“O filho e a pedra” (Mt 21,33-43) – por José Augusto Mourão

“O filho e a pedra”

por José Augusto Mourão(*)

Comentário: Mt 21,33-43: Ano A –  XXVII Tempo Comum (02-10-2011)

O comentário de José Augusto Mourão – dominicano recentemente falecido, especialista em Semiótica, Hiperficção e Cultura – é precioso na sua totalidade, mas em razão da sua extensão (cfr. nºos 1 a 13, pp. 334-339), optamos por transcrever apenas três números, mantendo o título.

Pedro José (30-09-11).

 

         a’ – “É da vinha, na sua relação com o Reino, que se trata neste drama em forma de parábola. A Casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida, essa é a vinha do Senhor. Em que se tornou essa vinha? Agraços: leia-se sangue derramado, gritos de horror. Que fazer com esta vinha? Que fazer aos vinhateiros? Os interlocutores de Jesus resolvem a questão de forma exemplar: o senhor da vinha fará perecer os vinhateiros e dará a vinha a outros. Castigo segundo a lei do talião e restauração da situação inicial. Tudo recomeça como estava. Nada no texto diz que Jesus aprove esta solução. A resposta de Jesus apoia-se numa citação da Escritura de que faz «leitura». Jesus recorre à Escritura lendo-a a um outro nível. A configuração da vinha é substituída por uma outra: a de uma construção em curso. O percurso do filho é o da pedra angular. Era isso o que vos faltava: Ele é a pedra angular. Da mesma maneira que os vinhateiros atiraram o filho fora da vinha, assim os construtores rejeitaram a pedra angular”(nº5, p.336).

       a’’ – “O Reino não é a pedra. O Reino aparece num sistema de deslocação: tirado a uns e dado a outros. «Vós», os interlocutores presentes, sois vós a quem será tirado o Reino. Vós que vos reclamais de um deus dos exércitos. É de vós que se trata, vós que substituis um grupo por um outro grupo, na ordem do mesmo. Podemos imaginar um deus assim? Como repensar o autismo da eleição? O Deus que abençoa, como pode ser questionado? Há nações que tão cheias de Deus se sonham e se concebem que se tornam o Terror para aqueles que não teriam o seu Deus na bandeira. Na boca de Jesus, os vinhateiros serão substituídos por um «povo». A citação quebra a espécie de continuidade que fazia dos novos vinhateiros a repetição dos primeiros. Nada será como dantes. A citação do Salmo desloca a perspectiva”(nº8, p.337).

       a’’’ – “Fazemos das Escrituras o que os vinhateiros fizeram do filho: apoderaram-se dele e mataram-no. Matar é, evidentemente, fazer calar ou desvirtuar, fazer perder a força, esterilizar. As figuras que transporta um texto esperam não apenas um leitor mas um intérprete. Na parábola dos vinhateiros posso ler a história de vinhateiros que tentam apropriar-se duma vinha e dos seus frutos matando o herdeiro. Posso ler nela o fracasso da parábola porque os fariseus endossam o papel dos vinhateiros na sua relação com Jesus. Mas posso também recebê-la como um apelo a não os imitar. Que relação tenho com essa pedra rejeitada pelos construtores? De quem falam as Escrituras? É dele que falam? E vós, os primeiros interlocutores desta parábola, antes de mais, e vós hoje que a escutais, em que ponto vos situais relativamente à leitura das Escrituras em Jerusalém”(nº11, pp.338-339).

 

FONTE: (*)Cfr. MOURÃO, José Augusto, Quem vigia o vento não semeia, Pedra Angular, Lisboa, 2011, pp. 334-339.Transcreveu: Pedro José, Gafanha da Nazaré, 30-09-11. Caracteres (esp.incl.): 2721.

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