Apontamento ao ler “Nenhum Caminho será Longo”

Numa passagem, do livro “Nenhum Caminho será Longo”, de José Tolentino Mendonça (Ed. Paulinas, 32012), encontrei pontos de reflexão sobre a ingrata realidade «tecnológica» do «facebook» «enquanto problema amistoso»:

«Ó amigos, não existem amigos» é um mote enigmático que a tradição atribui a Aristóteles: ao mesmo tempo que parece invocar a amizade («Ó amigos») parece também negá-la («não existem amigos»). Este mote surge já trabalhado, por exemplo, em Montaigne e em Nietzsche, que o teriam retirado de um capítulo dedicado à biografia de Aristóteles, assinada por Diógenes Laercio. E esse mote servirá também a Jacques Derrida para escrever a sua obra Políticas da Amizade.

Há uma história curiosa que vem contada por um filósofo amigo de Derrida, o italiano Giorgio Agamben. Este conta que, quando Derrida estava ainda a organizar o seminário académico que daria origem ao livro, discutiam longamente um problema filológico ligado à frase. Investigando em várias edições, Agamben conseguiu reconstruir a história e perceber que o mote enigmático tinha afinal sido criado pelo erro de um copista. Em vez de «ó amigos, não existem amigos» o original seria: «aquele que tem (muitos) amigos, não tem nenhum amigo.» Agamben informou imediatamente Derrida da sua descoberta, e foi com estupefação que, quando leu o livro Políticas da Amizade, não encontrou qualquer referência ao diálogo deles. E não foi por esquecimento que Derrida continuou a utilizar a versão «Ó amigos, não existem amigos»: para a estratégia da sua reflexão era essencial que a amizade fosse, ao mesmo tempo, afirmada e posta em causa. Esse é realmente o contributo que presta, questionando a centralidade que o paradigma da fraternidade ocupa nos grandes discursos da amizade” (pp.49-50).

O «facebook» é mais um dos “sinal dos tempos” que, nestas nas duas versões críticas do mote atribuído a Aristóteles, encontra um crivo qualitativo necessário à própria amizade no tempo vivido “pós-facebook”. Penso, sobretudo, nos malefícios mais inconscientes (os benefícios serão também evidentes…). Os amigos existiam antes e existirão depois. Não existem “só-porque-estão-lá-identificados”.

Não se trata apenas de qualidade versus quantidade; mas, sobretudo, de privacidade versus publicidade, intimidade versus exterioridade. Não estão, sobretudo, «on-line», mas encontram-se, também, na sombra enquanto intervalo de visibilidade. Aí nesse espaço opaco e oculto, a amizade também cresce e se consolida sobremaneira.

 

Pedro José, Gafanhas da Nazaré e Encarnação, 21-11-2012, caracteres (incl. esp) 2478.

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9 respostas a Apontamento ao ler “Nenhum Caminho será Longo”

  1. joana diz:

    ESTE LIVRO É RELMENTE LINDO

  2. são andré diz:

    não há livros perfeitos,
    mas este é quase perfeito
    são andré

  3. catarina diz:

    já li é um fenomeno

  4. amélia dias diz:

    VI NUMA LIVRARIA QUE JÁ VAI NA 5ª EDIÇÃO, EM APENAS 3 MESES
    AMÉLIA

  5. Catarina diz:

    «Viver como amigo é mais importante
    do descrever o que um amigo é».
    José Tolentino Mendonça, in Nenhum caminho será longo

  6. joana diz:

    «A amaizade é o acolhimento de um intervalo puro que,
    de mim a esse outro que é um amigo,
    mensura tudo o que há entre nós.»
    José Tolentino Mendonça, in Nenhum Caminho Será Longo

  7. catarina ramos diz:

    é o melhor livro de sempre sobre o tema… um verdadeiro tratado sobre a amizade… grande tolentino
    parabéns, deliciei-me a ler este livro
    catarina

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