Igreja entre aspas

 

Igreja entre aspas

 

        Em todos os atendimentos “pastorais” isso transparece. Pelo menos na grande maioria. Vamos dialogando entre o mostrar social/cultural; o mostrar lógico/individualista e o mostrar ético/comunitário. Estas três dimensões presentes ou quando ocultas, manifestam-se de maneira inconsciente. Mas além de tudo saberemos intuitivamente, que os sacramentos são acolhidos para que “o inexprimível se mostre de maneira exprimível, naquilo que é expresso”. O que as pessoas procuram não são quase sempre os critérios objectivos e garantidos. Nós igreja, como instituição, enquanto comunidade de tradição e transmissão, oferecemos “isso” do que é objectivo e do que é garantia. E recebemos um “quase-nada” de abertura à mudança, isto é, conversão. Que suspensão padecemos nós “comunicadores” e os possíveis “clientes”? Onde reside a disfunção?

         No Youcat – catecismo jovem, é apresentada uma síntese significativa para análise sacramental, nestes termos: “No Baptismo passamos de “ameaçados filhos humanos” a “protegidos filhos de Deus”; através da Confirmação, passamos de “pessoas que procuram” a “pessoas decididas”; mediante a Confissão passamos de “culpados” a “reconciliados”; pela Eucaristia passamos de “famintos” a “pão para os outros”; no Matrimónio e na Ordem passamos de “individualistas” a “servos do amor”; através da Unção dos Enfermos passamos de “desesperados” a “pessoas confiantes” [1]. O meu interesse primeiro é o uso deliberado das “aspas”. A linguagem religiosa sofre de “ASPAS” explícitas ou implícitas. O mal será sempre o mesmo. Oferecer curas e remédios para males inexistentes. A roupa não é o corpo. As ideias não são a coerência do pensamento.

          Quem é o «sujeito plural» que aparece no “atendimento pastoral” (“de cartório…”)? A História não dá saltos. O hoje é feito do ontem em ordem ao amanhã. Vem em nosso auxílio uma citação incisiva: “O então jesuíta François Roustang, diretor da respeitável revista francesa de espiritualidade Christus, constatava, em breve e contundente artigo (1965), o surgimento de uma nova consciência do católico. Ele a chamou de ‘terceiro homem’. Sem romper com a Igreja e sem ser por ela expulso, comporta-se com enorme liberdade diante de suas leis, mesmo consideradas graves por ela. Segue-as somente e até onde elas lhe respondem a experiência existencial, sem rebeldia nem desprezo. Esse fenômeno profundo e alastrante explica muito das atitudes de João Paulo II. Ele o enfrenta com decisão e contundência”[2].

       Seremos uma Igreja entre aspas: “ameaçada…”; “à procura…”; “culpada…”; “faminta…”; “individualista…”; “desesperada…”. Pois nós lemos o “catecismo jovem”, prioritariamente, do “lado de cá”. Não imputamos responsabilidades a quem as não tem[3]. Mas na realidade não seríamos uma Igreja “assim” porque Cristo encarnou. O nosso produto é bom; temos uma rede de “distribuição invejável”; o “preço” é quase inteiramente gratuito, etc. Porque não atendemos verdadeiramente à sede e fome dos nossos contemporâneos. Jesus nunca foi um ser humano entre “aspas”. A Cruz e a Ressurreição são a negação das aspas humanas. Falta-nos a Sua iniciação plena ao Compromisso.

  

Por: Pedro José, Gafanha da Nazaré, 24-05-11. Caracteres (esp.incl.): 3686. 


 

[1] YOUCAT – Catecismo Jovem da Igreja Católica (Português), Paulus Editora, Lisboa, 2011, nº173, p.106.

[2] LIBÂNIO, João Batista, S.J., “Um pontificado ousado e disciplinador” in ttp://www.miradaglobal.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1713%3Aum-pontificado-ousado-e-disciplinador&catid=64%3Ajb-libanio-sj&Itemid=100003&lang=es, acesso: 24-05-11.

[3] Concordamos em muito com as pertinentes análises: NETO, Pedro, “Gestão na Igreja: desafios e propostas” in CV, 26-01-2011, p.22; CERQUEIRA, Domingos, “Gestão na Igreja: desafios e propostas” in CV, 09-02-2011, p.22.

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