergunta: “Que devemos fazer?” A mesma interrogação que faziam os catecúmenos para iniciar a preparação para o batismo. Eis os encaminhamentos de resposta (…não há soluções, há caminhos…).

A primeira: “Quem tiver duas túnicas, reparta [dê] com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos [comida], faça o mesmo!”.

NO CONCRETO (o que é (im)possível): Um estudo pioneiro do “PERDA” – Projecto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar (cfr. http//perda.cestras.org/), chegou  a uma conclusão chocante em tempo de crise: em Portugal vão parar ao lixo um milhão de toneladas de alimentos por ano ao longo da cadeia de aprovisionamento, isto é, da produção ao processamento industrial, à distribuição e ao consumo. O mesmo estudo diz-nos, ainda, que nas causas de desperdício na parte do consumo, nós os consumidores, estão: passagem do prazo, armazenamento inadequado, perdas no prato[1].

Diante desta notícia (a tal “boa nova”), apelo do Batista, para a partilha. Não vemos nada de gigantesco. As relações de partilha denunciam uma sociedade baseada na ganância e acúmulo de bens, em detrimento dos desfavorecidos. Por isso é válido perguntar-nos: pessoal e comunitariamente, estou disposto/a a construir relações de partilha?

A segunda: “Não exijais nada além do que vos foi prescrito”. João está dirigir-se aos cobradores de impostos, que, no tempo de Jesus, exploravam o povo, enriquecendo fácil e ilicitamente.

NO CONCRETO (o que é (im)possível): não deve haver exploração[2], não se deve subornar, devemos lutar contra a corrupção (cfr. A tentativa ou não, recente, de “saneamento mediático” do comentador Medina Carreira), mas cobrar o justo, o que é honesto. Falar e fazer a verdade.

Não estaremos diante de outros cobradores de impostos, agentes de injustiça deste século?

 A terceira: “Não pratiqueis violência com ninguém; nem denuncieis injustamente [acusações falsas] e contentai-vos com o vosso salário”. Os soldados eram aqueles que acompanhavam aos cobradores de impostos e faziam uso de seu poder para roubar o povo.

NO CONCRETO (o que é (im)possível): As nossas relações são de poder ou de serviço[3]? Hoje, estou sem mais «ministério…para dar…». Presidi a um funeral, poucas mas significativas presenças, -a mãe em cadeira de rodas – de uma senhora, vítima de violência doméstica, da parte do “companheiro” (!?). É gritante o abuso da violência mortífera máscula!? As notícias que abrem os jornais da TV entram no meu «simples» ministério… Outra violência no cartório: não ter ninguém que ouça o coração a falar… Estando perto do Natal, deixemos-nos converter pelo evangelho de hoje. Será o melhor presépio que poderemos oferecer a Jesus!

Oração

A face de Deus é vespas

Queremos ser felizes.

Felizes como os flagelados da cheia,

que perderam tudo

e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:

“Graças a Deus, podia ser pior!”

Ó Deus, podemos gemer sem culpa?

Desde toda a vida a tristeza me acena,

o pecado contra Vosso Espírito

que é espírito de alegria e coragem.

Acho bela a vida e choro

porque a vida é triste,

incruenta paixão servida de seringas,

comprimidos minúsculos e dietas.

Eu não sei quem sou.

Sem me sentir banida, experimento degredo.

Mas não recuso os marimbondos, armando suas caixas

porque são alegres como posso ser,

são dádivas,

mistérios cuja resposta agora é só uma luz,

a pacífica luz das coisas instintivas.

Adélia Prado (in Poesia reunida, São Paulo, Siciliano, 1991).

Por:Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação, 14-12-2012.Caracteres (esp.incl.): 3657. FONTE(principal): Cfr. http://www.ihu.unisinos.br/espiritualidade/comentario-evangelho/500026-terceiro-domingo-de-advento-evangelho-de-lucas-3-10-18, acesso, 14-12-2012.


[1]“O porta-voz da Conferência Episcopal, o padre Manuel Morujão, sublinhou que em Portugal existem já boas iniciativas de combate ao desperdício, nomeadamente nos restaurantes, defendendo o reforço do investimento nesta área. “Há já belas iniciativas daqueles que recorrem a restaurantes e outras casas de alimentação para darem depois [as sobras] a obras de assistência social, cantinas, refeitórios sociais e, muitas vezes, levando a alimentação à casa das pessoas que são conhecidas como tendo necessidades alimentares”, disse. “É uma frente de batalha em que é preciso investir para que haja menos desperdícios e que mais pessoas sintam que na sua mesa não falta o pão de cada dia. É uma questão de estrita justiça social[…]as questões de alimentação são questões sobrevivência e do mínimo de dignidade humana que devem ter todos”, acrescentou”.
(Ler mais: http://expresso.sapo.pt/desperdicio-alimentar-e-crime-contra-quem-passa-mal=f772488#ixzz2F2LwsJKA).
[2]Como o fez Muhammad Yunus, Prêmio Nobel de Economia do ano 2006, que criou o Grameen Bank, garantindo por 30 anos empréstimos aos pobres, em particular às mulheres, tornando possível a abertura de novas empresas como forma de sair da miséria por meio de seu próprio trabalho. O Grameen Bank é um dos exemplos mais importantes de sucesso em auxílio ao desenvolvimento. Criou um modelo de microcrédito que está sendo copiado em todo o mundo. Este exemplo mostra como outro mundo é possível! (Ler mais: http//www.ihu.unisinos.br/espiritualidade/comentario-evangelho/500026-terceiro-domingo-de-advento-evangelho-de-lucas-3-10-18 ).
 
[3]Cfr As indicações aos comentários, por exemplo básico, do excelente Blog “De Rerum Natura”: http//dererummundi.blogspot.pt:  1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome. 2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem “manda bocas”. 3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.
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