“O futuro começa agora” – pequena carta aberta a partir do momento pastoral (22-10-2010)

“O futuro começa agora”

– pequena carta aberta a partir do momento pastoral –

“Só Jesus jogou tudo na carta de Deus” (Manuel Freijó)

[1.] O meu futuro pertence a Deus. O futuro começa já agora, quando ainda estou a fazer as malas, tarefa dolorosamente interminável. O cronograma está-se esgotando, brevemente terminará o prazo. Encontro-me diante dum quadro pessoal (38 anos plenamente ‘verde’, a tender para o claro-escuro, especialista em quase nada…); eclesial (parido três vezes… gerado e nascido na igreja mãe Aveirense; nascido filho-de-criação Maranhense; também, filho adotivo da S.M.B.N.); mundial (‘não há salvação fora do mundo’, onde estão “os afastados”, “os críticos”, “os artistas”, “os caboclos”, “os nerds”, “os que se encontram na margem…”, estou junto com eles… quereria (será exato o Futuro do Pretérito do Indicativo?) estar mais… Adoro observar tudo por fora e por dentro, ler as coisas que ninguém acha relevante. Sei que tenho os ouvidos desafinados.

[2.] Existem duas balizas existenciais importantes para a Fé, como em toda a mudança de horizonte e chão. Criatividade e Fidelidade. Espírito Santo em plena dinâmica. Viver engraçado. Ou então Criatividade e Esperança (quem espera faz-se suficientemente fiel…). Criatividade que põe em xeque os métodos/receitas que até então foram eficientes e que necessitam ser repensados, por força das enormes transformações por que passa Chapadinha (é preciso sair da UTI, e entrar com coragem profética num “Choque de Gestão”), isto dentro do Brasil do “BRIC” (o Maranhão já não está-mais-quase-parado…), e dentro do Mundo Globalizado (“Quente, Plano e Lotado” – na mais recente análise do jornalista, Thomas L. Friedman). Vivi e viverei imbricado nesta Cultura Maranhense que não entendo, melhor não posso aceitar completamente, mas que amo cada vez mais, e no coração dela, a Religião Popular. “Fiz” as últimas quatro procissões urbanas, com alento e devoção – o oitavo sacramento. Como sou/fui criativo? Como procurei ser/fui criativo? Criativo fazendo procissões!? Em S. Teresinha – não poderemos atravessar mais a BR por questões de segurança rodoviária, aconteceu de forma bela e ordeira (caos dentro da ordem) a procissão; S. Francisco – depois de termos celebrado em 2008, com ajuda dos irmãos de S. Luís, os 800 anos do carisma franciscano, no chão das ruas do bairro, sonhei novamente com a belíssima Cruz de S. Damião…refugiei-me na sombra das casas mais altas; N. Senhora Aparecida – a mãe da pátria, no dia da sua procissão e antes da missa solene, andando a pé até à Igreja do bairro, deparei-me com o Sr. Zé…, (re)tirando a pele duma cascavel, de oito anos, contados pela observância do chocalho, estórias bem diferentes das que se vêem no canal National Geographic, tudo muito bem integrado e apocalíptico, na imensa multidão de encerramento, medalha de prata, depois da nossa Padroeira; e para terminar em Santa Margarida d’Youville – a animação dos tambores bem doseados com o violão, nada deslocado, gerando um som burilado quase étnico, a missa com transmissão exterior para o telão data-show, em cenário natural, só superado pela inércia vencida ao calcar o empedramento gasto debaixo dum sol impiedoso nas ruas poeirentas e aleatórias do bairro em crescimento.

