O reino de Deus: na paciência e na mudança. Reflexões para o Ano B – Dom XI TC, Mc 4,26-34 (14-06-2012)

O reino de Deus: na paciência e na mudança.

Reflexões para o Ano B – Dom XI TC, Mc 4,26-34 (14-06-2012)

 

«Jesus continuou dizendo: “O Reino de Deus é como um homem que espalha a semente na terra. Depois ele dorme e acorda, noite e dia, e a semente vai brotando e crescendo, mas o homem não sabe como isso acontece (…). O Reino é como uma semente de mostarda, que é a menor de todas as sementes da terra. Mas, quando é semeada, a mostarda cresce e torna-se maior que todas as plantas; ela dá ramos grandes, de modo que os pássaros do céu podem fazer ninhos em sua sombra» (cfr. Marcos 4,26-34).

DISPOSIÇÃO 1. – Falar do reino de Deus é perguntar: «E tu estás a favor ou contra Jesus?». Pergunta incómoda que não pode ser nem radicalizada, nem ignorada. Jesus fala-nos com muita frequência em parábolas. Falar por parábolas era uma forma muito comum de explicar as escrituras, os rabinos contavam imensas parábolas. Ao longo do evangelho, encontramos muitas parábolas que explicam uma mesma ideia, ilustrada com comparações diferentes. É o caso do evangelho de hoje. Trata de diferentes aspetos do grande mistério do Reino de Deus. Jesus não se cansou de nos falar do Reino e de seu Pai, com imagens sempre novas.

Em primeiro lugar, o Reino de Deus é comparado, nas duas vezes com sementes, na primeira não especifica qual, e na segunda, fala-se de um grão de mostarda. Em todo o caso, as sementes são pequenas… O reino começa pequeno, mais contendo, como a semente, uma grande potência de vida. No entanto, o desenvolvimento e a fecundidade dessa semente não depende de nós! Não sabemos como isso acontece, e o que é pior ainda não cresce no nosso ritmo!

Paremos um pouco mais na segunda parábola. Nela acharemos mais orientações. Da semente de mostarda, tida como a menor de todas as sementes, nasce e cresce a maior de todas as plantas! Nas colinas do mar da Galileia a mostardeira atingia três metros de altura ou mais! É grande o contraste entre a menor de todas as sementes e a maior de todas as plantas. O evangelista acrescenta: “ela dá ramos grandes, de modo que os pássaros do céu podem fazer ninhos em sua sombra”[1].

Podemos lembrar o velho ditado chinês: Faz mais barulho uma árvore que cai, que um monte inteiro que cresce em silêncio! Nunca podemos desanimar, por muito que uma semente demore a germinar. A rejeição e a esterilidade não podem originar nem justificar nenhum tipo de fatalismo “preguiçoso”; fatalismo do “contra se…”; ou ainda, fatalismo tipo “da galileia não vem nada de bom… de A,B ou C; só dá se for vermelho, ou só preto, não será, antes amarelo!?

DISPOSIÇÃO 2. – Hoje a linguagem das parábolas poderia ser recontada na linguagem de Herberto Hélder:

“Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir-digamos-de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia por fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem a saber:

1º- peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;

2º- peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar acerca das razões porque o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existe apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo”. Autor: Herberto Hélder[2]

DISPOSIÇÃO 3. – Que reter de tudo. Duas palavras: a Paciência e a Mudança, dentro e fora de nós. Paciência e Mudança, através da Conversão, pessoal e comunitária, que se faz penitência (podemos dizer sacrifício) e graça (podemos dizer dom). E desse modo a construção do reino de Deus avança como «semente», no dizer de Jesus, (grão de mostarda…e que nos chegue (não… em hora imprópria) a mostarda ao nariz!?); e como «peixe amarelo», com tanto de vermelho e de preto, a fundo perdido/ganho…, no dizer de Herberto Hélder.

Vivemos no tempo da Paciência e da Mudança e não da colheita nem do pagamento.

 

Por:Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação, 14-06-2012. Caracteres (esp.incl.): 5293.


[1] Cfr. Resumo/síntese pessoal a partir de: www.ihu.unisinos.br/espiritualidade/comentario-evangelho/500157-domingo-14-de-junho-evangelho-segundo-sao-marcos-426-34 , acesso: 14-06-2012; e de Missal Quotidiano – Dominical e Ferial, Paulus, Lisboa, 2010, p. 1432.

[2] Texto/Conto de Herberto Hélder, Dinastia, Galeria de Arte, Lisboa, 1968, presente no Catálogo da Exposição do pintor Manuel Cargaleiro. O texto termina com a frase “Por isso é que Cargaleiro é exemplar e fascinante”. FONTE: In Dossié Especial – Expresso, Suplemento da edição nº2065 de 26/05/2012: «Museu Manuel Cargaleiro, Castelo Branco», p.05. Obs. Os negritos no conto são da nossa responsabilidade.

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