Entrevista: “Precisamos duma fé mais prática, participativa, de rosto alegre” Correio do Vouga (05-01-11)

 
     CORREIO DO VOUGA – “Esteve nove anos no Brasil, de Setembro de 2001 a Outubro de 2010. Que balanço pessoal faz deste período? O que houve de novo para si como pessoa e como padre?

 

PEDRO CORREIA – O balanço é um saldo positivo. Foi um processo lento de compreensão duma realidade e mentalidades muito diferentes. A novidade como pessoa vem do conhecimento da cultura. Havia diferenças que tinham relação com imposições históricas, mas depois verificava, com certa perplexidade, que na nossa natureza, nas necessidades mais básicas, somos muito iguais em termos do que nos faz humanos. Nesta aprendizagem constante, o padre tende a tornar-se mais sereno, menos precipitado, mais disponível e mais criterioso. Gostaria que essa postura de olhar pelo lado “avesso” permanecesse…

 

Contactou com outra realidade eclesial. Quais foram as principais diferenças no modo de ser igreja que encontrou em Chapadinha e Mata-Roma?

O trabalho paroquial nas exigências sacramentais e nos desafios de evangelização foram muito diversificados, como também acontece cá. No entanto, há um colorido festivo mais intenso em tudo, uma participação mais espontânea das pessoas, menos organizada (para o bem e para o mal…), uma participação que gerava mais sentido de pertença. A experiência das CEB (Comunidades Eclesiais de Base), no interior rural, em ambas as paróquias, com grandes distâncias, onde havia uma autonomia, responsabilidade pelo ser igreja e fazer-se a igreja na catequese, na liturgia, na partilha profundamente solidária, foi uma grande novidade.

 

Pode enumerar em três ou quatro pontos em que a Diocese de Aveiro – ou as paróquias – tem a aprender com as comunidades brasileiras em que trabalhou?

Diria que precisamos duma fé “mais prática” (ela já o é, mas nós esquecemos!), desprendida, mais profética… que se comunica de forma experimental, participativa, de rosto alegre, acolhedor. Mas isso não é novidade nenhuma, está nos evangelhos. Sinto dificuldade em responder. A fé dos evangelhos é simples e profunda. Procurei viver cá e lá isso. O discurso oficial e a linguagem, os nossos compromissos têm ser “existenciais”, isto é, como trabalhamos com fé, como construímos famílias de fé, como vemos TV e lemos jornais com fé… a fé é que é o fermento e sal. Não é difícil, mas exige generosidade e inteligência de coração.

 

O seu trabalho na diocese brasileira do Brejo foi o primeiro de um padre diocesano de Aveiro por um período relativamente prolongado. É importante que as igrejas fomentem este tipo de colaboração?

Considero que sim. Simultaneamente comigo, padre diocesano associado com a Sociedade Missionária Boa Nova (SMBN), outras dioceses faziam a mesma vivência, nomeadamente, Braga, com dois padres em Moçambique, Porto, com um padre no Japão. Há mais tempo, as dioceses da Guarda e Leiria-Fátima também fizeram. Um total de cinco dioceses e seis padres, se não erro. É um dado que merece ser reflectido e potenciado. Lá, onde trabalhei, no Maranhão, também trabalharam os Leigos Boa Nova (LBN) e comunidades religiosas, as Missionárias da Boa Nova, há mais de 25 anos, e as Criaditas dos Pobres, desde 2007, se não erro. Foi uma experiência de comunhão muito rica. A colaboração pode ser entendida como intercâmbio alargado, no sentido de ter mão dupla, como vasos intercomunicantes.

 

Está há pouco mais de dois meses em Portugal. Tem saudades do Brasil?

Muitas saudades, sem saudosismos, olho para a frente. Saudade do calor, da vegetação, das frutas, da simplicidade das pessoas. Do poder comunicativo, da criatividade. Fiquei novamente triste com as notícias mais recentes sobre a violência urbana, mas há horizontes e avanços, conquistas sociais que tendem a consolidar em mais justiça e desenvolvimento. Lá dizia-se que o Brasil não era mais o país do futuro adiado, o eterno emergente, mas o país do presente empreendedor.

 

Afirmou publicamente que não se imagina a trabalhar na Igreja sem ser numa equipa de padres. Porquê?

O padre torna-se mais equilibrado, rende mais, dá um testemunho mais coerente. Sofre menos a solidão afectiva e funcional. É uma receita que experimento em mim com resultados.

 

Como leitor compulsivo que é, conte-nos o que tem lido com gosto e proveito…

O último livro “religioso” foi o livro-entrevista ao papa Bento XVI. Li recentemente um romance muito bom, de Roberto Bolaño, “2666”. Faço releituras atrasadas de Ernst Jünger, literatura, e Paul Beauchamp, exegese bíblica.

 

Como encara os dois novos trabalhos que lhe foram pedidos (vigário paroquial na Gafanha da Nazaré e na Gafanha da Encarnação e colaboração na Comissão Diocesana Justiça Paz)?

Vou trabalhar em equipa e isso vai diminuir dificuldades e poupar mais desgastes necessários. Em equipa, conseguimos programar melhor e isso significa servir melhor. Nos novos trabalhos vou descobrir pessoas e valores. Isso é um incentivo grande.

 

Na apresentação na paróquia da Gafanha da Nazaré, afirmou: “O sentido da vida é a amizade. O sentido da amizade é a fé”. O que pretendeu dizer com estas frases?

        É uma afirmação que pretende traduzir um “círculo de virtude”, penso que normalmente funcionamos, e no caso mal, sob a influência de círculos viciosos. A descoberta da vida e a defesa da mesma comportam amizade. Na experiência do sentido da amizade, sem darmos saltos, entramos na experiência de fé, como confiança e adesão, acto de liberdade no que há de “mais humano”. A questão do “Sentido” é a questão que se impõe na filosofia actual. Mas o Sentido está também na revelação bíblica (a Bíblia é uma longa história de amizade) e a história completa de Jesus Cristo lança uma luz plena sobre a mesma reflexão. Jesus anunciou, viveu e morreu confirmando que “não há maior prova do que dar a vida pelos amigos”. As frases são uma síntese pessoal, uma disposição, um caminho de espiritualidade. Não tem nada de novo… apenas está arrumado nesta redacção”.

FONTE: Correio do Vouga – online, in http://www.ecclesia.pt/correiodovouga/, acesso: 05-01-2010.

 

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Uma resposta a Entrevista: “Precisamos duma fé mais prática, participativa, de rosto alegre” Correio do Vouga (05-01-11)

  1. maria costa diz:

    Parabéns ao padre Pedro, ja li variados assuntos que escreveu desde a Chapadinha, gosto muito como escreve.
    Ao ler a sua entrevista, onde diz que tem mts saudades da Chapadinha, não pude deixar de pensar na minha irmã Criadita dos Pobres que esta cá em Coimbra ja perto de 1 ano, mas com tantas saudades e tanto desejo de regressar !
    Desejo que se integre e se sinta feliz .
    Aurora

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