[2.1.] Em quase tudo, procurei ser igual a mim mesmo (modo, estilo e prioridade), quer no centro e quer na periferia. Suprindo as doses de autoridade eternamente mal digerida. Guardo no coração as consequências pastorais deste tirocínio contraditório, congruente e serviçal. Todos os outros Bairros, todas as Comunidades das nossas queridas e proféticas CEBs (nas duas paróquias, especialmente, em S. Francisco, Município de Mata Roma); todas as Pastorais e Movimentos; todas as conversas da “pastoral-do-sentadinho”; todas as “saideiras” e “expulsadeiras”; todas as confissões e confidências; todos os e-mails, com textos alheios e próprios; todos os sorrisos e lágrimas; todas as palestras, cursinhos e reuniões infindáveis; todas as brigas institucionais e sociais (e que brigas boas… vitória, derrota, empate: só Deus é o nosso “Paráclito”, como anuncia a língua grega do NT) e abraços; num só “conceito/postura”: ”Pastoral do lava pés”: ser inteiro na recusa petrina, futuramente já superada. – Serei livre (porque liberto) a partir dos meus pés, o cérebro virá depois!

[3.] Neste dia “Mundial das Missões” (24-10-2010) estou aqui em Chapadinha. Onde deveria estar eu no presente em Deus? Junto dos Irmãos mais esquecidos e mais necessitados? Que necessidade e que esquecimento “interessam” para o Reino de Deus? Padre missionário ou padre em missão? Como já escrevi e sei que pelo menos três pessoas o leram: “O seguimento é um “deixamento”. Não tenho o “missionário” como genético”. Sei agora com um pouco mais de lucidez dessa possibilidade na História comum e incomum. “Não sou padre missionário, estou em missão, como todos se esforçam por estar. Não estou a mais nem a menos. Sou padre em situação de missão. Queria ser padre missionário, mas não sou capaz. [os Missionários genuínos jogam a ‘liga dos campeões’ eu pertenço ás ‘divisões mais em baixo’…] Não me programei para essa identidade. Antes eu acreditava, agora apenas sei. A missão das parcerias é para mim mais que suficiente. [quero continuar por aí em dom e tarefa diocesanas plurais] A missão que realizo é a médio prazo. O longo prazo pertence exclusivamente a Deus. A minha luta é contra o tempo a favor da eternidade. Estar em missão é uma escolha, como as que fazemos ao lavar os dentes logo pela manhã. Deste meditar surgem apetências e consequências” (29-01-2008).

[4.] Onde está a minha Esperança? Melhor ainda, onde estão as Razões da nossa Esperança? Para mim, que sou cristão primeiro e depois padre católico, para todos os batizados católicos, e em espírito de partilha, com todos os homens e mulheres de boa vontade e firme decisão. Onde estará a nossa Esperança? E Esperança porque para o cristão todo fim é começo. A Esperança não é “aditivada”. A Esperança é essência. Meu Sonho de Esperança com D. Luciano Mendes: “Sonhei com as comunidades cristãs intensificando sua vida de oração, aprofundando a Palavra de Deus e assumindo a missão de evangelizar. Sonhei que surgiam e cresciam as pastorais da criança, do menor carente, dos enfermos, dos encarcerados, da mulher marginalizada e dos sofredores de rua. Comprometiam-se os cristãos com os movimentos de moradia, saúde e alfabetização. Fortificavam-se o exercício da cidadania, o empenho na promoção do bem comum e, em especial, no mundo do trabalho. São sinais pequenos talvez, mas nos despertam para a solidariedade, para o amor gratuito nos vários ambientes da sociedade. Esses sonhos menores podem deixar de ser meros sonhos e se tornar realidades na medida em que diminuímos o torpor do egoísmo, o apego ao próprio comodismo e a insensibilidade diante do sofrimento do próximo. Deus permita que tudo isso possa, quanto antes, acontecer. Será sonho? Depende de você.” Depende de todos nós! Quem sabe faz a hora!

