Sentido lúdico e salvação cristã

Sentido lúdico e salvação cristã

       A Fé anuncia um tipo de Vida que nos dispõe na ordem da Eternidade. Não no puro momento presente, fechado e «já gasto». Este é o divisor de águas, a «Eternidade»: não águas normas, mas “agitadas” e “salgadas”, que temperam o nosso gosto de viver juntos. A salvação consiste na meta da eternidade. A eternidade oferece vida que não se desgasta, porque não fica presa aos sentidos. “Estamos nas mãos de Deus”. Caminhamos para o Absoluto, dentro do relativo, e não o contrário (cfr. 1Cor 2,9; 13,9-12).

       As alegrias, os prazeres, as felicidades dos sentidos corroem-se e pedem um fim a curto prazo. Alguém «adora» sair/ir de férias. Depois de um tempo, fica «eufórico» para que aconteça o regresso. Os alunos aventuram-se, prodigamente, quando terminam etapas – intermédias, até de modo excessivamente precoce, ou de modo radical, no fim do curso. Mas rapidamente desejam (“para suplício” dos pais…) o recomeço das aulas. As pessoas deixam felizes o «seu» trabalho [– E quem não (pode) goza(r) férias !?]. E logo regressam nostálgicas ao local de onde «fugiram» (cuidemos do desemprego por carta registrada…).

         Enfim, esgotemos qualquer prazer dos sentidos, e logo veremos como o enjoo é o resultado final. Acontecerá o mesmo, nas afetividades humanas. Por mais deliciosa e digna que seja uma visita/passeio/peregrinação/spa e refúgios privados e coletivos, etc… Ficamos ansiosos para que tudo se vá…; medo do esgotamento…; para voltarmos nós próprios a partir. Solidão imposta.

        A sucessão interminável dos pequenos prazeres e felicidades não nos podem enganar. Por isso, nenhuma promessa de salvação que se enraíza apenas no prazer do corpo (ou apenas, no prazer do espírito, mais raro de encontrar…) aqui nesta Terra, de modo «mundano»; consegue convencer-nos e cativar-nos definitivamente.

       Eis o imenso paradoxo da felicidade. Seremos felizes, sem sol e com chuva, numa praia dourada; felizes perto de uma cama de hospital, com olheiras postas no ser querido, perante o crepúsculo da vida; no suor dos dias gastos, degustando o Silêncio, em voluntariado e anonimato, entre culturas, projetos e gestos alternativos, Etc.

        Só seremos felizes aos pedaços, entregues sem preço, generosos e livres, misturados com momentos de infelicidade. Não podemos viver empanturrados! A salvação cristã, nela está também o sentido lúdico da felicidade cristã, desdobra-se em tudo e para todos; não acumula para si própria.

        Enquanto caminhamos, perplexos e a medo, experimentamos uma «pastoral discricional», isto é, que não se reclama como «norma» obrigatória, por si mesma sem mais explicações; para apostar num serviço que passará, cada vez mais, a ser discernido, em conjunto, não apenas na base do usuário (como no exemplo, de quem contrata o “serviço-de-autocarro”, em função do «belo prazer» dos viajantes; sem ter em consideração o «destino/finalidade» da própria viagem, isto é, a Salvação…), enquanto crente «consumidor», e também, «consumido». Dispõe-se a exigência e a dinâmica do «serviço comunitário»; a própria Comunidade assume-se como entidade «reguladora», de modo livre e prudente, mas criativo, respondendo aos desafios do presente. Nas nossas programações (pastorais ou outras…) dentro e para além das férias.

      Será para nosso bem pensarmos, um pouco, nisto tudo, sem a pressão do relógio.

Pedro José, Gafanhas da Nazaré/Encarnação, 31-07-2012, caracteres (incl. esp), 3280.

In Timoneiro, nº647, Agosto, 2012, p.12.

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Não categorizado. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s