«Por que razão nos deixa Deus sofrer?» – Livro de Karl RAHNER.

Por que razão nos deixa Deus sofrer?

RAHNER, Karl, Porque razão nos deixa Deus sofrer?,  

Editorial Franciscana, Braga, 2011, pp. 76.

       Quem ouvir o título da obra pensará que nela encontrará a resposta – algo que o autor, felizmente, não tem. Todo o livro é precisamente para afirmar as limitações de todas as respostas que, muitas vezes de modo demasiado rápido e simplista, os bem-pensantes e os que nunca ficam sem resposta na ponta da língua, se esforçam em dar.

      A Editorial Franciscana oferece-nos em português esta pequena conferência (o livro tem 76 páginas: uma parte é formada por um Prólogo, do cardeal K. Lehmann; e um Epílogo, que suspeitamos ser da mesma pessoa), de K. Rahner, um dos maiores teólogos católicos alemães do século XX. E a perguntar que dá título à conferência é uma pergunta repetida vezes sem conta por crentes e não-crentes. O autor transmite uma recordação de outro teólogo, Romano Guardini, quando este vivia já marcado por uma doença mortal: «No juízo final não vai só ouvir, mas vai interpelar; ele espera com confiança que o anjo não lhe negue a verdadeira resposta à questão que nenhum livro, nem mesmo a Escritura, que nenhum dogma e nenhum magistério, que nenhuma teodiceia ou teologia, nem mesmo a sua, lhe ofereceu: Deus, porque é necessário para a salvação tanto caminho horrível, o sofrimento dos inocentes, a culpa?» (p. 50).

         O autor apresenta quatro respostas tradicionais que, no quadro de uma experiência de fé cristã, foram muitas vezes apresentadas aos clamores de «porque nos deixa Deus sofrer?»: ver o sofrimento como um fenómeno natural num mundo em desenvolvimento, o sofrimento como culpa da nossa liberdade, o sofrimento como oportunidade de provação e maturação, e o sofrimento como anúncio de Vida Eterna. Em todas o autor apresenta os seus contributos, e em todas realça as suas limitações.

      «Mas esta terceira via (do sofrimento como oportunidade de maturação) não responde à nossa pergunta. Em primeiro lugar, porque no mundo existem tantos e tão terríveis sofrimentos, que só por lapso muito piedoso podemos ignorar essa realidade de efeitos humanos tão funestos. As crianças vítimas das bombas de napalm não tinham hipóteses de passar por um processo de amadurecimento humano. São tantos os casos de sofrimento de contornos destruidores que, por melhor vontade que se tenha e capacidade humana e cristã para os suportar, os seus efeitos são de tal forma destruidores e de tal modo demolidores para o ser humano, que este acaba vencido e destruído, podendo até descer muitas vezes ao nível mais baixo da condição humana, tornando-se imbecil ou mau» (p. 38).

        Então, qual é a resposta que o autor nos oferece? Nenhuma, graças a Deus. A preocupação do autor em relativizar as tradicionais respostas são o melhor contributo para vencermos uma resignação perante uma situação que não pode deixar-nos resignados. O sofrimento é incompreensível e, por isso, está chamado a ser vencido. E esta vitória só a podemos encontrar na experiência de fé no Deus de Jesus, no Deus que Ressuscita a Jesus dos mortos. A conferência termina com um convite à confiança em Deus, uma confiança que nos coloca no caminho da vitória sobre o sofrimento.

     «O cristão está convencido que a resposta que deve dar ao problema do sofrimento só é possível pela graça que nos vem da resposta que Jesus deu na Cruz na hora da morte, no momento em que sentiu fraquejar a sua vontade: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. O cristão acredita que o ressuscitado é o crucificado e morto, e vice-versa, e que a resposta que é abandono ao mistério de Deus e ao mistério da morte foi aceite por Deus como eternamente válida e salvífica, e que a resposta é o próprio Deus» (p. 53).

     Porque diante dos mistérios fundamentais da experiência humana, a humildade é o mais importante, para crentes como para não-crentes. Uma humildade solidária e confiante, como podemos encontrar em Jesus de Nazaré, uma humildade que nos coloca no caminho da superação desse sofrimento. E uma humildade que não deixa de ser reflexão, pergunta, discussão. É o que nos oferece K. Rahner.

 

FONTE: Transcrevemos na íntegra (ou praticamente quase) a excelente recensão crítica, presente em: http://livrariafundamentos.wordpress.com/2012/04/15/k-rahner-porque-razao-nos-deixa-deus-sofrer/, acesso, 12-06-2012. ObsNão identificamos o autor da excelente recensão, à qual fizemos pequenas modificações.

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