Tributo não original: José Hermano Saraiva

 

«Sou um professor. Há 67 anos que dou aulas.»

O historiador faz a elencagem dos momentos da sua vida e conta episódios interessantes.

By Anabela Mota Ribeiro

 

Um dia, quando ele era um jovem recém-licenciado, o irmão, António, escreveu-lhe numa das fitas: «Quando, à custa de grande trabalho, tiveres arranjado uma máscara, arranca-a. Quando tiveres encontrado esforçadamente uma fórmula, renega-a. Quando tiveres alcançado uma fé, descrê. Quando julgares, enfim, merecer o orgulho, abate-o. Depois, na incerteza, no espanto dolorido e no naufrágio, pode ser que Deus te modele (…).» José Hermano Saraiva recupera memórias de uma vida. Lê excertos da carta que Marcelo Caetano lhe escreveu, elogiando os seus dotes de jurista. Mostra livros antiquíssimos de encadernação rica. Mostra a fotografia da neta Matilde, que a mulher do historiador diz ser a alegria da casa. Mostra um retrato seu de quando era pequeno, e aponta para o do pai, «homem extraordinário».
Numa tarde de domingo, José Hermano Saraiva faz a elencagem dos momentos da sua vida longa, diz amar a morte e sentir asco por camaleões (numa alusão ao facto de se manter fiel aos seus pressupostos políticos e de não renegar a filiação salazarista).
Fala do que o fez ser quem é. Em frente a nós, uma paisagem deslumbrante mostra Palmela, o mar, e o cabo de Sines, em dias claros. Ainda antes de começarmos a gravar, ele perguntava sobre o teor da entrevista, e remetia-se para a mediania…

Selecções do Reader`s Digest – Estava a dizer-me que é uma pessoa que não tem nada de especial…
José Hermano Saraiva – Exactamente, não tenho nada de especial. Não tenho asas, não tenho escamas, não tenho coração de leão, sou uma pessoa igual às outras. De um pouco diferente, tenho o facto de já há muito tempo ter ultrapassado a esperança de vida hoje estabelecida para os homens – de 72 anos.

SRD – Que idade tem?
JHS – Oitenta e sete. Isso permite-me falar como um velho patriarca. É tudo quanto tenho, uma idade de Matusalém [personagem bíblico, que viveu perto de mil anos]. Tem muitos inconvenientes, sobretudo de saúde; uma pessoa fatiga-se com facilidade. Mas também tem um lado de vantagem: tem-se uma visão de perspectiva e de relatividade de todas coisas. Já nada me surpreende.

SRD – Isso lamenta ter perdido a capacidade de se espantar?
JHS
 – A noção da novidade é em mim tão distante e tão longínqua que já nem me lembro até que ponto era boa. Certamente seria. Como sabe, o meu papel desde há cerca de 30 anos é fazer programas de televisão, cada um num local e sobre um tema. Isso leva-me a visitar constantemente terras que conheço. Lembro-me que, inicialmente, ir a uma terra nova era uma experiência que me deixava maravilhado.

SRD – Se os lugares já não conseguem surpreendê-lo, é no coração dos homens, nos seus pequenos gestos, que «recupera» a pureza, a inocência perdida ao longo dos anos?
JHS – Na construção psicológica da personalidade há mais do que uma camada – um pouco como na formação de uma parede. Uma camada muito profunda e primitiva na formação do homem, é a camada afectiva. É posterior a essa a camada da inteligência, da argumentação. Um mamífero superior, um cão, tem uma vida afectiva semelhante à minha. É um animal grato, leal, corajoso, magoa-se, dói-se, tem medo. O que o cão não tem é o lado intelectual, não é capaz de raciocinar. Para lhe dizer que num ser humano evoluído a mente oculta o coração.

SRD – É uma tristeza, essa constatação?
JHS – É. É por isso que os canários cantam muito mais do que nós: estão sempre alegres. No homem, a consciência plena conduz ao desgosto e à morte. Eneias, inventado como o herói máximo [«Eneida», de Virgílio] suicidou-se. O homem não consegue sobreviver à angústia da existência. Nós vivemos num mundo de injustiça, mentira, simulação, baixeza.

SRD – Então, o que é que nos salva?
JHS – Um certo instinto biofiláctico, um desejo de continuar vivos. Isso permite-nos ir aguentando.

SRD – No início da conversa disse que era uma pessoa como as outras. Como define os homens grandes? Quem são?
JHS – Tive o condão de conhecer alguns. Têm a capacidade quase instintiva de descobrir coisas que nunca foram ditas. Há uma escadaria enorme de categorias existenciais que vão desde o símio ao génio. E há génios de muito género. Conheci, por exemplo, o génio santo, homens que estavam cheios de Deus. Ou então pessoas muito inteligentes, capazes de, com uma espécie de radar, descobrir a verdade.

