Levantar o Céu: os labirintos da Sabedoria – José Mattoso

“Levantar o Céu: os labirintos da Sabedoria”.

Autor: José Mattoso, Editora Temas e Debates/Círculo de Leitores, Maia, Ano 2012, pp. 290, Preço: 16,60 €, ISBN 978-989-644-189-0.

 

         1. Uma conversa de igual para igual – Tenho para mim que um bom livro e um livro bom (sabemos a diferença…) – a obra em causa é ambas as coisas – remete-nos, sempre, para outras obras «boas», já lidas, ou que constam da infinita lista de obras a ler e reler. É a teoria do «contágio positivo» (pense-se na ironia: “alguém plagia autor vivo, o ato constitui prova de delinquência moral, mas se o plagiado já está morto, tudo passa a ser apenas um sinal de erudição”), da associação de ideias e afetos; da sintonia nos argumentos e memórias, etc. Ao ler esta obra-prima, como alguém sintetizou em termos de «Testamento Espiritual», recordei-me que li, penso que em 2007, e anotei de trás para frente e de cima para baixo… a obra excecional, na versão brasileira: Harold, Bloom, Onde encontrar a sabedoria?, tradução de José Roberto O´Shea, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2005, pp.319 [Temos, também, em português nacional, Onde Está a Sabedoria?, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio de Água, 2008, sempre em “atraso”, no caso “só” 3 anos…]. Ao ler, agora, José Mattoso, num dos seus ensaios (um dos melhores de toda a compilação, existencial e académica, senão o melhor…): “Onde está a sabedoria medieval?” (pp.125-145), encontrei a resposta/diálogo credenciado a Harold Bloom, de igual para igual, no sentido de que a «conversa» não chegou ainda a iniciar-se. Fala sobre os exemplos de “(…) Anselmo de Cantuária, Bernardo de Claraval e Boaventura de Bagnoregio. Um beneditino do século XI, um cisterciense do século XII e um franciscano do século XIII” (p.136). Concluiu, sem polémicas desnecessárias, de forma magistral: “Paradoxalmente, também, é o mais poético dos sábios medievais, Francisco de Assis, aquele mais ama as criaturas e menos sabe de filosofia. Nesse sentido é também ele que mais contribui para considerar a realidade deste mundo em si mesma, embora receba de Deus o que nela há de bom. Contribui, portanto, para libertar a conceção do mundo da interpretação platónica. Neste sentido, abre também o caminho ao humanismo, cristão e não cristão. Ou seja, abre também o caminho a Cervantes, Shakespeare e Montaigne” (p.145). E ainda a finalizar volta à carga: “Não conseguiremos nunca responder à pergunta de Harold Bloom. Mas, tal como ele, ouvimos a sua voz […Mattoso comenta o Vento, cfr. Jo 3,8]. Em muitas bocas, em muitos lugares, de muitas maneiras. Saberemos o que nos quer dizer?”(p.273).

         2. A sabedoria em estado bruto e de modo suave – Apontamos o epicentro da meditação que toca com mestria o amadurecimento primordial: “De facto, a sabedoria não é uma moral, um método, uma estratégia, um sistema. Não está só no pensamento. Pode inspirar a palavra, mas não fica encerrada nela. Não explica nada, pratica-se. Não demonstra nenhuma doutrina, tem de ser achada quando se remove o que a esconde. Se lhe falta a experiência, o envolvimento pessoal, pode-se apresentar como um ideal, uma necessidade, o melhor caminho, ou até a salvação, mas perde o poder persuasivo, a força comunicativa, a eficácia. Por isso há sempre nela qualquer coisa de inesperado, como no tesouro encontrado no campo, ou na minúscula semente que dá uma árvore grande. A sabedoria tem sempre uma história: resulta de um encontro e implica uma transformação. Nasce de um acontecimento e revela-se por meio da expressão poética. Não depende da lógica, cuja verdade já está contida nas premissas. A sua linguagem própria é a do símbolo e da analogia. Escapa a todas as classificações” (pp.130-131); “Com efeito, a sabedoria não é uma doutrina, nem uma moral. É uma práxis. Não aplica uma teoria única; concretiza teorias diferentes ou até inconciliáveis” (p.133).

  3. Algumas máximas sábias em jeito avulso:

       ·  “A sabedoria é, pois, o resultado de uma experiência, não de raciocínio. Vê-se o invisível, ouve-se o silêncio” (p.274).

       · “A sabedoria rejeita, pois, o que é passageiro, vulgar e aparente. Considera só o essencial e o universal. Não descreve nem informa, não pretende ser completa, não racionaliza, não analisa, não explica. Ilumina, abre portas e janelas, comunica, convida, partilha, revela, incendeia, surpreende” (pp.126-127).

      · “Somos todos responsáveis. Pertencemos todos à família humana embora nem todos tenhamos as mesmas obrigações” (p.105).

           · “Aquilo que não podemos resolver sozinhos pode talvez resolver-se com a cooperação de mais alguns” (p.73).

         · “A História revela-nos o abismo sem fundo da perversidade dos filhos de Adão, mas também a infinita bondade de Deus” (p.89).

           · “O que hoje parece simples levou séculos a alcançar” (p.130).

           · “A Palavra, em suma, é a sabedoria, que sopra onde quer e não se sabe para onde vai” (p.290).

      · “Dominamos a matéria, manipulamos as leis da físicas, acumulamos o poder e a o dinheiro, aperfeiçoamos a racionalidade, e, todavia, o caminho que escolhemos parece conduzir diretamente ao caos. Sem as realidades espirituais não há nenhuma hierarquia de valores a perseverar”(p.11).

       · “Deus oferece ao homem o domínio da Natureza por meio da cultura. Nasce aqui a tragédia da condição humana. Livre e responsável pelos seus atos, o homem tanto pode criar como destruir” (p.279).

         · “Cristo insultado, humilhado, ferido, crucificado, é a Humanidade inteira” (p.285).

     · “Se queremos manter a esperança de um futuro melhor para a Humanidade temos de recuperar a noção de sagrado”(pp.108-109).

       Para terminar e considerando que lemos muitas obras datadas, cheias de “lixo comercial”, ao lermos e meditarmos nesta obra-prima percebemos «o cuidado» que devemos ter ao escolhermos leituras, entre as “listas de best-sellers”…, que estão repletas de banalidades e mentiras – para ser brando nos costumes e na denúncia para com a nossa inteligência -, que não nos possibilitam Sabedoria Alguma!? Leia esta obra «já»… Ou então, a partir d‘amanhã!?

POR: Pedro José, Gafanhas da Nazaré/Encarnação, 01-08-2012, caracteres (incl. esp), 5785.

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  1. Já a li, mas depois dos seus comentários apetece-me lê-la de novo. Tenho mesmo de a reler.

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