Quase um golo! Quase uma vitória!

Quase um golo! Quase uma vitória!

       Há a teoria – a do adepto perfeito – em que o público de um estádio de futebol é o “13º jogador”. Eu concordo em género. Participei em frente do televisor, antes e depois, na final do F.C.P. em 1987. O famoso calcanhar de Madjer é um ‘arquétipo de felicidade’ que nunca esqueci. Um “epifenómeno” de arte irredutível. Linguagem ridícula da paixão. Na final de 2003, tenho dentro de mim um vazio inexplicável: não vi e não sei o porquê. Em 2004 novamente o delírio e o prazer intensos. Hoje haverá, novamente, a possibilidade de fazer história. “Dublin foi conquistada pelo Norte”. A noção de adversário como inimigo encontra-se «quase» diluída. Por isso a final portuguesa é única. Sem incidentes, apenas arranhões no coração.

     Como psicanálise sei que o-ser-futebolista foi o que mais próximo atingi – a anos luz o sonho de astronauta (série Cosmos, Carl Sagan e seus livros… abraçar o vazio…) ou piloto de fórmula um (o caso Nelson Piquet, os cromos e as poucas miniaturas dos carros… abraçar a velocidade…) – enquanto sonho ideal de criança, em fantasia de pura imaginação. A Vida é como um Jogo. Em Eduardo Galeano (que li com paixão de corpo e alma; note-se que não considero o futebol uma religião… apenas um processo iniciático; quanto muito um ritual) revejo-me perfeitamente em “Futebol: sol e sombra”. Aí temos “o puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade”. Um jogo de paixões. O futebol faz-me ‘perfeitamente’ humano. Jogo de gestos e erros; a única dança que fui capaz; seus suspiros e passes de génio; as lágrimas e os gritos de alegria. A violência não faz parte dele, pode acontecer, mas não deveria. Considero-me um portista moderado (os amigos negam…) apenas um-não-praticante, pois nunca pisei o estádio sagrado; sou mais um não filiado; mas defensor irónico, até ao limite da racionalidade, repito racionalidade, e já agora, da emotividade ao “dragão azul”.

      Logo mais – e depois serão recordações todas entrelaçadas num contexto superior -, em clima de fraternidade, estarei na frente do televisor – ícone sagrado deste acontecimento místico (não é liturgia pagã; não é filosofia de bar; não é mito pelo endeusamento do corpo…). Não quero cair em tentação de contrição – olhando com honestidade as consequências, quanto ao viver o que não se quer assumir – mas a bola rola suave…) e juro que farei quase um golo, só de olhar e ter a visão perfeita do caminho feliz. Acho que tudo se deve ao efeito sedutor da esfera, que se chama BOLA!

       Há em mim uma criança que nunca morrerá: recuperação da eterna infância. Abraçar o corpo sem narcisismo. Suspensão no acto de pensar e entrega ao lúdico, como entrega graciosa e encantamento!

 

Por: Pedro José, Gafanha da Nazaré, 18-05-11 às 19H46 e 19-05-11 às 12H07.

Caracteres (esp.incl.): 2667.

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