SRD – Uma pessoa dessas, por exemplo?
JHS – O meu irmão António [José Saraiva, professor catedrático]. O meu pai nasceu em condições de uma grande pobreza, porque era filho de um honesto carpinteiro, que morreu quando ele tinha três anos. Ficou uma viúva com oito órfãos, numa época em que não havia qualquer espécie de protecção social. Eles lá sobreviveram, nas maiores carências, mas isso não o impediu de arranjar forma de aprender a ler, aprender o latim, grego, alemão, inglês, filosofia. Era professor no liceu, e era uma pessoa com uma envergadura moral excepcional. É muito invulgar que uma pessoa de grande envergadura mental também seja de envergadura moral.

SRD – O seu pai foi essencial na sua formação e na do seu irmão? Foi talvez a pessoa mais estruturante?
JHS – Não sei se foi o meu pai, se foi a minha mãe… Julgo que saio à minha mãe. O pai era muito inteligente e eu não sou, sou apenas a média.

SRD  Está a dizer isso para fazer um exercício de modéstia?
JHS – Não, não estou. Conheço-me muito bem. O meu pai tinha uma capacidade de armazenamento de conhecimentos muito superior à minha. Ele lia a Eneida como se fosse o Diário de Notícias.

SRD – Lia-vos alto?
JHS – Sim, sim. Eu sou essencialmente esteta, aprecio o lado bonito e lírico das coisas. O meu pai não, era mais um épico. O meu pai morreu de desgosto pela morte da minha mãe.

SRD – Quanto tempo depois?
JHS – Seis meses. Ele dizia-me mesmo: «É a tua mãe a chamar por mim: “Ó Zé, nunca mais vens?”, não estás a ouvi-la?».

SRD – Tinha quantos anos, quando isso aconteceu? 
JHS – Oitenta. Oitenta é café pequeno, é juventude, adolescência.

SRD – Fale-me da sua mãe.
JHS – É um ponto em que toda a humanidade está de acordo: a mulher mais perfeita que conhecemos é a nossa mãe. Era uma pessoa de grande elevação moral, profundamente religiosa, carinhosa, doce. Recordo-me que, quando entrei na vida activa, ali por volta dos 30 anos, tive uma depressão grande, resultado do excesso de trabalho. E tinha a impressão de que me ia acontecer qualquer fatalidade que eu não sabia o que era, qualquer coisa eminente iria aniquilar-me. E fugia disso indo à casa da minha mãe e estando junto dela. Sabia que enquanto estivesse agarrado à mão dela ninguém me podia fazer mal.

SRD – Havia, de alguma maneira, uma competição com o seu irmão António? Um homem que descreveu como brilhante, depois de reafirmar a sua mediania. 
JHS – Não, nunca houve. Somos de uma família de muitos filhos, mas entre mim e o António havia só uma diferença de ano e meio. Éramos os dois rapazes e contávamos por um. Dormimos sempre na mesma cama, calçámos sempre as mesmas botas, comemos sempre a mesma papa. A alma era a mesma, os corpos é que eram dois. Éramos realmente um sistema, só que ele era o sol e eu era a lua. Eu tinha luz reflectida.

SRD – Conta-se que tinham discussões acaloradas…
JHS – Isso não é verdade. É de presumir que sendo o António de uma ideologia (comunista) e eu de outra, a gente discutisse. Isso é lógico, todavia não acontecia. O António achava que já tinha encontrado o seu caminho e eu não. Na última fase da vida, ele achava que eu tinha razão, que na verdade a certeza nunca se encontra, só se procura.

SRD – Esse seria um bom epitáfio para si? «A certeza nunca se encontra, apenas se procura»?
JHS – Podia ser. Já uma vez escrevi o meu epitáfio. Não me recordo dele todo, só me lembro da parte final: «Falava, falava, falava e mais nada. No fundo, um tonto, e pronto.»

SRD – É isso que acha de si?
JHS – Sou dotado de uma certa loquacidade, mais do que é que costume, sobretudo numa época em que se deixou de cultivar a palavra falada. Uso o português de há 80 anos. Empobreceu muito de então para cá. O Alçada Baptista escreve isso: «Deitámos excessivas coisas fora», deitámos todas as bonecas com que brincávamos, agora já não temos nada com que brincar.

SRD – Se reconstituirmos a sua vida profissional, encontramos sobretudo três vectores: o académico, o político e o de comunicador.
JHS – Escrevi agora as memórias e tive que agrupar por décadas. Como toda a gente, tive uma primeira década infantil. Dos 10 aos 20, foi o tempo das paixões da adolescência. Dos 20 aos 30, é o tempo da instalação da vida: casei, nascem os meus cinco filhos. É o período em que publico os meus livros e em que me estreio na advocacia com muito êxito. Depois, o período dos 30 aos 40, é o período das grandes campanhas. Por exemplo, a educação de adultos: consegui fazer dois milhões de livros para o povo ler. Há uma campanha política, dos 40 aos 50. Fui deputado, ministro, embaixador. Tudo quanto tentei fazer, ficou incompleto. Mas retomaram agora o caminho que então interromperam: o ensino activo, a prioridade absoluta ao primário, o «ensinar não adianta, o que é preciso é aprender», a escola-oficina, todas essas ideias estão a ser retomadas.

