reciclar as vivências ou 40 menos 1.

 

reciclar as vivências ou 40 menos 1.

  

“O caminho é deserto” (At 8,26).

“Quem crê, possui a vida eterna” (Jo 6,47).

         A Vida edifica-nos como nó de relações. Nó afectivo e libertador. Um nó que é ponto de fusão, divergência, e naturalmente, muita convergência. Assim vamos nós na conta-dos-quarenta-menos-um. É quase uma passagem mítica. Mais simbólica, pois unifica. Ocorre-me pensar que se tivesse menos dez, ou mais dez, é que seria verdadeiramente diferente! Mas não era. Quem faz anos: faz-se no presente! E não posso fugir do presente (tempo, espaço e história…). Por isso o exercício mais saudável começa por ser o agradecimento: gratidão pelo presente que somos feitos. Perdoando-nos pelas paragens e desvios na viagem eterna. Pedindo dentro da consciência e das relações (feitas ou a cumprir…) o Dom da lucidez e a bondade das pequenas causas infinitas.

       O tempo é, sobretudo, desejo de Fidelidade. Memória com recordações. Sem auto gestão radical. A Esperança que me habita é evangélica. Não me interessa só que a minha história possa acabar bem ou mal. Interessa-me mais que a boa ou má história que vou realizando, no presente: seja o Sentido do viver que se vai reciclar, na presença e na ausência de Deus. Hoje decidi, actividade doméstica, reciclar 80% dos jornais e revistas que superlotavam o meu quarto – meu reino efémero… – e a decisão foi levemente difícil. Um presente de limpeza e organização. Fui parco e imperfeito, requeri-me no presente de aniversário. Pouco indulgente em causas próprias.

        Hoje é um dia a mais com o peso da vida inteira dentro dele. Ou seja, a percepção indirecta do que será uma eternidade em comunhão. Um instante tocado pelos anjos. Uma frase abrasiva e pacificadora está comigo: «O sentido da vida é a amizade; o sentido da amizade é a fé». Meu catecismo para ateus – qual «Youcat»: A fé é pessoal, mas não é individual – é o “pequeno tratado das grandes virtudes”.

       Sinto-me mais adiado que satisfeito, o que poderá não ser mau de todo. Sinto-me a pensar que sou muito limitado e sempre disponível. Sinto-me separado e transplantado de coração e corpo, para um destino a cumprir. Sinto-me em Deus, na família, nas amizades, no trabalho, como partes de um Todo maior, a viver com requerimentos de missão assumida. Festivo de nostalgia…, lido por livros que não percebo, mas dos quais não me separo nunca. Sinto-me como um falso expropriado. Sinto-me dentro dum cemitério sem medo; desperto de agonias não escolhidas. Sinto-me com tempo infinito para ouvir as pessoas e sem reservas de paciência para não agir contra a cultura da mediocridade. Sinto-me livro aberto com folhas brancas prontas a usar. Sinto-me menos eu e mais outro. Sinto-me agradecido por tudo e todos. Sinto-me acontecido e descoberto em cada serviço à Vida. Sinto-me implicado e desgastado. Sinto-me a bem com a vida.

Por: Pedro José, Gafanha da Nazaré, 12-05-11. Caracteres (esp.incl.): 2712.

 

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2 respostas a reciclar as vivências ou 40 menos 1.

  1. Ivandro Coêlho diz:

    Olá, reverendo!

    Parabéns pelo texto e pelo seu aniversário.

    Você está cada vez melhor na escrita e na fé.

    abraços fraternos!

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