A mulher de Samaria: os nossos mal-entendidos e a biblioterapia – comentário Jo 4,5-42

A mulher de Samaria:

os nossos mal-entendidos e a biblioterapia.

 

Comentário: Jo 4, 5-42: Ano A –  Quaresma – III Dom  (27-03-2011)

 

  • A mulher disse a Jesus: “Senhor, nem sequer tens um balde e o poço é fundo: donde te vem a água viva? Serás Tu maior do que nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e seus rebanhos?” (v.11)
  • A mulher disse a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e nem tenha de vir aqui buscá-la“.(v.15)
  • A mulher deixou o cântaro (…) (v.28) 
  • «Ele disse-me tudo o que eu fiz». Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus, e pediram-lhe que ficasse com eles. (vv.39-40)

 

      Deparamos com uma meditação sobre o «baptismo» – “viver é nascer a cada instante” – a partir do encontro de Jesus com a mulher samaritana. Sabemos o lugar importante que têm as mulheres no quarto evangelho, o que é reflexo da história, da teologia e dos valores da comunidade na tradição de S. João.

      Jesus tem a ousada iniciativa de iniciar um diálogo com uma mulher estrangeira, num lugar público. Contraria a moralidade corrente. Nenhum rabi teria este comportamento. Jesus transgride as leis e os costumes da época que eram contrários a que um homem falasse com uma mulher na rua, e pior ainda, se esse homem fosse judeu e a mulher samaritana!

     Podemos imaginar a surpresa que tem a mulher quando chega ao poço e escuta um homem falando para ela, e ainda, colocando-se numa condição de necessidade, mendigando água: “Dá-me de beber”.

      É significativo que o evangelista nos mostre Jesus necessitado, frágil, humano! Depois da longa caminhada que teve com os seus amigos, chegou a Samaria cansado e com sede. Somos capazes de imaginar um Jesus assim? Sentado na beira do poço, não como um “super-homem”, mas como um judeu do seu tempo que sofre o calor e o cansaço.

      Aqui entre a «humanidade» de Jesus, os «mal-entendidos» da mulher samaritana (e não só dela!) há um encontro libertador, partindo da geografia até à cultura. Encontramos uma “Mulher”, que sendo contagiada pela “conversa” de Jesus, sente e realiza o “desejo missionário”. Eis a “biblioterapia”, “no ponto zero”, a partir do encontro das nossas histórias: traumas, esquecimento, virtudes, desejo e perdas, etc.

        Para a “biblioterapia”, a identidade é um lugar, uma situação, uma história (há um balde; há um poço, há um rosto, há um género sexual e afectivo…). Temos nossas raízes. Ou melhor, existem fronteiras a superar, para além do «saber» (valorizar nossa ignorância… até mal-entendidos) há um «encontro de saberes»: uma sede partilhada (a partilhar). Somos uma relação-que-se-constrói. A “biblioterapia” com Jesus que nos fala a partir da “sede” e “do-que-não-é-nosso”; este exercício de fala e escuta, em profundidade, provoca um enraizamento novo, num Sentido que será o gosto antecipado do viver-para-além-da-morte.

       Viver assim é, – firmar a diferença e afirmar a igualdade -, mantermo-nos como “sinais de contradição”, deixar acontecer em nós o desconhecido e o inesperado do ENCONTRO pessoal com Jesus.

         Pela «biblioterapia» deste relato de encontro, e de todos os demais, não haverá um «mal-entendido», não reconhecido, de que toda a pessoa humana tem sede: haverá alguém sem sede? Como Jesus se torna a “Água viva”? A Igreja não será uma “empresa de engarrafamento” de água sem sabor, sem cor, sem cheiro…, ironia cáustica da melhor água possível, que todos dispensam, ignoram ou recusam. Sem publicidade genuína e compromisso sério não vamos lá… junto ao «Poço de Jacob»: “prestar culto ao Pai, em espírito e verdade” (cfr.v.23).

Aquele que sabe porque tem sede de viver pode suportar quase tudo.

 

FONTES: (1.) OUAKNIN, Marc-Alain, Biblioterapia, Edições Loyola, São Paulo, 1996, pp.341; (2.) http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_servicos&Itemid=38&task=detalhes&id=2, acesso: 25-03-11. 

Por: Pedro José, Gafanha da Nazaré, 25-03-11. Caracteres (esp.incl.): 2963.

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