SRD – Para onde se voltou depois do fim do regime, e, consequentemente, da carreira política?
JHS – A década a seguir é académica. Sou membro da Academia das Ciências, Academia de História, Academia da Marinha, Academia do Brasil. Foi então que fiz as grandes descobertas históricas sobre a vida de Camões, o nascimento do Eça de Queirós, a localização da Batalha de São Mamede, da própria teoria da história de Portugal. Escrevo a História Concisa, que é o livro português que tem maior difusão em todo o Mundo. Depois, dos 70 aos 80, chamo-lhe uma década já depois do pôr-do-sol, inteiramente consagrada à televisão. Nestes últimos anos vou a caminho do final; chama-se «adagio», é um andamento moderado.

SRD – O que é que destaca no seu longo percurso?
JHS – O lado de jurista é absolutamente fundamental. O outro, o do historiador. Realmente, tenho uma série de livros muito importantes; «A Vida de Camões» ficará para sempre como principal livro que no século XX se escreveu sobre Camões. O terceiro é o lutador, é o tipo das campanhas, que insiste sempre numa causa que considera justa e não se rende – é o ciclo do Waterloo. Continuo a ser fiel àquilo que sempre disse, e a pensar que virar a casaca é próprio dos camaleões. O camaleão é um animal repugnante.

SRD – E a faceta de grande comunicador encaixa onde?
JHS – Os meus adversários inventaram essa do comunicador. É uma treta que inventaram para não reconhecerem que tenho trazido a lume algumas coisas que eles não descobriram. Não sou vulgarizador coisa nenhuma! Sou um professor. Dei as minhas aulas aos 20 anos e continuo a dar aulas na televisão. Há 67 anos que dou aulas.

SRD – Considera que é ofensivo quando dizem que é um grande comunicador de massas?
JHS – Absolutamente. É uma injúria. Vulgarizar é repetir o já dito. Eu não comunico nada. Sou um investigador. Evidentemente, ao fim de 70 anos de treino, um tipo sabe chutar a bola. Ao fim destes anos todos sou capaz de me exprimir sem gaguejar.

SRD – Agora que escreveu as memórias, fez um exercício de rememoração da sua vida. Que palavra é nuclear em si? E, neste longo caminho, o que é que lamenta mais do que tudo ter perdido?
JHS – A perda maior que tive, e eu ia morrendo, foi a minha mãe. Quando a minha mãe desapareceu, pareceu-me que não havia oxigénio no Mundo para respirar. Outro momento de uma grande emoção: a perda do meu irmão António. Foi mais esperada, porque ele foi tendo uns AVC e foi um astro que vi ir-se apagando. Em todo o caso, morreu na minha frente, a fazer um discurso em memória do meu pai; emocionou-se e morreu. São os dois momentos mais dramáticos da minha vida.

SRD – Uma palavra, então, da sua eleição.
JHS – Posso dizer duas em vez de uma? O Príncipe Imperfeito.

SRD – Porquê Príncipe Imperfeito?
JHS – Porque gostava de ter as qualidades que não tenho. Gostava de não ter os defeitos humanos, gostava de só ter amor no coração e não tenho. Tenho por vezes o coração cheio de desprezo e asco por certos exemplos que vejo e arrependo-me disso. Deus mandou amar, não mandou odiar. Príncipe é o que eu queria ser. Imperfeito é o que consegui ser.

SRD – Pensa muito na morte?
JHS – Sim, mas com amor. Deve ser como se um manto a cheirar a rosas caísse sobre nós. Morro sem remorsos, sem dívidas, sem obrigações. Portanto, eu amo a morte.

SRD – Essa frase é fortíssima. Só consegue dizer isso se o pensar à luz da sua religiosidade, da sua crença na passagem para outro mundo?
JHS – Isso não é da minha crença, é da minha experiência. Há dois anos tive um problema muito grave e fui levado de urgência ao hospital de Setúbal, e de lá para Lisboa. E eu, no fundo da ambulância, só via passar as copas das árvores. Tinha uma embolia dupla, nos dois pulmões, e aos 85 anos não há ninguém que escape. Pensava: «É última vez que vejo as árvores. E sinto-me em paz, não estou nada aflito, pelo contrário, passei tanta meta…»

SRD – É, sobretudo, a noção de ter a vida cumprida?
JHS – Exactamente. Realizei todos os meus sonhos. Tivemos cinco filhos, nem tudo correu como a gente queria, nem todos têm a mesma saúde, mas são rapazes inteligentes e sérios. Isso é muito importante para mim, ser sério. Acho que o grande problema português é a falta de carácter. É a tragédia nacional. Assim não se chega a lado nenhum.

 

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Uma resposta a Tributo não original: José Hermano Saraiva

  1. Berta diz:

    Desconhecia completamente esta faceta do Homem José Saraiva. Apenas vi e li a sua vertente de historiador. Gostei muito. Obrigada por ter partilhado connosco esta entrevista.

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