A falha moral: notas dispersas.

 

A falha moral: notas dispersas.

[1.] Negar a possibilidade da «falha moral» é negar a possibilidade de sermos plenamente humanos. Apenas “felix culpa”: aquém e além (…na luta de posições entre Agostinho e Tomás, para o último magistério papal, Agostinho volta a levar vantagem…). O tornar-se humano supõe essa possibilidade. Erra e falha, melhor, reconhece “o” erro e “a” falha e assumirás em plenitude a tarefa de seres plenamente livre. «Torna-te o que és!». Toda a transgressão traz consigo a impropriedade. É uma “agressão” ao que o ser humano é chamado a realizar. Os imperativos (e também os indicativos) morais (“Farás x…”, “Não farás y…”) são, no fundo, enunciados sobre a autêntica conduta humana (actos e atitudes: damos primazia à opção fundamental). “Tornar-se pessoa” é projecto que requer a partilha da felicidade, na realização interpessoal, requer que assumir “x” é (poderá ser) incompatível com “y”.

[2.] Estará verdadeiramente em causa a incapacidade de pedir desculpa de forma sincera? Todos somos inocentes. Todos somos vítimas. Todos somos (potenciais) criminosos. Todos somos (potenciais) juízes. A mediatização dos casos privados perante a excessiva exposição pública (em desproporcional dimensão também o contrário é risível…) não contribui para que haja lucidez. O facto de ser homem a fazer e não ser uma mulher a fazer – haverá diferenças no fazer e no modo em como é feito?… – em termos culturais, psicológicos e estatísticos. Tudo isto adensa ainda mais “o nevoeiro moral” numa sociedade demasiadamente “líquida”. Existirá uma moralidade para o «comum» (camareira Nafissatou Diallo) e outra para o «incomum» (ex-diretor-gerente do FMI Dominique Strauss-Kahn)? Não faz sentido o perguntar. O tratamento moral não pode ser transversal, oblíquo ou tangencial. Na moral só existe vertical e horizontal. Nesta intersecção encontramos o abismo de luz chamado Cruz. Consequentemente ou estamos a caminho do Bem, da Verdade e da Beleza. Ou estamos lá “em baixo” no meio da miséria humana, tornando real o inferno terreno. Sem fundamentalismos doentios. Mas com um radicalismo saudável.

[3.] Dum lado o crédito mínimo. Do outro o descrédito máximo. Este episódio faz-me repensar a passagem bíblica do “bom ladrão”. Ele foi colocado numa cruz, ao lado de Cristo, porque praticara várias actividades ilegais. O companheiro de infortúnio, conhecido por “mau ladrão”, proferia insultuosos desafios: “Tu, que fizeste tantos milagres, salva-te a ti mesmo e leva-nos contigo!”; ele, porém, tomou a palavra e disse: “Quanto a nós, é de justiça; estamos pagando pelo que fizemos; mas ele não fez nenhum mal!” E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim quando estiveres em teu reino!” Essas palavras valeram-lhe. Cristo bem poderia ter dito “Obrigado pelo que disseste a meu respeito. Quando tiveres espiado as tuas culpas, que não são poucas, eu te chamarei…”, respondeu-lhe: “Em verdade eu te digo, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. Hoje mesmo, note-se bem![1]

[4.] Esta novela mediática quer exorcizar a nossa falta de apetência moral. Em certo sentido não é fácil admitir a irreversibilidade dos actos cometidos. Mas assim acontece na realidade. “Acontece-nos sempre!” Não há “santo” sem passado. Não há “pecador” sem futuro. A linha da nossa Vida avança em direcção ao futuro. O buraco negro da ausência moral aumenta cada dia. Não se pode banalizar nada; muito menos o direito a um processo de julgamento justo. No final a suspeita acompanhamos como a nossa sombra; será uma realidade para toda a nossa vida. Só com mais Luz a sombra se dissipará.

Por: Pedro José, Gafanha da Nazaré, 21-09-11. Caracteres (esp.incl.): 3640.


[1] Cfr. CÂMARA, Dom Hélder, O Evangelho com Dom Hélder, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 21993, p.149.

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