Saudades Absurdas! – comentário Lc. 21,5-19.

Saudades Absurdas!

Comentário: Lc 21, 5-19: Ano C – Tempo Comum – XXXIII (14-11-10) 

As ‘descrições’ de Jesus neste evangelho (Lc 21,5-19) não são apenas geográficas, não são apenas históricas, são sobretudo existenciais. Como sempre temos de ler com a vida ‘interior’ apartir daquilo que observamos e experimentamos no ‘exterior’. Um colega de ofício citava uma frase que vai fundo e leva longe: “O Cristão é o adversário do absurdo, é o profeta do significado” (P. Ricoeur). Aqui reside a densidade espiritual do evangelho entre o absurdo e o significado. Equilíbrio no fio de navalha. Como quem ‘golpeia’ castanhas para que possam ser ‘bem assadas’; só com um golpe doméstico as teremos ‘quentes e boas’. Golpear sem ferir… a sangue frio?! Absurdo e significado lado a lado… quem diria-que-dá-para-fazer-assim!

No lado do absurdo a experiência de verificar, até à exaustão, que “não ficará pedra sobre pedra”, “guerras, terramotos, fomes e epidemias”, perseguições e assassínios tão gratuitos quanto cruéis”. O Evangelho neste realismo esmaga-nos contra o pessimismo, contra o sofrimento. E sabemos ‘bem e a mal’, de experiência ressentida que: “quando o sofrimento atinge um certo patamar, a gente tenta qualquer coisa para explicar o que está acontecendo, mesmo sabendo que nada explica nada e que todas as explicações são igualmente fúteis” (Philip Roth).

No lado do significado a serenidade e a lucidez, de quem não cruza as mãos e os pés, porque é “preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim”; o aprendizado testemunhal da ‘língua e da sabedoria poderá ser sinal de ‘resistência e não-contradição’ [a linguagem de fé verdadeiramente inculturada: popular e erudita, simples e profunda, espiritual e profética, responsável e bem humorada…etc], chegando ao extremo ético e estético: “nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá”.

Reproduzo um texto sugestivo de Alexandre O’Neill (1924 – 1986), ‘Princípio da Utopia’, que pode ajudar a rezar o absurdo do nosso quotidiano individual-político-económico-sociológico, para que o evangelho no verdadeiro significado da vida nos dê um olhar ‘restaurado’ de crente cidadão no mundo que nos salvará a todos (as).

 

***   ***   ***

 

Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,

que o absurdo, mesmo em curtas doses,

defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!

Se é verdade o aforismo faca afia faca (…) então que a faca do absurdo

venha afiar a faca da nossa embotada vontade,

venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado

e o dia a dia será nosso e diferente (…)

Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.

Mas nós não queremos ser um povo feliz (…)

Nós queremos a maleita do suíno, a noiva que vê fugir o noivo,

a mulher que vê fugir o marido, o órfão que é entregue à caridade pública,

o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital

onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou nenhuma (…)

Queremos ser o pai desempregado que não sabe que Natal há-de dar aos seus.

Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia,

um pequeno absurdo às vezes chega para salvar”, Alexandre O’Neill.

FONTES: MIRANDA, Luís, in http://www.no-coracao-de-deus.blogspot.com/, acesso: 12-11-2010; ROTH, Philip, A humilhação, Companhia das Letras, São Paulo, 2010, pp.102; SANTOS, Nicolau in Expresso (06-11-2010), Caderno de Economia [“Cem por Cento”], p.5. – http://aeiou.expresso.pt/nicolau-santos=s23490, acesso: 12-11-2010.

Por: Pedro José, Borralha, 12-11-2010. Caracteres (esp incl.): 3344.

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