Transfiguração: uma reserva de Luz para nós (comentário: Mt 17,1-9)

Transfiguração:

uma reserva de Luz para nós.

Comentário: Mt 17, 1-9: Ano A –  Quaresma – II Dom  (20-03-2011)

       O evangelho não trata de nenhuma visão fantasmagórica, de nenhum truque global. O que Jesus quis mostrar para os discípulos e para todos nós é que havia ali uma luz de vida que ultrapassava toda e qualquer escuridão e que poderá nos sustentar diante de qualquer tempestade.

      Jesus sabia que nós, seus discípulos, iríamos caminhar com Ele ao longo da vida e que, muitas vezes, os nossos caminhos seriam bastante escuros e espinhosos. Nenhum de nós escapa dessa condição. A vida humana é feita de alegria e tristeza, de dor e de prazer. Não acreditem na falsidade das propagandas! Se não sofressemos, não seríamos humanos.

    Façamos uma comparação para atingir o âmago deste acontecimento na vida de Jesus. A tecnologia já criou uma realidade muito simples: as pilhas solares. Um relógio com pilha solar se alimenta com a luz do sol e funciona também à noite. Temos também a maneira de captar a luz solar e transformá-la em energia para aquecer a água que temos em nossa casa. Imaginemos que também nós pudéssemos fazer essa experiência na nossa vida. Vamos atravessar uma noite muito escura. Estamos num descampado e não há luz nenhuma, a escuridão mais densa. Imaginemos que mergulhávamos o nosso corpo na luz, e de repente nos transformávamos num “pirilampo” resplandecente, aí poderíamos atravessar a noite mais escura com tranquilidade. Essa era a experiência de Jesus.

      “Jesus iria atravessar uma semana muito escura – a semana da paixão. Iria atravessar um dia muito escuro – sexta-feira santa. Iria atravessar três horas de tremenda escuridão – a agonia na cruz. Iria atravessar um instante terrivelmente escuro – o abandono do Pai. Foi a noite mais escura da história da humanidade, porque o Filho sentiu-se abandonado por seu Pai – Deus. O que fez Jesus? Antes de entrar numa noite escura, Deus Pai o coloca numa noite bonita, ou melhor, num dia fulgurante – a transfiguração. Ele se carrega da luz da ressurreição, que é a fé, a esperança, a perspectiva mais reluzente. Ele se ilumina da ressurreição para atravessar obscuramente toda a sua vida. Naquele momento mais escuro de sua vida, quando atravessaria a noite mais noite, Ele sabia que carregava a luz da ressurreição. Por isso, Ele termina a vida dizendo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito!”

      Assim é a nossa vida hoje. Nós temos noites escuras. Noites de mortes rápidas e lutos longos, de sofrimentos intermináveis. Como podemos atravessar essas noites? Façamos a experiência profunda de Deus, “mergulhar na luz”, Jesus e os apóstolos fizeram essa experiência. A nossa atitude é de descoberta. Descobre a luz que há em ti! Tomemos a consciência desses momentos, em que o Senhor nos diz que Ele é a certeza da luz. Não precisamos entender tudo, mas crer num fio de Luz. Ninguém sabe o que a vida nos trará, por isso precisamos ter nossas reservas de luz. É importante que vivamos experiências luminosas, não para agora, mas para amanhã. Quem um dia experimentou Deus, nunca mais esquecerá.

         FONTE: Seguimos de perto, resumindo e adaptando o mínimo: (1). J.B. Libânio, SJ, Um Outro Olhar – Volume III, 2006, pp. 41-42; (2).http://www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=223, acesso: 18-03-11.

 ***   ***   ***

     Um apontamento extra, na reflexão notável dum historiador cristão, sobre a valorização da CONTEMPLAÇÃO, a tal experiência de Luz, já “amadurecida”.

      “Com efeito, a contemplação mostra-nos a fantástica variedade, complexidade e coerência dos fenómenos da vida, da constituição da matéria, e da prodigiosa dimensão da regularidade do mundo cósmico. A contemplação intensifica a fruição da arte na música, na pintura, na poesia, no teatro e no cinema. A contemplação torna-nos sensíveis ao riso e à frescura das crianças e de tudo o que começa de novo. A contemplação faz-nos descobrir em toda a parte homens e mulheres inesperadamente inventivos, generosos e honestos. A contemplação inspira-nos o respeito e a admiração por quem é capaz de manter a dignidade face ao sadismo dos torcionários nas prisões e campos de concentração. A contemplação abre os nossos ouvidos ao clamor dos famintos e dos oprimidos em todo o mundo e em toda a História, e faz-nos partilhar com eles a compaixão pela humanidade ferida. A contemplação introduz-nos no mistério do sofrimento que se torna passagem para a ressurreição através da morte aceite e vencida, e mostra-o em Jesus Cristo, Filho de Deus, sinal da invencibilidade da vida. A contemplação associa como num único sujeito todos os homens e mulheres que desde o princípio do mundo perscrutaram o mistério do Uno e do Todo. Assim, o homem contemplativo perde o medo do futuro. Vive no presente e descobre, a cada passo, nas coisas grandes e pequenas, nas coisas boas e más, na doença e na saúde, na prosperidade e na pobreza, na paz e na guerra, a espantosa realidade das coisas.

        Mas a contemplação é um exercício exigente. Requer a concentração, o despojamento e a solidão. Exige de quem a busca o descentramento de si mesmo. Por isso não é só um exercício de lucidez; é também uma forma de vida. Por isso há ordens religiosas que se lhe consagram inteiramente. A antiga polémica entre ordens activas e ordens contemplativas não tem sentido. O olhar abrangente e lúcido sobre o mundo diz-nos que a acção e a contemplação não devem ser exclusivas, e que é inútil estabelecer regras acerca do grau de consagração a uma ou outra. Enquanto houver seres humanos que a ela se entregam, de alma e coração, podemos olhar sem medo para o futuro”.

    FONTE: MATTOSO, José, “Contemplação e acção ontem e hoje” [Congresso Internacional sobre as Ordens e Congregações Religiosas, Memórias, Presença e Diásporas, Fundação Calouste Gulbenkian] in Lumen, Jan/Fev 2011, p. 31.

        Por: Pedro José, Gafanha da Nazaré, 18-03-2011. Caracteres (esp.incl.):5667.

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Uma resposta a Transfiguração: uma reserva de Luz para nós (comentário: Mt 17,1-9)

  1. luzanira melo diz:

    Estes comentários estão me alimentando muito,estou aprendendo a ver luz no fundo do túnel, tô entendendo q Deus manifesta seu poder entre 3 pessoas, do mesmo jeito q em multidões, nas agressões e defeitos das pessoas, posso ver qualidades importantes nelas mesmas, nos meus sofrimentos, decepções e solidões, parece q tenho reservas de luz (esperança em Deus). Sinto q depois de oração contemplativa, o rosto da pessoa muda, transfigura, resplandece uma luz. Falar de Deus é pouco, é necessário falar e testemunhar c/ a vida, estar atento p/ñ dormir quando for p/ estar acordado. Obrigada.

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