[5.] Impossível concluir esta pequena carta aberta, de tão aberta toca o infinito íntimo jogado no mar das nossas vivências e (des)afetos. “Tudo faz sentido: do passado obscuro ao futuro incerto” (cfr. Saul Bellow). Procurar ser místico, pragmático e profundo no Olhar da Fé, com sabedoria, no Olhar da Vida Espiritual. Seremos uma eterna ‘carta em branco’ escrita com a ajuda de Deus Nosso Pai. “Nenhum santo sem passado. Nenhum pecador sem futuro”. Não há lugar e vez para rascunhos morosos e desfigurantes, do Rosto de Cristo, no irmão de quem nos fazemos Próximo. Por essas e outras razões de coração, guardo e reatualizo com simpatia os meus apontamentos “Sobre 10 palavras fundamentais da vida espiritual”: 1. Trabalho, 2. Delicadeza, 3. Compaixão, 4. Indignação, 5. Rezar, 6. Ler, 7. Conversão, 8. Diálogo, 9. Corpo, 10. Pequeno. Sinalizaram as minhas virtudes, meus sucessos e meus fracassos. Sobretudo nos fracassos sintomáticos, revestidos de perplexidade. Assim poderemos continuar a evoluir, até junto de Deus, caminhando pelos Irmãos. Sem ressentimento, sem perfeccionismo (vou validar a vacina).

[5.1.] Tudo isso vivi e sobretudo aprendi (ensinei o que poderia ser ensinado com a “liberdade do magistério”, na “responsabilidade dos horários” e na planificação insuficiente “versus” programação excedente). Precisa-se dum P.G.P., isto é, Plano de Gestão Pastoral (de preferência ‘Alargado’). Procurando amar e servir na “Família Missionária Alargada” que me acolheu e criou condições de Trabalho e Lazer (muito mais trabalho que lazer, mas ainda bem, pois é assim a vida proba (além de probatória), mas faltou-me muito a qualidade no lazer, no ócio contemplativo, sem pseudo-despesismo). Estou em falta, ainda não estudei suficientemente o Documento de Aparecida (2007). Mais solução e menos problema na sua recepção prática.

[5.2.] Finalizando, ao mencionar Família, como substantivo; Missionária, como adjetivo; e Alargada, apenas como “algo mais”. Alargar os olhos, os endereços, e as falas sem brilho e cretinice. Alargar a pobreza e insatisfação intelectual, moral e evangélica de se saber Pessoa em primeiro, e só depois de pagas ou negociadas todas as dívidas e ou conflitos existenciais (sociais), apresentar o Serviço do Sacerdócio Ministerial.

Agradecido aos Amigos Padres, companheiros infatigáveis de missão, no ardor vocacional; Agradecido às queridas Irmãs Religiosas de votos evangélicos coerentes; Agradecido aos Leigos comprometidos com seu batismo no carisma e na missão de cada dia; Agradecidos aos/ás Cristãos(ãs) que dão vida ao evangelho porque são livres do medo; Agradecido aos(as) Amigos (as) de longe e aos/às que se fizeram próximo; Agradecido ao Calor escaldante, à canícula nordestina, à siesta na rede, que me regenerou no corpo biológico dando um vigor psicológico sem apreço; Agradecido à Água gelada (á parte as diversas infecções) que me matou a sede, ao cheiro da Terra nas primeiras Chuvas! Que Chuvas Bonitas! Agradecido à Cultura Maranhense, na sua gastronomia inconfundível de sabores e cheiros (não consegui engordar nem um pouco, paciência!); no seu linguajar criativo; na música e arte que ouvi e vi no seu melhor, não em programações municipais, mas noutras partes, na sua qualidade inquestionável; Agradecido pela Fraternidade e Cordialidade, sem limites, nos modos de ser e ter! Agradecido por ‘Isto e por Aquilo’, ou por “Aquele pecado não lembrado e ou esquecido”; No resto que é muita coisa mesmo… Vão desculpando!? Plenamente agraciado! Unidos na Oração e On-line!?

pe. pedro josé (ordenado a 13-07-1997), em Acordo Missionário (11-09-2001 a 29-10-2010): Diocese de Aveiro / Sociedade Missionária Boa Nova (Região do Brasil) / Diocese de Brejo – Maranhão Paróquia N. S. das Dores, Chapadinha – MA, 22-10-2010. 10.415 caracteres (c/ esp. incluídos) Tempo: das 8h30 às 14H00 (c/pausa para almoço).

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Ensaio Biográfico. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s